Ninguém nasce sabendo torcer: como o esporte nos ensina a sentir

Ninguém nasce sabendo torcer: como o esporte nos ensina a sentir

Torcer é aprender a sentir

Por que certas derrotas doem mais do que outras?
Em que momento torcer deixa de ser escolha e vira hábito?
Como aprendemos a sentir alegria, frustração ou raiva por algo que, no fundo, não controlamos?

Ninguém nasce sabendo torcer. Aprende-se. Mas o que exatamente se aprende quando se aprende a torcer?

O esporte costuma ser tratado como entretenimento, distração ou espetáculo. Ainda assim, ele atravessa rotinas, organiza afetos e produz pertencimentos duradouros. Torcer não é apenas acompanhar um jogo. É entrar em uma forma específica de relação com o mundo, com o outro e consigo mesmo.

Este texto parte de uma hipótese simples, mas exigente: o esporte funciona como uma escola emocional informal. Uma escola sem currículo explícito, mas cheia de regras implícitas. Nela, aprendemos a pertencer, a esperar, a perder, a odiar e a permanecer.

Mas quem ensina?
Como esse aprendizado acontece?
E por que ele é tão eficaz?

Para quem não cabe no óbvio: o Conversa Fora precisa de você.


Aprender a pertencer

Quase sempre, aprende-se a torcer com alguém. Um familiar, um amigo, um bairro inteiro. Aprende-se o nome do time, as cores certas, os cantos, os gestos. Aprende-se quando levantar, quando xingar, quando silenciar. Aprende-se, sobretudo, com o corpo.

Antes de ser uma decisão racional, torcer é uma incorporação progressiva. Pierre Bourdieu ajuda a pensar esse processo ao falar de habitus: disposições aprendidas pela repetição, que passam a parecer naturais. Torcer é isso. Um conjunto de gestos, afetos e expectativas que se sedimentam até virar segunda natureza.

O pertencimento esportivo não exige justificativa lógica. Ele se sustenta na repetição, na memória compartilhada, na experiência comum. O gol não é apenas um evento esportivo — é um instante de comunhão. E essa comunhão ensina algo fundamental: pertencer é sentir junto.


A pedagogia da derrota

Poucos espaços sociais ensinam tanto sobre frustração quanto o esporte. Nesse contexto, a derrota assume uma forma particular: ela é pública, coletiva e, muitas vezes, inevitável. Não se perde sozinho. Perde-se diante de outros, com outros e, frequentemente, apesar de todos. Por isso, antes mesmo de aprender a ganhar, aprende-se a perder.

Entretanto, perder não é uma experiência neutra nem espontânea. Ao contrário, em torno do esporte formam-se verdadeiras pedagogias implícitas da derrota. Aprende-se quando silenciar, quando ironizar, quando deslocar a responsabilidade para o árbitro, para o jogador, para o sistema. Aprende-se a racionalizar o fracasso, transformando-o em narrativa explicável, ou, em outros momentos, a convertê-lo em revolta.

O esporte enquanto aprendizado das frustrações.

Nesse processo, a frustração não desaparece; ela é trabalhada. Norbert Elias e Eric Dunning mostram que o esporte moderno organiza as emoções justamente por meio do controle da excitação. A derrota, assim, não é apenas suportada — ela é canalizada, ritualizada e tornada socialmente inteligível. Aprende-se, portanto, não apenas que perder faz parte do jogo, mas como perder sem romper completamente os vínculos sociais.

Ainda assim, esse aprendizado é desigual. Nem sempre se aprende a elaborar a frustração. Em certos contextos, aprende-se a naturalizar a hostilidade, a perpetuar ressentimentos ou a buscar culpados permanentes. Nesses casos, a pedagogia da derrota deixa de organizar o afeto e passa a reproduzir formas mais duras de frustração coletiva.

Por isso, vale perguntar:
o que exatamente estamos aprendendo quando perdemos juntos?
e quais formas de lidar com a derrota estamos, silenciosamente, legitimando?


O ódio não é excesso — é aprendizado

O ódio que aparece no esporte não é um acidente emocional nem um simples excesso momentâneo. Ele é, em grande medida, aprendido. Aprende-se quem odiar, quando odiar e até como odiar.

O rival não surge espontaneamente. Ele é construído por narrativas, memórias, cantos, provocações repetidas. Não se odeia qualquer um. Odeia-se aquele que ameaça simbolicamente o “nós”.

Aqui, o esporte funciona como um espaço de licença controlada. Certos afetos que seriam reprimidos em outros contextos tornam-se aceitáveis dentro do jogo. Xingamentos, hostilidades e gestos agressivos ganham autorização provisória. Não porque tudo seja permitido, mas porque tudo é enquadrado por regras explícitas e implícitas.

Sara Ahmed ajuda a compreender esse processo ao pensar as emoções como forças que circulam socialmente. O ódio não está apenas no indivíduo que odeia. Ele se move entre corpos, discursos, imagens e espaços. No esporte, essa circulação é intensa, corporal e coletiva.

Isso não significa normalizar a violência. Significa compreender que o ódio não é natural, mas socialmente produzido. Naturalizá-lo é esconder suas condições de aprendizagem.


Rivalidade, fronteira, identidade

Torcer é aprender a se situar em uma fronteira. Há um “nós” e há um “eles”. Essa distinção não é apenas simbólica; ela organiza afetos, expectativas e lealdades.

Bourdieu ajuda novamente: o esporte é um campo de disputas por reconhecimento. O rival ameaça menos pelo que faz em campo e mais pelo que representa fora dele. A derrota do outro confirma a existência do grupo. A vitória do outro desorganiza identidades.

O ódio, nesse contexto, não é o oposto do pertencimento. Ele é, muitas vezes, um de seus efeitos colaterais.


Permanecer sem garantia

Torcer também é aprender a permanecer. Nesse sentido, a experiência da torcida se distingue de muitas relações contemporâneas orientadas pelo desempenho, pela eficiência e pela lógica do retorno imediato. Diferente de vínculos que se rompem diante do fracasso, a torcida não se desfaz automaticamente quando o time falha.

Ao contrário, permanece-se apesar da má fase, da gestão equivocada, da temporada perdida. Permanece-se quando já não há expectativa racional de vitória. Por isso, a lealdade esportiva não pode ser compreendida apenas como escolha consciente ou cálculo estratégico. Ela opera em outro registro.

Há, nesse vínculo, algo profundamente não utilitário. Permanecer não é comparar resultados, nem avaliar custos e benefícios. Permanecer é insistir. É repetir gestos, afetos e narrativas mesmo quando o retorno simbólico parece suspenso. Em grande medida, trata-se de um hábito sedimentado no tempo, sustentado pela memória coletiva e pela experiência compartilhada.

Desse modo, o esporte ensina uma forma rara de fidelidade: aquela que não se ancora na promessa de recompensa, mas na continuidade do vínculo. Uma fidelidade que resiste à frustração, atravessa o fracasso e persiste mesmo quando o futuro permanece incerto.


O esporte como escola emocional

O esporte não cria emoções do nada. Ele organiza, distribui e ensina como senti-las. Ele educa corpos, afetos e modos de estar junto. Ensina a esperar, a explodir, a suportar, a lembrar.

Antes de sermos espectadores do jogo, somos aprendizes de sentimento.

Se torcer é um aprendizado, vale insistir nas perguntas:
o que estamos aprendendo?
quem define os limites desse aprendizado?
e que tipos de afetos estamos autorizando a circular?

Talvez pensar o esporte a partir dessas perguntas seja uma forma de levá-lo mais a sério — não como espetáculo, mas como experiência social profunda, ambígua e formadora.

Saiba Mais:

Norbert Elias & Eric DunningA busca da excitação

Pierre BourdieuO senso prático

Sara AhmedA política cultural das emoções

Benedict AndersonComunidades imaginadas

Victor TurnerO processo ritual

Leia também: O que é uma paisagem quando ninguém está olhando?

André Sampaio

André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).

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