Arsenal e Cultura Negra: Futebol, Cidade e Identidade em Londres

Arsenal e Cultura Negra: Futebol, Cidade e Identidade em Londres

Futebol, raça e a construção de pertencimentos fora do centro

O que faz um clube atravessar gerações, fronteiras e experiências tão distintas, sem se esgotar em vitórias ou derrotas?
Em que momento o futebol deixa de ser apenas jogo, entretenimento ou espetáculo e passa a operar como uma lingagem cultural, capaz de organizar memórias, afetos e identidades coletivas?
E, talvez mais importante, o que explica que certos clubes se tornem lugares de reconhecimento para populações que, historicamente, foram empurradas para fora do centro — da cidade, da cidadania e da narrativa oficial?

Para quem não cabe no óbvio: o Conversa Fora precisa de você.

Essas perguntas não funcionam como provocação gratuita. Ao contrário, elas ajudam a deslocar o olhar. Permitem perceber que o futebol, sobretudo no Reino Unido, nunca ocupou um lugar neutro na vida social. Desde cedo, ele se constituiu como um espaço de disputa simbólica, onde pertencimentos são negociados, emoções são educadas e hierarquias sociais são tanto reproduzidas quanto tensionadas.

Por isso, falar de futebol não é falar apenas de campo, bola e resultado. É falar de cidade, de trabalho, de migração e de memória. De quem pode ocupar determinados espaços e sob quais condições. É falar, ainda, de como comunidades constroem sentidos compartilhados em contextos marcados pela exclusão.

Nesse horizonte, a relação entre o Arsenal e comunidades negras em Londres não surge como exceção ou coincidência. Ela se inscreve, antes, em uma história mais longa e complexa, atravessada pela imigração no pós-Segunda Guerra Mundial, pelo racismo estrutural e pela necessidade de produzir formas coletivas de permanência em uma cidade que nem sempre acolheu — e que, muitas vezes, ensinou a resistir antes mesmo de pertencer.

Assim, o clube passa a operar não apenas como instituição esportiva, mas como espaço simbólico. Um lugar onde experiências fragmentadas encontram alguma possibilidade de reconhecimento, ainda que atravessadas por tensões, ambivalências e conflitos que nunca desaparecem por completo.

Migração, trabalho e a cidade que educa

Quando o governo britânico facilitou a imigração de trabalhadores jamaicanos no final da década de 1940, o objetivo era direto e funcional: reconstruir um país devastado pela guerra por meio de mão de obra jovem, barata e politicamente vulnerável. No entanto, o que se apresentava como solução econômica rapidamente se desdobrou em uma experiência social profundamente desigual.

A chegada do navio Empire Windrush, em 1948, não inaugurou apenas uma nova etapa demográfica no Reino Unido. Ela inaugurou, sobretudo, uma forma específica de inserção urbana marcada por precariedade habitacional, discriminação institucional e violência cotidiana. Esses trabalhadores foram chamados a participar da reconstrução do país, mas raramente foram reconhecidos como parte legítima da nação que ajudavam a sustentar.

Como mostram Bryan, Dadzie e Scafe em The Heart of the Race, as comunidades negras que se formaram a partir desse processo precisaram criar redes próprias de sobrevivência, apoio mútuo e produção cultural. Diante de um Estado que oferecia trabalho, mas negava pertencimento, a cidade passou a funcionar como um dispositivo pedagógico duro e silencioso. Ela ensinava — por meio de olhares, barreiras, agressões e restrições — quem podia ocupar determinados espaços e quem deveria aprender a circular pelas margens.

Ainda assim, essas margens não foram apenas lugares de exclusão. Elas também se tornaram espaços de invenção cultural, sociabilidade e resistência. É nesse cenário contraditório que o futebol passa a adquirir uma importância particular. Longe de ser um refúgio puro, o esporte aparece como um espaço ambíguo: ao mesmo tempo em que reproduz hierarquias raciais e sociais, ele também oferece algo raro em uma cidade fragmentada — um lugar coletivo de reconhecimento.

Por isso, não é irrelevante que clubes como o Arsenal tenham se tornado pontos de identificação para populações negras londrinas ao longo das décadas. O clube passa a funcionar como um dos poucos espaços em que a presença negra não apenas existe, mas se torna visível, compartilhada e emocionalmente investida. Não como solução para o racismo estrutural, mas como uma linguagem possível de pertencimento em meio a um cotidiano que insistia em negá-lo.

O clube como arquivo cultural

Em Black Arsenal, Clive Chijioke Nwonka e Matthew Harle demonstram que a relação entre o clube e a cultura negra não pode ser reduzida à presença — ainda que numericamente significativa — de jogadores negros em campo. Antes disso, e para além disso, trata-se de uma relação que atravessa práticas culturais cotidianas: a música que circula nas arquibancadas e nas ruas, os estilos que se afirmam na moda, as formas específicas de linguagem e humor, além das maneiras pelas quais a torcida se organiza e se reconhece.

Entre travessias forçadas e cidades hostis, o pertencimento também encontrou caminhos inesperados. Para muitos, o futebol tornou-se uma linguagem de permanência em uma Londres que nem sempre acolheu.

Nesse sentido, o clube passa a operar como algo mais complexo do que uma instituição esportiva. Ele se transforma em um arquivo vivo, constantemente reescrito. Um espaço simbólico onde experiências dispersas — muitas vezes fragmentadas pela cidade, pelo racismo e pela precariedade — encontram possibilidades de encontro, narração e atualização. A história do clube deixa de ser apenas a história de títulos e temporadas e passa a incorporar memórias afetivas, trajetórias individuais e práticas coletivas que raramente entram nos registros oficiais.

É justamente aí que a torcida assume um papel central. Ela deixa de ocupar a posição passiva de público consumidor e passa a atuar como produtora ativa de cultura. Esse movimento se intensifica, sobretudo, com o surgimento de mídias independentes como a Arsenal Fan TV, criada por Robbie Lyle. Vinda de fora das estruturas tradicionais do jornalismo esportivo — e atravessada pela experiência cultural do reggae e da diáspora negra londrina — essa plataforma inaugura uma outra forma de narrar o clube: menos institucional, mais afetiva, muitas vezes conflitiva, mas profundamente enraizada na experiência cotidiana do torcedor.

Nesse ponto, o futebol deixa de apenas refletir a cidade que o cerca. Ele passa, também, a reorganizá-la simbolicamente. Ao produzir narrativas próprias, visibilizar vozes historicamente marginalizadas e tensionar os discursos oficiais, o clube se torna um espaço onde a cidade é reinterpretada, disputada e resignificada — ainda que sempre de forma instável e incompleta.

Visibilidade, emoção e controle

Mas esse pertencimento não elimina tensões. Como lembram Norbert Elias e Eric Dunning em A busca da excitação, o esporte moderno organiza emoções coletivas por meio do controle, da ritualização e da canalização da violência simbólica. A excitação não desaparece; ela é enquadrada.

O futebol ensina como sentir — e também como conter. Ensina a vibrar, a frustrar-se, a permanecer. No entanto, como alerta Daniel Burdsey em Racism and English Football, esse aprendizado emocional nem sempre é igual para todos. Para torcedores e jogadores negros, a experiência esportiva frequentemente se dá sob vigilância, suspeita e cobrança redobrada.

Quando o Arsenal entra em campo, em 2002, com nove jogadores negros como titulares, o fato não é apenas estatístico. Ele expõe uma tensão histórica: quem pode representar o clube, a cidade e a nação?

Comunidades imaginadas, pertencimentos reais

Benedict Anderson lembra que comunidades não são apenas dadas — elas são imaginadas. O futebol participa ativamente dessa imaginação. Torcer é aprender a sentir junto por algo que não conhecemos pessoalmente, mas que reconhecemos como nosso.

Nesse sentido, clubes como o Arsenal funcionam como plataformas de identificação transnacional. Com a globalização das transmissões esportivas nos anos 1990 e 2000, torcedores na África e no Caribe passaram a se reconhecer em jogadores, narrativas e símbolos que escapavam às fronteiras nacionais.

David Goldblatt, em The Game of Our Lives, mostra como esse processo transformou profundamente o futebol inglês — econômica, cultural e politicamente. O clube deixa de ser apenas local e passa a operar em múltiplas escalas de pertencimento.

Leia também: Ninguém nasce sabendo torcer: como o esporte nos ensina a sentir

Fora de linha, mas dentro da história

Falar de futebol, raça e cultura não é romantizar o esporte nem transformá-lo em solução. É reconhecer sua potência contraditória. Como lembram Carrington e McDonald em ‘Race’, Sport and British Society, o esporte pode tanto reproduzir exclusões quanto oferecer espaços inesperados de reconhecimento.

Por isso, pensar o futebol fora da linha do placar é um exercício de leitura social. É perguntar o que ele ensina, a quem serve, quem ele acolhe — e quem continua sendo mantido fora.

No Conversa Fora, o futebol interessa menos como espetáculo e mais como linguagem. Uma linguagem que organiza afetos, memória e identidade. Uma linguagem que revela, com clareza desconfortável, que nenhuma paixão coletiva é neutra.

Talvez a pergunta final seja esta e que podemos debater nos comentários:
o que aprendemos sobre o mundo quando observamos o jogo não a partir do centro do campo, mas das margens que o sustentam?

André Sampaio

André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).

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