Descolonizar os afetos: Uma análise sobre a obra de Geni Núñez

Descolonizar os afetos: Uma análise sobre a obra de Geni Núñez

Amigo (a) leitor(a), antes de começarmos o texto, preciso fazer uma ressalva que a própria autora faz na obra. Em geral, usamos a palavra afeto como sinônimo de carinho. Neste texto, usaremos afeto como a capacidade política do corpo de afetar e ser afetado pelo outro e pelo mundo.

Há uma tentação recorrente quando falamos de colonialismo: tratá-lo como algo que aconteceu fora de nós. Um processo histórico encerrado, circunscrito ao território, à economia, às línguas silenciadas, às violências explícitas do passado. Essa leitura oferece um certo conforto. Permite localizar a colonização no “antes” e no “lá”, preservando o “agora” e o “aqui” como espaços supostamente livres, neutros, superados.

Descolonização dos Afetos, de Geni Núñez, começa justamente onde esse conforto termina.

O livro parte de uma proposição incômoda: a colonização não acabou porque ela não se limitou a ocupar terras — ela organizou subjetividades. E se organizou subjetividades, então atravessou também aquilo que costumamos chamar de íntimo, pessoal, emocional. O amor, o desejo, o ciúme, a ideia de vínculo, a forma como aprendemos a nos apegar e a nos separar: nada disso escapa ileso.

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Essa é uma das forças centrais do livro: deslocar o debate do campo das estruturas visíveis para o terreno mais instável dos afetos. Não para psicologizá-los, mas para politizá-los de outra maneira. Ao fazer isso, a obra não oferece um novo modelo afetivo para ser seguido. Propõe algo mais radical — e mais difícil: desaprender.

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A colonização não termina no território

Pensar os afetos como campo político ainda causa resistência. Em parte porque fomos ensinados a separá-los da história, como se sentimentos existissem num plano natural, anterior à cultura, à moral e ao poder. Amar, nesse senso comum, seria um gesto espontâneo, quase biológico; sofrer por amor, uma fatalidade humana; desejar exclusividade, uma inclinação “normal”.

O que Descolonização dos Afetos desmonta é justamente essa naturalização.

Afetos são aprendidos. Eles circulam. São incentivados, reprimidos, celebrados ou punidos. Uma sociedade ensina não apenas o que sentir, mas como sentir, quando sentir e por quem sentir. Ensina também o que deve causar vergonha, culpa ou orgulho. Nesse sentido, afetos funcionam como uma tecnologia social: organizam comportamentos, estabilizam hierarquias, produzem pertencimento e exclusão.

A colonização entendeu isso muito cedo. Não bastava dominar territórios; era preciso reorganizar formas de vida. Isso implicava intervir nas relações familiares, nas sexualidades, nos modos de cuidado, nos sistemas de parentesco, nas formas de amar e de se vincular. A imposição de um modelo cristão, patriarcal e heteronormativo não foi um efeito colateral da colonização — foi um de seus instrumentos centrais.

Quando Geni Núñez afirma que os afetos também foram colonizados, ela não está usando uma metáfora frouxa. Está nomeando um processo histórico concreto: a substituição forçada de cosmologias relacionais plurais por um modelo moral único, que organiza o amor em torno de normas rígidas, hierarquias claras e punições simbólicas severas para quem desvia.

Desse ponto de vista, amar nunca foi apenas amar. Sempre foi também obedecer.


Afeto, moral e a cristianização do amor

Para entender o alcance da crítica de Geni Núñez, é preciso encarar uma herança que costuma passar despercebida: a cristianização do amor. Não apenas como religião institucional, mas como matriz moral profundamente entranhada na cultura ocidental moderna.

O amor que aprendemos a idealizar — exclusivo, sacrificial, permanente, centrado no casal — não é uma evidência universal da experiência humana. Ele é uma construção histórica. E essa construção está intimamente ligada à moral cristã, especialmente à sua noção de virtude, culpa e redenção.

Nesse modelo, amar é renunciar. É suportar. É provar fidelidade por meio do sofrimento. O amor verdadeiro seria aquele que resiste a tudo, inclusive à própria vida. Não por acaso, o ciúme deixa de ser visto como um problema relacional e passa a ser interpretado como prova de amor. A posse se traveste de cuidado. O controle, de zelo.

Esse deslocamento é fundamental: o amor deixa de ser uma relação situada entre pessoas concretas e passa a funcionar como um valor moral abstrato. Algo que se deve honrar, mesmo que isso custe a própria integridade emocional.

Geni Núñez não trata essa herança como um detalhe cultural secundário. Ela mostra como a cristianização do amor opera uma espécie de pedagogia afetiva: ensina a suportar violências em nome de uma promessa futura de completude, estabilidade ou salvação. Amar torna-se um dever. E falhar no amor, um fracasso moral.

Essa lógica não se restringe à esfera religiosa. Ela atravessa a modernidade secularizada, reaparece nos discursos terapêuticos, nos ideais de família, nas narrativas românticas, nos contratos afetivos invisíveis que organizam a vida social. O cristianismo, nesse sentido, não desaparece — ele se transforma em senso comum.


A comparação entre monogamia e monoteísmo

É nesse ponto que surge uma das passagens mais provocadoras — e mais mal interpretadas — de Descolonização dos Afetos: a comparação entre monogamia e monoteísmo.

Aqui, é preciso cuidado. Geni Núñez não está propondo uma equivalência simplista entre religião e forma de relacionamento. Ela não afirma que a monogamia seja uma prática religiosa, nem que pessoas monogâmicas estejam, conscientemente ou não, reproduzindo dogmas teológicos. O que ela faz é mais sofisticado: identifica homologias estruturais entre dois regimes de organização simbólica.

O monoteísmo se funda na ideia de um centro único legítimo. Um Deus verdadeiro, exclusivo, que exige fidelidade absoluta. A relação com esse centro organiza todo o resto: o que é permitido, o que é pecado, o que é desvio, o que merece punição ou perdão. A traição, nesse sistema, não é apenas um erro — é uma ameaça à ordem.

A monogamia moderna, enquanto regime afetivo, opera de modo semelhante. Ela institui um vínculo central absoluto, que deve organizar o desejo, o tempo, os projetos, as prioridades e os afetos. Tudo o que escapa a esse centro tende a ser lido como ameaça: a infidelidade, o desejo por outros, os vínculos não hierarquizados, as formas de cuidado que não passam pelo casal.

A analogia não serve para condenar indivíduos, mas para expor uma lógica. Assim como o monoteísmo não é apenas uma crença pessoal, mas um sistema que estrutura valores e práticas sociais, a monogamia não é apenas uma escolha íntima. Ela é sustentada por um aparato moral, jurídico, cultural e simbólico que a apresenta como natural, superior e desejável.

Essa comparação é potente porque desnaturaliza. Ela retira a monogamia do lugar de evidência e a recoloca no campo da história. Mostra que sua força não vem de uma suposta universalidade humana, mas de sua aliança com regimes de poder que souberam se perpetuar.


O erro da leitura moralizante

Um dos riscos mais recorrentes ao ler Descolonização dos Afetos é, justamente, cair numa leitura moralizante — exatamente o tipo de operação que o próprio livro se propõe a desmontar. Nesse sentido, transformar a análise de Geni Núñez numa defesa automática da não-monogamia, ou, por outro lado, numa acusação genérica à monogamia, significa perder de vista o ponto central da obra.

Antes de tudo, Descolonização dos Afetos não propõe uma nova norma afetiva. Ao contrário, o livro recusa substituir um “dever ser” por outro. Por isso, Geni Núñez não afirma que relações não-monogâmicas sejam, por definição, mais éticas, mais livres ou menos coloniais, nem sugere que vínculos monogâmicos sejam necessariamente opressivos ou equivocados.

A crítica se dirige menos às escolhas individuais e mais à obrigatoriedade simbólica que as envolve. O problema não está em alguém desejar construir uma relação exclusiva, mas em viver numa sociedade que apresenta essa exclusividade como a única forma legítima de amor adulto, responsável e saudável.

Quando a monogamia assume o estatuto de norma incontornável, tudo o que escapa a ela a sociedade empurra para a margem: transforma em imaturidade, promiscuidade, incapacidade de compromisso, ameaça à família ou desvio moral. É esse mecanismo de hierarquização e exclusão que interessa a Geni Núñez desmontar.

Descolonizar os afetos, nesse sentido, não significa trocar um modelo por outro. Significa suspender a crença na existência de um único modelo universal e devolver aos vínculos sua dimensão situada, histórica e negociada.

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Monogamia, poligamia e o erro da leitura quantitativa

Talvez o ponto mais decisivo — e também o mais frequentemente distorcido — da leitura de Descolonização dos Afetos esteja na forma como Geni Núñez define aquilo que chama de monogamia. Não se trata de um detalhe conceitual, mas do eixo que sustenta toda a crítica do livro.

Para a autora, monogamia não é simplesmente:

  • escolher amar uma pessoa por vez;
  • construir um vínculo profundo entre duas pessoas;
  • desejar estabilidade, continuidade ou compromisso;
  • estabelecer acordos de exclusividade de maneira consciente e situada.

Nada disso, em si, constitui um problema. Reduzir a crítica da Geni a uma condenação desses gestos é esvaziar completamente sua proposta.

Da mesma forma, Descolonização dos Afetos não defende a poligamia como solução automática, nem a apresenta como um horizonte moral superior. A poligamia, entendida apenas como multiplicidade de parceiros ou relações simultâneas, tampouco escapa, por definição, das lógicas coloniais que o livro questiona. Relações plurais podem reproduzir controle, hierarquia, silenciamento e exploração com a mesma intensidade — ou até de forma mais sofisticada — que relações monogâmicas.

Esse é um ponto crucial: o problema não é quantitativo

O que Geni Núñez chama de monogamia é algo mais amplo e estrutural: um regime afetivo. Um conjunto de normas, expectativas e valores que organiza o amor em torno da posse, da centralidade absoluta do casal e da hierarquização rígida dos vínculos. Trata-se de uma lógica que define não apenas com quem se ama, mas como se deve amar, quanto se deve investir e o que deve ser sacrificado para que esse amor seja considerado legítimo.

Não é sobre quantos

Nesse regime, o parceiro ou parceira ocupa o lugar de centro afetivo exclusivo. Todos os outros laços — amizades, coletividades, parentescos ampliados, vínculos não românticos — tornam-se secundários, condicionais ou instrumentalizados. O tempo, o cuidado e o reconhecimento passam a ser distribuídos de forma desigual, sempre em função da manutenção desse centro.

Por isso, a monogamia, tal como analisada por Geni Núñez, não funciona apenas como prática relacional, mas como identidade moral. Ser monogâmico deixa de ser uma escolha entre outras e passa a significar ser confiável, maduro, responsável, completo. Romper com esse ideal — mesmo quando se permanece em vínculos éticos e cuidadosos — implica o risco de perda de legitimidade social.

É nesse ponto que tanto a monogamia quanto a poligamia, quando não interrogadas, podem operar sob a mesma lógica colonial: a lógica da posse, do controle e da centralização do afeto. A diferença entre ter um vínculo ou vários pouco importa se todos são organizados a partir da mesma gramática moral.

A crítica de Descolonização dos Afetos, portanto, não se dirige ao afeto entre duas pessoas, nem à multiplicidade de vínculos. Ela se dirige à lógica que transforma o amor em medida de valor humano, que hierarquiza relações, que naturaliza o controle e que ensina a confundir cuidado com posse.

Descolonizar os afetos começa quando essa confusão deixa de parecer natural — e quando somos capazes de perguntar não quantos amores são possíveis, mas sob quais regimes aprendemos a amar.

Este texto não se encerra aqui, terá uma continuação. O que aparece até agora é apenas o chão a partir do qual eu preciso seguir andando. Na próxima parte, parto exatamente desse ponto — dessa concentração de sentido, cuidado e expectativa em poucos vínculos — para tensionar o que fica de fora quando organizamos a vida afetiva desse modo. Não como resposta pronta, nem como prescrição, mas como continuidade de uma inquietação que o próprio texto abriu e ainda não deu conta de fechar.

Caso você tenha mais interesse na leitura da obra, deixo aqui o link com desconto Descolonização dos Afetos, de Geni Núñez. Boa Leitura!

André Sampaio

André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).

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