Entre o Amor e o Cansaço: Afeto, Carreira e Sobrevivência

1. Trabalhar também é sentir

Durante muito tempo, o discurso dominante separou trabalho e afeto como se fossem campos incompatíveis. De um lado, a racionalidade, a produtividade e o desempenho. De outro, a emoção, o cuidado e a fragilidade. No entanto, essa divisão nunca se sustentou na experiência concreta. Trabalhar sempre envolveu sentir — ainda que muitas vezes isso tenha sido silenciado.

Desde o início da vida profissional, aprendemos que certas emoções devem ser ocultadas. Demonstrar cansaço pode ser interpretado como fraqueza. Expressar dúvida soa como incompetência. Mostrar afeto excessivo pode parecer falta de profissionalismo. Assim, pouco a pouco, o mundo do trabalho ensina não apenas o que fazer, mas também como sentir — e, sobretudo, o que não sentir.

Para quem não cabe no óbvio: o Conversa Fora precisa de você.

Ao mesmo tempo, paradoxalmente, o discurso contemporâneo passou a exigir paixão. Não basta cumprir tarefas; é preciso amar o que se faz. A carreira deixa de ser apenas meio de sobrevivência e passa a ser apresentada como vocação, propósito e identidade. Nesse cenário, o afeto retorna, mas de forma ambígua: agora ele é exigido, mensurado e explorado.

Por isso, pensar carreira a partir do afeto exige cuidado. Não se trata de romantizar o trabalho nem de negar o desejo de realização. Trata-se, antes, de compreender como emoções, expectativas e vínculos atravessam nossas trajetórias profissionais de maneira profunda, desigual e, muitas vezes, dolorosa.

Assim, a pergunta central não é apenas “o que faço para viver?”, mas também “o que o trabalho faz comigo?”. E, a partir dela, outras se desdobram: o que acontece quando o amor pelo trabalho se transforma em exaustão? Quando a dedicação vira culpa? Quando o cansaço não encontra espaço para ser dito?


2. A promessa da realização e o peso do fracasso

Nas últimas décadas, a narrativa da carreira como projeto pessoal ganhou força. Escolher uma profissão passou a ser apresentado como um ato de autoconhecimento e liberdade. Se tudo é escolha, então o sucesso parece mérito individual. Da mesma forma, o fracasso se converte em responsabilidade pessoal.

Nesse contexto, o afeto ocupa um lugar central. Espera-se que o sujeito esteja emocionalmente engajado, motivado e resiliente. Ao mesmo tempo, qualquer frustração tende a ser internalizada. Afinal, se você escolheu, deveria amar. Se ama, deveria aguentar.

Consequentemente, o sofrimento profissional raramente aparece como questão estrutural. Jornadas exaustivas, precarização, instabilidade e pressão constante são frequentemente naturalizadas. Em vez de perguntar pelas condições de trabalho, pergunta-se pela atitude do trabalhador. Falta paixão? Foco? Inteligência emocional?

Assim, o afeto se torna um dispositivo de controle. Ele não apenas mobiliza dedicação, como também produz silêncio. Muitas pessoas permanecem em ambientes adoecedores porque acreditam que desistir equivale a falhar consigo mesmas. Outras sentem vergonha de se cansar daquilo que um dia amaram.

No entanto, o amor pelo trabalho não imuniza ninguém contra o desgaste. Pelo contrário: quanto maior o investimento afetivo, mais profunda pode ser a frustração. Quando a carreira ocupa o lugar de sentido existencial, qualquer instabilidade profissional ameaça também a identidade.

Por isso, falar de afeto na carreira não é reforçar discursos motivacionais. É, antes, abrir espaço para reconhecer perdas, lutos e ambivalências. Amar o que se faz não elimina o direito ao cansaço. E reconhecer o cansaço não invalida o amor.


3. Corpos, desigualdades e afetos permitidos

É importante lembrar que nem todos vivem o trabalho da mesma forma. Afeto e carreira se cruzam de modo desigual, atravessados por gênero, raça, classe e território. Enquanto alguns corpos são autorizados a errar, aprender e se reinventar, outros precisam provar competência o tempo todo.

Mulheres, por exemplo, costumam ser cobradas emocionalmente de maneira intensa. Espera-se empatia, disponibilidade e cuidado — muitas vezes sem reconhecimento ou remuneração. Ao mesmo tempo, qualquer demonstração de firmeza pode ser lida como agressividade. Já homens, em geral, enfrentam a interdição do cansaço e da vulnerabilidade, aprendendo a sustentar o desempenho a qualquer custo.

Da mesma forma, pessoas negras frequentemente lidam com a exigência de controle emocional constante. Expressar raiva ou frustração pode gerar punições simbólicas ou concretas. Assim, o trabalho exige não apenas esforço técnico, mas também um gerenciamento afetivo permanente.

Portanto, o afeto no trabalho não é neutro. Ele circula segundo normas implícitas que definem quais emoções são aceitáveis e quais devem ser reprimidas. Reconhecer isso impede leituras individualizantes do sofrimento profissional e desloca o foco para as estruturas que moldam nossas experiências.

Além disso, compreender essas desigualdades permite construir outras formas de solidariedade. Quando o cansaço deixa de ser vivido como falha pessoal, ele pode se tornar linguagem compartilhada. E, a partir daí, talvez seja possível pensar o trabalho não apenas como competição, mas também como espaço de cuidado coletivo.


4. Quando o cansaço fala mais alto

Em algum momento, o corpo começa a falar. Insônia, irritação constante, apatia ou ansiedade deixam de ser episódios isolados e passam a compor a rotina. Ainda assim, muitas pessoas resistem a nomear o problema. Afinal, admitir o cansaço pode significar colocar em risco a própria identidade profissional.

No entanto, o cansaço não surge do nada. Ele é resultado de uma relação prolongada entre expectativa e limite. Quanto mais se exige entrega total, menos espaço resta para o descanso. Quanto mais o trabalho se confunde com o eu, mais difícil se torna parar.

Nesse sentido, escutar o cansaço é um gesto político. Ele revela os excessos de um modelo que transforma paixão em obrigação. Além disso, o cansaço denuncia a violência de uma lógica que exige sempre mais — mesmo quando já não há mais de onde tirar.

Por isso, em vez de silenciar o esgotamento, é preciso interpretá-lo. O que ele diz sobre o modo como organizamos o tempo? Sobre a precariedade das relações profissionais? Sobre a dificuldade de estabelecer limites em um mundo que valoriza apenas a performance?

Sustentar essas perguntas exige coragem. Muitas vezes, implica rever escolhas, redefinir expectativas e aceitar perdas. No entanto, também pode abrir espaço para formas mais honestas de relação com o trabalho — menos idealizadas, mas talvez mais habitáveis.

Leia também: O afeto como método: sentir também é uma forma de conhecer

5. Afeto como critério, não como prisão

Pensar carreira com afeto não significa submeter todas as decisões ao amor ou à paixão irrestrita. Pelo contrário, significa reconhecer o afeto como um critério de escuta, e não como uma prisão identitária. O afeto pode orientar escolhas, mas não deve aprisionar o sujeito em narrativas de sacrifício permanente, onde desistir se confunde com falhar.

Talvez, então, seja necessário abandonar a ideia de carreira linear, ascendente e contínua. Muitas trajetórias se constroem por desvios, interrupções e recomeços. Longe de representarem fracasso, esses movimentos podem indicar tentativas legítimas de sobrevivência emocional e reinvenção do sentido.

Além disso, reconhecer a legitimidade da mudança torna-se fundamental. Gostar de algo hoje não obriga ninguém a sustentar esse desejo indefinidamente. Pessoas mudam, contextos se transformam, necessidades emergem. Sustentar essa impermanência pode ser menos confortável, mas talvez seja mais honesto do que insistir em um amor que já se esgotou.

Pensar o trabalho a partir do afeto, portanto, não é buscar uma profissão perfeita, mas construir uma relação menos violenta com aquilo que fazemos para viver. É recusar a ideia de que o cansaço invalida o percurso. É aceitar que cuidar de si também é uma forma de responsabilidade.

Diante disso, algumas perguntas permanecem abertas — e talvez devam permanecer assim:

  • Que parte de mim o trabalho tem exigido em excesso?
  • O que tenho chamado de amor pela profissão é desejo, medo ou sobrevivência?
  • Que afetos sustentam minha permanência — e quais me impedem de partir?
  • Como imaginar uma carreira que não me consuma por inteiro, mas me acompanhe?

Talvez o futuro do trabalho não esteja apenas em novas funções ou mercados, mas na capacidade de reformular essas perguntas coletivamente. Entre o amor e o cansaço, permanece o desafio de inventar formas de trabalhar que não nos afastem de nós mesmos.

André Sampaio

André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar ao Topo