Introdução: O Inverno da Diplomacia
Janeiro de 2026 não trouxe apenas a neve habitual aos Alpes Suíços; trouxe um gelo diplomático que não se via desde o fim da Guerra Fria. O Fórum Econômico Mundial de Davos, tradicionalmente o palco da globalização e dos sorrisos corporativos, transformou-se em uma zona de guerra de baixa intensidade. O motivo? O ultimato de Donald Trump, disparado de seu golfe em West Palm Beach poucos dias antes: ou a Dinamarca aceitava uma “negociação total e completa” pela Groenlândia, ou oito nações europeias enfrentariam tarifas punitivas de 25%.
O que estava em jogo em Davos não era apenas o preço do aço ou do vinho francês. Era a validade do Artigo 5º da OTAN e a própria definição de soberania no século XXI. Trump não chegou à Suíça para debater; ele chegou para cobrar o que considera ser a “taxa de proteção” americana sobre o Ocidente. Para a Europa, contudo, a Groenlândia tornou-se a linha na areia (ou no gelo). Ceder ali significaria aceitar que qualquer território do bloco poderia ser o próximo alvo de um “cheque em branco” de Washington.
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1. O Ultimato de 25%: A “Arma Tarifária” como Chantagem Territorial
Para entendermos a gravidade do momento, precisamos olhar para a mecânica da ameaça. Em 17 de janeiro de 2026, Trump utilizou suas redes sociais para anunciar um imposto de importação extra de 10% sobre a Dinamarca, Reino Unido, França, Alemanha, Holanda, Finlândia, Suécia e Noruega. O gatilho para a agressividade foi a descoberta de um exercício militar conjunto entre essas nações em solo groenlandês — algo que a Casa Branca classificou como “jogar um jogo muito perigoso com a sobrevivência do planeta”.
Nesse sentido, o ultimato foi desenhado para causar dor imediata. A promessa era de que, se um acordo de venda não fosse assinado até 1º de junho, a tarifa saltaria para 25%. Dessa forma, Trump tentou usar o mercado consumidor americano como uma clava para forçar uma transação imobiliária de escala continental. No entanto, o tiro saiu pela culatra. Em vez de se acovardarem individualmente, as capitais europeias ativaram, pela primeira vez com força total, o seu “Instrumento Anti-Coerção”. A mensagem foi clara: se os EUA fechassem os portos para a Europa, a Europa fecharia o acesso ao maior mercado único do mundo para as empresas americanas.
2. O Eixo Macron-von der Leyen: A Soberania Europeia à Prova de Fogo
Enquanto Trump desembarcava em Davos com a retórica de “gerente do mundo”, o presidente francês Emmanuel Macron e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, já haviam costurado um escudo diplomático. A rigor, a Europa parou de tratar a obsessão de Trump como um meme e passou a tratá-la como uma ameaça existencial. Em seus discursos no Fórum, ambos foram enfáticos: a Groenlândia é território europeu e a soberania de um aliado da OTAN não está à venda por nenhum preço, muito menos sob ameaça de impostos.
De fato, a estratégia europeia foi baseada em três pilares: solidariedade incondicional à Dinamarca, ameaça de retaliação econômica proporcional e, o mais importante, a criação de uma alternativa. Em vez de apenas dizer “não”, a UE anunciou em Davos o lançamento de um fundo de €800 bilhões voltado para a “Autonomia Estratégica”. Parte desse dinheiro seria destinado especificamente para infraestrutura de defesa e pesquisa mineral no Ártico, garantindo que a Groenlândia não precisasse do capital americano para se desenvolver. Por conseguinte, a Europa tentou provar que pode ser a fiadora da própria segurança, sem precisar se curvar aos caprichos de um segundo mandato Trump que ignora a diplomacia tradicional.
3. A Guerra Subterrânea: Terras Raras e o “Domo de Ouro”
Mas por que tanto esforço por uma ilha de gelo? A resposta, discutida em sussurros nas salas VIP de Davos, atende pelo nome de “segurança de suprimentos”. A Groenlândia detém algumas das maiores reservas não exploradas de terras raras do mundo — minerais essenciais para tudo, de chips de IA a mísseis hipersônicos. Atualmente, a China domina esse mercado, e Trump está convencido de que os EUA só estarão seguros se controlarem a fonte. Ele chama isso de “Domo de Ouro”: um sistema de defesa e produção que tornaria a América autossuficiente e impenetrável.
Simultaneamente, a Europa sabe que sua própria transição energética depende desses mesmos minerais. Portanto, o embate em Davos foi, no fundo, uma corrida pela sobrevivência industrial. Se Trump “trancasse” a Groenlândia, a indústria alemã e francesa ficaria refém da vontade da Casa Branca para obter matéria-prima. Dessa maneira, a resistência europeia em 2026 não foi apenas uma questão de princípios democráticos, mas de garantir que o continente não fosse desindustrializado por falta de recursos que estão no seu próprio quintal geográfico.
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4. O Fator China: O “Inimigo do meu Inimigo” em Davos
Enquanto a delegação americana tentava isolar os europeus, um ator silencioso movia suas peças nos bastidores dos hotéis cinco estrelas de Davos: a China. Para Pequim, o interesse de Trump na Groenlândia e no Panamá é visto como uma declaração de guerra comercial geográfica. Nesse sentido, o ministro das relações exteriores chinês, em uma reunião bilateral secreta com representantes da União Europeia, ofereceu o que muitos chamaram de “Pacto de Conveniência”. A proposta era simples: a China apoiaria a soberania dinamarquesa através de investimentos em infraestrutura via “Rota da Seda Polar”, desde que a Europa não cedesse às pressões de Washington para banir as empresas de tecnologia chinesas do continente.
Contudo, essa oferta colocou a Europa em uma “escolha de Sofia”. De um lado, aceitar o dinheiro chinês significaria enfurecer ainda mais um Trump já instável, que veria o movimento como uma traição definitiva à OTAN. Do outro, recusar o apoio de Pequim deixaria o bloco sozinho contra a força bruta do dólar. Dessa forma, a diplomacia europeia em Davos 2026 operou no fio da navalha. O resultado foi uma declaração conjunta que reafirmava o “Multilateralismo Estratégico” — um termo elegante para dizer que a Europa aceitaria investimentos de qualquer lugar, desde que as chaves da soberania permanecessem em Copenhague. Em última análise, a China usou Davos para provar que, se Trump quer fechar portas, Pequim está pronta para construir novas janelas, mesmo que no gelo.
5. O Papel do Reino Unido: Entre a “Relação Especial” e o Abismo Europeu
Um dos pontos mais dramáticos daquele fórum foi a posição britânica. No início de 2026, o Reino Unido, ainda tateando sua relevância pós-Brexit, viu-se dividido. O governo de Londres foi pressionado por Trump a atuar como um “mediador” que, na prática, deveria convencer os dinamarqueses a aceitarem um arrendamento de 99 anos da Groenlândia — uma espécie de “Hong Kong do Ártico”. A rigor, Londres tentou manter sua “relação especial” com Washington sem destruir as pontes que ainda restavam com o mercado comum europeu.
No entanto, a pressão interna no Reino Unido foi imensa. A opinião pública britânica, temerosa de que Trump voltasse seus olhos para as Ilhas Malvinas ou para bases no Mediterrâneo após “resolver” o caso da Groenlândia, forçou um recuo do primeiro-ministro. Por conseguinte, em um dos momentos mais tensos de Davos, o Reino Unido alinhou-se ao Eixo Macron-von der Leyen. Pela primeira vez em anos, a Europa falou a uma só voz. De fato, esse alinhamento foi o golpe de misericórdia nas pretensões de Trump de dividir o bloco para conquistar. Sem o apoio britânico, o plano de anexação disfarçada da Groenlândia perdeu o lastro moral de que precisava para parecer uma “necessidade de segurança ocidental”.
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6. A Reação de Trump: O “Showman” contra-ataca
Como era de se esperar, Donald Trump não aceitou a resistência europeia com passividade diplomática. Em uma coletiva de imprensa improvisada na saída do centro de convenções, o presidente americano foi devastador. Ele chamou a União Europeia de “um cartel de nações fracas que vivem às custas da proteção americana” e reiterou que o tempo da diplomacia educada havia acabado. Dessa maneira, o tom de 2026 subiu para um nível de agressividade que muitos analistas compararam ao período pré-guerras comerciais de 2018, mas com uma diferença fundamental: agora, o alvo não era apenas o superávit comercial, mas o território físico.
Simultaneamente, Trump começou a mobilizar sua base interna nos EUA, pintando a Groenlândia como o “Novo Alasca” e o Panamá como uma “Propriedade Roubada”. Portanto, o que vimos em Davos não foi um encerramento da disputa, mas a sua mutação. Trump percebeu que não conseguiria a Groenlândia através de um aperto de mãos em um ambiente controlado por elites globais. Em suma, ele decidiu que, se Davos não lhe daria o que queria, ele buscaria através de sanções bilaterais e da “Manobra de Pinça” que já discutimos no Texto 2. O recuo em Davos foi, na verdade, um reposicionamento para um ataque mais lateral e doloroso.
7. O Acordo de Fachada: Ganhar tempo no gelo
Para evitar um colapso total dos mercados financeiros durante a semana do fórum, as delegações assinaram o que os especialistas apelidaram de “O Memorando de Gelo”. Foi um documento vago, cheio de termos técnicos, que prometia a criação de um “Comitê de Coordenação do Ártico”. Na prática, foi um acordo de fachada para permitir que todos saíssem da Suíça sem parecerem derrotados. Contudo, por trás da papelada, a realidade era outra: a Europa começou a militarizar suas fronteiras árticas e os EUA iniciaram a retirada de investimentos de fundos soberanos europeus.
A conclusão de Davos 2026 é que a ordem mundial baseada em regras, aquela que o Fórum sempre defendeu, está oficialmente na UTI. Por outro lado, a resistência europeia serviu para mostrar que o mundo não é mais puramente unipolar. Dessa forma, o início de 2026 nos ensina que o controle do Ártico será a grande “Guerra Fria 2.0”, mas desta vez entre aliados que já não confiam uns nos outros. No fim das contas, o Contra-Ataque de Davos foi apenas o primeiro round de uma luta que promete durar todo o segundo mandato de Trump.
Encerramento da Série: O que vem a seguir?
Chegamos ao fim desta trilogia no Conversa Fora. Do Domo de Ouro na Groenlândia à Manobra de Pinça no Panamá, e agora ao choque de potências em Davos, o mapa de 2026 está sendo redesenhado diante dos nossos olhos.
André Sampaio
André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).
