Sabe aquela sensação de que o mundo, de repente, deu um cavalo de pau e voltamos para o século XIX? Naquela época, impérios compravam e vendiam territórios como se fossem figurinhas de álbum. Pois bem, se você tem acompanhado o noticiário neste turbulento janeiro de 2026, percebeu que a Groenlândia — aquela massa de terra colossal que a gente costumava ver apenas como um “cenário branco” no topo do mapa-múndi — virou o epicentro de uma briga de gente muito grande.
Donald Trump, em seu segundo mandato, não está apenas “interessado” na ilha. Ele a transformou em uma prioridade de segurança nacional absoluta, chegando a flertar abertamente com a ideia de anexação militar. Mas, para além das manchetes bombásticas e dos posts no Truth Social, existe uma engrenagem complexa rodando.
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Por que agora? Por que lá? E por que o mundo inteiro parece estar prendendo a respiração?
Este é o primeiro de uma série de três textos aqui no Conversa Fora. Nossa missão hoje é abrir a “caixa-preta” das motivações americanas. Nos próximos textos, vamos descer o mapa para comparar essa jogada com o que ocorre no Canal do Panamá e, finalmente, entender como a Europa decidiu peitar Washington para manter o gelo sob sua bandeira.
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1. O fantasma da Doutrina Monroe: “A América para os americanos”
Para entender o que move a Casa Branca em 2026, é preciso, antes de tudo, tirar a poeira de um conceito de 1823: a Doutrina Monroe. Em sua essência, ela nasceu como um aviso de que qualquer intervenção europeia no continente americano seria vista como uma agressão direta aos Estados Unidos. Entretanto, o que estamos testemunhando agora não é apenas uma repetição desse dogma, mas uma atualização agressiva que alguns analistas já chamam de “Corolário Trump”.
Afinal, embora a Groenlândia seja politicamente vinculada à Dinamarca — uma monarquia europeia e aliada histórica — ela pertence, geograficamente falando, à placa tectônica da América do Norte. Nesse sentido, na visão da atual administração, permitir que um território estrategicamente vital permaneça sob bandeira europeia é um anacronismo perigoso. Sobretudo porque, em um mundo de cadeias de suprimentos fragmentadas, ter a Dinamarca como “zeladora” da ilha significa, na prática, deixar a porta entreaberta para investimentos pesados de potências rivais.
De fato, o grande incômodo de Washington reside no avanço silencioso de interesses chineses e russos na região, que aproveitam brechas comerciais dinamarquesas para se fincar no Ártico. Por conseguinte, o que Trump propõe é uma espécie de “correção histórica”. Ele não enxerga a ilha como uma propriedade estrangeira a ser adquirida por cortesia, mas como um pedaço do quebra-cabeça americano que ficou perdido no tempo.
Em suma, estamos diante de um choque de eras: é o expansionismo territorial do século XIX operando com a tecnologia de vigilância e a urgência climática do século XXI. Mais do que isso, é a reafirmação de que, para os EUA de 2026, as fronteiras geográficas importam muito mais do que os acordos diplomáticos assinados em gabinetes europeus.
2. A “Guerra das Terras Raras”: O combustível do futuro
Nesse ponto, a conversa sai da teoria e aterrissa na palma da sua mão. Afinal, para entender a obsessão de Washington, basta olhar para o seu smartphone, para a bateria de carros elétricos ou para os chips de IA que processam o mundo hoje. No entanto, há um lado sombrio: esses mesmos componentes são o coração dos mísseis hipersônicos e caças de última geração. Em comum, todos dependem de um grupo estratégico de 17 minerais: as Terras Raras.
O grande problema, contudo, não é a escassez desses minerais na natureza, mas quem detém a chave do cofre. Atualmente, a China não apenas extrai a maior parte da produção global, como também controla quase 90% da cadeia de refino e processamento. Ou seja, o mundo inteiro pode até ter o minério, mas só Pequim sabe como transformá-lo em tecnologia de ponta. De fato, em 2024 e novamente em 2025, o governo chinês deu uma amostra grátis do seu poder de coerção ao suspender exportações de minerais críticos em retaliação às tarifas de Trump. Foi um recado claro: se a guerra comercial apertar, o “coração” da indústria americana pode simplesmente parar de bater.
É nesse cenário de vulnerabilidade que a Groenlândia surge como o “plano A” da Casa Branca. Isso porque a ilha abriga reservas estimadas em mais de 38 milhões de toneladas de óxidos de terras raras — o suficiente para suprir a demanda global por décadas. Trata-se de uma manobra desesperada para quebrar o monopólio chinês e garantir a independência tecnológica dos EUA.
A investida sobre a ilha dinamarquesa é uma tentativa de blindar o que restou da soberania industrial americana. Afinal de contas, em 2026, quem controla o acesso aos minerais do futuro define quem terá a economia mais forte e o exército mais letal. Portanto, o que vemos na Groenlândia é, na verdade, uma questão de sobrevivência nacional mascarada de diplomacia agressiva.
3. O “Domo de Ouro”: O guarda-chuva de 175 bilhões de dólares
Para além das questões econômicas, existe um fator ainda mais profundo e, francamente, mais assustador nessa obsessão: o projeto militar que é a “menina dos olhos” de Trump, o chamado Domo de Ouro.
Mas por que, afinal, a Groenlândia é a peça central desse quebra-cabeça tecnológico? A resposta não está na política, mas na geometria do globo terrestre. Devido à curvatura da Terra, a rota mais curta e direta para qualquer míssil lançado do Hemisfério Norte em direção aos EUA não atravessa o oceano, mas o topo do mundo: o Ártico. Nesse sentido, a Groenlândia funciona como a “guarita” avançada do continente americano. Quem controla o solo groenlandês detém o controle da primeira linha de visão e defesa contra qualquer ataque que venha do outro lado.
Os EUA já possuem uma presença histórica, operando a Base Espacial Pituffik, que abriga radares de longo alcance desde a Guerra Fria. Contudo, o plano de Trump é muito mais ambicioso e invasivo. Em vez de uma base isolada, projeta transformar a ilha em uma verdadeira “floresta tecnológica” de radares de detecção precoce de última geração e silos de interceptadores cinéticos. A lógica militar da Casa Branca é implacável: sem a soberania total sobre o território da Groenlândia, o “Domo de Ouro” teria um buraco estratégico gigante justamente na sua porta de entrada principal.
Essa movimentação sinaliza o fim de uma era de equilíbrio militar. Se os EUA conseguirem se tornar “invulneráveis” a ataques externos através desse escudo na Groenlândia, eles mudam a lógica da Destruição Mútua Assegurada que manteve a paz (ainda que tensa) desde os anos 1950. Portanto, o que está em jogo no gelo do Ártico não é apenas a segurança de Washington, mas a própria estabilidade do sistema de forças global.
4. A ironia do degelo: O aquecimento global como facilitador
Aqui entra uma contradição fascinante e terrível. Trump é um cético confesso das mudanças climáticas, muitas vezes chamando o aquecimento global de “farsa”. No entanto, o seu plano para a Groenlândia só é viável agora justamente porque o gelo está derretendo.
O derretimento das calotas polares está fazendo duas coisas:
- Abrindo minas: Antes, extrair minerais na Groenlândia era caro demais devido à camada de gelo quilométrica. Agora, o solo está ficando exposto e acessível.
- Novas rotas marítimas: O Ártico está virando um novo oceano navegável. A “Passagem do Noroeste” e a “Rota do Mar do Norte” encurtam a viagem entre a Ásia e a Europa em quase uma semana, comparado ao Canal de Suez. Quem controla a Groenlândia, controla os portos e as paradas estratégicas dessa nova rodovia marítima global.
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5. Além do dinheiro: O legado de “Expandir a Fronteira”
Não podemos ignorar o fator psicológico e político. Trump quer entrar para os livros de história ao lado de presidentes como Thomas Jefferson (que comprou a Louisiana) e Andrew Johnson (que comprou o Alasca). Para ele, “fazer a América grande novamente” inclui, literalmente, aumentar o tamanho do país no mapa. É o troféu máximo do nacionalismo: uma nova estrela na bandeira.
O que isso significa para nós?
A gente aqui no Brasil pode pensar: “Nossa, mas isso é lá no Polo Norte, o que eu tenho a ver com isso?”.
Tudo! Quando a maior potência do mundo decide que o Direito Internacional é secundário aos seus interesses de segurança, as regras do jogo mudam. Se a Groenlândia pode ser alvo, o que impede outras regiões estratégicas de entrarem em um discurso semelhante de “segurança global”?
Além disso, a briga pelas terras raras dita o preço da tecnologia que você usa. A militarização do Ártico dita a estabilidade da paz mundial.
A Groenlândia não é mais um deserto branco e isolado. Em 2026, ela é o termômetro de uma nova ordem mundial onde o pragmatismo e a força estão atropelando a diplomacia tradicional.
No próximo texto desta série, vamos descer o mapa. Trump não está olhando apenas para o gelo do Norte, mas também para o calor do Panamá. O que a Groenlândia e o Canal do Panamá têm em comum na visão da Casa Branca? É o que vamos descobrir.
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André Sampaio
André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).
