O Rio que ficou nas fachadas

O falso vazio das fachadas

Durante muito tempo, o Rio de Janeiro escolheu esquecer.
Não por descuido, mas por escolha. Não por falta de memória, mas por excesso de urgência. A cidade sempre foi rápida em desejar o novo e lenta em lidar com o que ficou pelo caminho. Entre uma promessa de modernização e outra, sobraram edifícios inteiros: fechados, vazios, atravessados pelo tempo.

Quem anda pelo Centro percebe. Não é preciso procurar muito. Basta caminhar sem pressa, levantar os olhos além das vitrines e dos anúncios recentes. Janelas tapadas, fachadas descascadas, portas que não se abrem há anos. Prédios que permanecem ali, firmes, mesmo quando tudo ao redor muda de função, de público, de valor. Eles não gritam. Não pedem atenção. Apenas permanecem.

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À primeira vista, parecem vazios. Mas esse vazio é uma ilusão. O que existe ali é um excesso: de tempo acumulado, de decisões interrompidas, de projetos que não chegaram ao fim. Cada prédio abandonado no Rio é menos um espaço ocioso e mais um arquivo aberto — ainda que ninguém esteja oficialmente consultando seus documentos.

Walter Benjamin escreveu que toda ruína é um testemunho do fracasso do progresso. Não no sentido de um colapso total, mas como evidência de que a promessa de avanço contínuo nunca se cumpre plenamente. No Rio, essa ideia ganha corpo concreto. A cidade que sempre se apresentou como vitrine do futuro guarda, em seus prédios esquecidos, os restos materiais dessa promessa.

O abandono não acontece de uma vez. Ele se instala lentamente. Primeiro, o prédio perde centralidade. Depois, perde função. Mais tarde, perde interesse. Por fim, perde nome. Passa a ser apenas “aquele prédio ali”. O esquecimento não vem como ruptura, mas como deslizamento. A cidade segue, o edifício fica.


Quando a cidade desvia o olhar

Henri Lefebvre insistia que o espaço urbano não é neutro. Ele é produzido socialmente, atravessado por relações de poder, interesses econômicos e disputas simbólicas. Quando um prédio é abandonado, isso não diz apenas sobre ele, mas sobre o que deixou de ser considerado importante.

No Rio de Janeiro, o esvaziamento de certas áreas não ocorreu por acaso. Ele acompanhou deslocamentos do capital, mudanças no eixo de valorização da cidade e reconfigurações do olhar urbano. Durante décadas, o Centro foi perdendo o lugar que ocupava no imaginário cotidiano. O trabalho se deslocou, o consumo migrou, a vida noturna se concentrou em outros bairros.

Muitos prédios que haviam sido símbolos de modernidade — escritórios, hotéis, grandes lojas — tornaram-se grandes demais para uma cidade que já não os queria daquele jeito. Não houve colapso repentino. Houve desinteresse prolongado.

O antigo prédio da Mesbla é um desses casos. Localizado em uma das áreas mais movimentadas do Centro, ele já foi símbolo de consumo, circulação e promessa de pertencimento à modernidade urbana. Quando as portas se fecharam, não foi apenas uma loja que encerrou atividades. Foi um modo de ocupar o espaço que deixou de fazer sentido. O edifício permaneceu, mas a cidade desviou o olhar.

Prédio onde funcionava a antiga loja de departamentos Mesbla (1950 – 1999). Abandonado desde então, somente na atual gestão da prefeitura do Rio de Janeiro, ganhou um projeto de revitalização.

O mesmo pode ser dito da antiga Estação Leopoldina. Monumental, imponente, pensada para ser ponto de chegada e partida, ela se transformou em um espaço suspenso no tempo. Sua arquitetura ainda carrega a ambição de uma cidade que se pensava como centro de conexões. Mas, por muito tempo, existiu como ruína funcional: grande demais para desaparecer, esquecida demais para ser integrada ao cotidiano.

Esses prédios não são exceções. Eles formam um conjunto silencioso espalhado pela cidade. Construções vazias na Avenida Presidente Vargas, edifícios antigos na Saúde, na Gamboa, na Lapa. Fachadas que resistem mesmo quando o entorno muda de perfil, de público, de narrativa. São presenças incômodas porque lembram que a cidade não se renova sem deixar restos.

Leia também: O que é uma paisagem quando ninguém está olhando?


Tempos que não passam

Milton Santos dizia que o espaço é a acumulação desigual de tempos. No Rio, essa desigualdade é visível. Prédios abandonados não pertencem apenas ao passado; eles convivem com o presente. Compartilham a calçada com escritórios modernos, bares recém-abertos, projetos que prometem revitalização.

Essa convivência cria uma tensão constante. O passado não desaparece só porque o futuro foi anunciado. Diferente das ruínas clássicas, celebradas pelo tempo, os prédios abandonados do Rio não têm aura turística. Eles não foram transformados em memória oficial. Permanecem como lembrança involuntária.

Marc Augé falava dos “não-lugares” como espaços de passagem, sem identidade nem história. Mas esses edifícios produzem quase o efeito contrário. Eles são lugares saturados de história, mas esvaziados de uso. Não pertencem ao fluxo, mas também não foram retirados dele. Estão suspensos.

A literatura urbana brasileira sempre percebeu essa suspensão. João do Rio caminhava pela cidade atento às margens, aos personagens invisíveis, aos espaços esquecidos. Lima Barreto denunciava o projeto de modernização que prometia progresso enquanto excluía grande parte da população. Seus personagens circulavam por uma cidade que não os reconhecia.

Essa sensação permanece. Os prédios abandonados do Rio não são apenas construções sem uso. Eles funcionam como marcadores de exclusão simbólica. Indicam momentos em que a cidade decidiu investir energia em outros lugares, em outros públicos, em outras narrativas. O esquecimento, aqui, não é ausência de memória, mas escolha ativa do que não será lembrado.

Importante dizer: o abandono não é eterno. Ele pertence a ciclos. Há momentos em que o olhar retorna. Mas quando isso acontece, o edifício já carrega as marcas do tempo em que ficou à margem. Nenhuma intervenção apaga completamente o período em que ele foi ignorado.


O que permanece quando tudo muda

Walter Benjamin observava que as ruínas revelam mais sobre a história do que os monumentos. Porque os monumentos celebram o que venceu; as ruínas mostram o que ficou pelo caminho. No Rio, os prédios abandonados cumprem essa função crítica. Eles revelam falhas do planejamento, mudanças abruptas de interesse e a fragilidade das promessas urbanas.

Há também uma dimensão ética nessa paisagem. Durante muito tempo, o esquecimento urbano esteve ligado à expulsão simbólica de certas formas de vida. Quando um prédio deixa de ter função, quem o ocupava também desaparece do mapa. O edifício vazio é apenas a parte visível de uma reorganização mais profunda.

Conceição Evaristo escreve que a memória não é apenas lembrança, mas corpo. No espaço urbano, essa ideia se materializa. A memória coletiva se inscreve em paredes, corredores, fachadas. Prédios abandonados são corpos urbanos que carregam cicatrizes.

Reconhecer isso não significa congelar a cidade nem idealizar o passado. Significa admitir que o espaço urbano carrega histórias que não se apagam com novas camadas de tinta ou novos projetos. A memória coletiva não se constrói apenas com o que é celebrado, mas também com o que foi deixado de lado.

Ao caminhar pelo Centro, isso se impõe. Entre um prédio reformado e outro ainda fechado, a cidade revela suas escolhas. O passado não está morto, nem resolvido. Ele insiste. Aparece nas frestas, nas fachadas antigas, nas construções que resistem ao desaparecimento completo.

Talvez por isso esses prédios incomodem tanto. Eles interrompem a narrativa de progresso contínuo. Lembram que a cidade não avança em linha reta. Que há desvios, abandonos, silêncios. E que esses silêncios também falam.

No fim, prédios abandonados são menos sobre o que falta e mais sobre o que sobra.
Sobra tempo.
Memória.
Sobra a evidência de que toda cidade escolhe o que preservar — e que, durante muito tempo, o Rio escolheu esquecer muito.

Os prédios ficaram.
E, ficando, continuam lembrando.

Referências Bibliográficas:

Walter Benjamin — Passagens
Henri Lefebvre — O Direito à Cidade
Milton Santos — A Natureza do Espaço
Marc Augé — Não-Lugares
João do Rio — A Alma Encantadora das Ruas
Lima Barreto — Triste Fim de Policarpo Quaresma
Georges Perec — Espécies de Espaços
Conceição Evaristo — Olhos d’Água

André Sampaio

André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).

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