Thrillers policiais costumam nos ensinar a olhar para o lugar errado. Eles nos treinam a perguntar quem matou, quando a pergunta mais decisiva quase sempre é outra: quem pode ser ferido, violado ou eliminado sem que isso produza ruptura alguma no mundo. Entre pistas, versões conflitantes e jogos de inteligência, o gênero frequentemente esconde sua dimensão mais brutal — não a violência explícita, mas a hierarquia silenciosa das vidas que importam e das vidas que podem desaparecer sem escândalo. É nesse ponto, menos visível e mais incômodo, que His & Hers se torna mais do que um suspense bem executado: a série passa a funcionar como um retrato cruel do imaginário social que organiza atenção, empatia e responsabilidade.
Este texto parte de His & Hers não para recontar a trama nem para decidir quem diz a verdade, mas para observar quem desaparece enquanto a verdade é disputada. A análise que se segue é menos interessada no crime do que nos enquadramentos: nos corpos que atraem investigação, nos que mobilizam narrativa e, sobretudo, naqueles que atravessam a história sem produzir alarme algum. Ao deslocar o foco do acontecimento para a atenção — do ato para o olhar —, o texto propõe uma leitura sociológica e ética da série, perguntando não apenas quem fala ou quem investiga, mas quem some primeiro quando ninguém está olhando.
ALERTA DE SPOILER
His & Hers, série da ITV baseada no livro da Alice Feeney, se apresenta como um thriller clássico: um assassinato, duas versões da história e um casal que ocupa lados opostos da investigação.
Anna Andrews é jornalista. Jack Harper é detetive. Ela narra. Ele investiga. Cada um acredita estar mais próximo da verdade.
À primeira vista, tudo parece girar em torno desse embate:
mídia versus polícia, narrativa versus prova, emoção versus método.
Mas esse conflito, embora central, é apenas a superfície.
Porque enquanto a série nos conduz por depoimentos, flashbacks e disputas de versão, existe uma personagem que atravessa a história inteira sem nunca ocupar o centro do enquadramento — e é justamente ali que His & Hers revela sua camada mais dura.
Alice.
Alice é mãe, mulher preta, velha, doente, moradora de uma área periférica, fora do circuito da mídia, fora da lógica da produtividade e completamente fora da economia do desejo. Ela não tem voz pública, não tem função narrativa evidente, não tem autoridade simbólica. E isso não é um detalhe. É o mecanismo central da série.
Para quem não cabe no óbvio: o Conversa Fora precisa de você.

A primeira violência: não ser considerada
Alice aparece cedo, mas nunca como ameaça.
Ela é tratada como figura lateral: alguém que precisa de cuidado, não de escuta; de paciência, não de atenção; de tolerância, não de investigação.
Nada nela, pelo menos inicialmente, ativa os alarmes sociais.
Ela não é jovem demais para gerar escândalo.
Não é branca para gerar empatia automática.
Ela não é articulada para gerar autoridade.
Não é produtiva para gerar interesse.
Ela ocupa uma posição muito específica: a de “corpo socialmente desativado“.
E His & Hers constrói isso com precisão desconfortável.
Não há agressão explícita ou insulto racial. Não há humilhação direta. O que há é algo mais eficiente: desimportância organizada.
Invisibilidade como estrutura, não como falha
A invisibilidade de Alice não é ausência de cena.
Ela está ali. O tempo todo.
O que falta não é presença, é reação.
Quando Alice fala, ninguém anota.
Ao aparecer, ninguém suspeita.
Quando Alice circula, ninguém segue.
Isso não acontece porque os personagens são burros ou cruéis.
Acontece porque o imaginário social já resolveu essa equação antes.
A mulher preta e velha é lida como:
- frágil,
- confusa,
- inofensiva,
- irrelevante.
Esse rótulo não precisa ser reafirmado.
Ele já está dado.
Visibilidade é poder narrativo
Enquanto isso, Anna Andrews existe sob outro regime de visibilidade.
Cada gesto dela é interpretado.
Toda palavra vira indício.
Cada decisão provoca reação.
Não porque seja moralmente superior ou mais verdadeira, mas porque ela ocupa um lugar legível no espaço público. Anna é jovem, articulada, jornalista, treinada na linguagem e reconhecida como sujeito de discurso. Ela sabe narrar — e, mais importante, é reconhecida como alguém que pode narrar.
Isso faz com que sua dor, suas suspeitas e suas escolhas produzam ruído social. Elas circulam, incomodam. Exigem resposta. Anna não controla totalmente a narrativa, mas está dentro dela. Disputa enquadramento, sentido, versão.
Alice, não.
Alice não disputa versão nenhuma.
Ela não produz ruído.
Não exige resposta.
Ela sequer entra no jogo.
Não porque lhe falte experiência, sofrimento ou verdade — mas porque lhe falta capital narrativo. Sua existência não é percebida como fonte legítima de sentido. Seu corpo não convoca interpretação. Sua dor não pede organização institucional.
E é exatamente aí que His & Hers se torna mais perverso.
Racismo e etarismo como tecnologia de apagamento
His & Hers mostra como o racismo estrutural e o etarismo não operam apenas pelo excesso de violência, mas, sobretudo, pela retirada de expectativa. O sistema não precisa vigiar, punir ou conter quando já decidiu que certos corpos não importam. Ninguém espera nada de Alice — nem inteligência, nem agência, nem perigo. Ela não é percebida como sujeito de ação, apenas como presença residual.
E é justamente aí que surge o paradoxo mais inquietante da série. Quando ninguém espera nada de alguém, essa pessoa passa a circular fora do campo da suspeita, fora do radar moral e institucional. A ausência de expectativa produz uma forma silenciosa de liberdade de movimento — não como emancipação, mas como efeito colateral do apagamento.
A série não enuncia isso em discurso. Ela encena. Ela deixa acontecer.
O erro não é da polícia, é do imaginário
Seria tentador culpar Jack ou apontar falhas técnicas na investigação. No entanto, His & Hers é mais cruel — e mais precisa — do que isso. A série não constrói um bode expiatório individual porque o problema não está na incompetência de alguém, mas na normalidade do funcionamento.
Jack faz exatamente o que o sistema espera que ele faça. Ele não investiga a partir do vazio; investiga a partir de um repertório já dado. Procura conflito visível, ameaça reconhecível, desvios que o imaginário social aprendeu a identificar como perigosos. Em outras palavras, ele busca aquilo que já sabemos ver.
O ponto central é que esse repertório não é neutro. Raça, gênero, classe e idade atravessam esse repertório. Ele aprende a reconhecer certos corpos como potencialmente violentos e outros como estruturalmente inofensivos — ou, pior, irrelevantes.
É por isso que Alice não aparece como hipótese. Não porque seja invisível por acaso, mas porque não corresponde a nenhuma das imagens disponíveis de agente, risco ou desvio. Ela não mobiliza medo, não convoca urgência, não aciona protocolos simbólicos. Sua existência escapa ao radar justamente porque se confunde com o pano de fundo da normalidade.
E aqui está o ponto mais duro da série: Alice não é exceção. Ela é produto da normalidade. Do modo como aprendemos a imaginar perigo, culpa e responsabilidade. Do modo como certos corpos são automaticamente lidos como sujeitos da ação, enquanto outros são empurrados para o lugar da paisagem.
Assim, o fracasso não é policial. É cultural. O crime não passa despercebido porque faltam pistas, mas porque faltam categorias imaginativas capazes de conceber aquela vida como central. O sistema não falha; ele funciona exatamente como foi desenhado.
Alice não corresponde a nenhuma dessas imagens.
Ela não é exceção.
Ela é produto da normalidade.
O choque final não é o crime
Quando a verdade emerge, o choque não está apenas no que Alice fez.
Está no fato de que:
ela só pôde fazer porque ninguém a via como alguém capaz de fazer qualquer coisa.
Esse é o verdadeiro horror da série.
Não o assassinato.
Mas a constatação de que a ordem social funciona tão bem que transforma certos corpos em ruído de fundo permanente.
O que His & Hers realmente diz
No fundo, His & Hers não está interessado em responder à pergunta clássica do gênero policial — quem matou.
Essa pergunta, aliás, funciona quase como distração. Um véu narrativo. Um artifício confortável.
O que a série realmente investiga, com muito mais rigor, é quem pode desaparecer sem gerar alarme.
Ou melhor:
quem pode desaparecer sem que o sistema sinta falta.
Porque, à medida que a trama avança, a série deixa cada vez mais evidente que a violência central da história não se limita ao crime em si: ela opera na economia da atenção moral, que decide quem merece ser visto, ouvido e lembrado — e quem pode ser descartado sem fricção.
Nesse sentido, His & Hers desloca o eixo do suspense. O mistério não está no ato, mas na reação (ou na ausência dela). Não está no acontecimento, mas no silêncio que o envolve.
Violência sexual como eixo
A violência sexual, em His & Hers, não opera como choque narrativo, mas como força organizadora do silêncio. Ela não explode em cena; ela se infiltra no tempo. Não produz ruptura imediata, mas acomodação. O abuso não destrói apenas no momento em que acontece — ele reorganiza a vida para que continuar vivendo pareça a única opção possível.
E isso não é casual. A série sugere que a violência sexual se torna ainda mais eficiente quando incide sobre corpos que o imaginário social já aprendeu a não proteger. A mulher preta e velha não precisa que ninguém a desacredite explicitamente; o sistema simplesmente trata sua dor como não urgente, não crível e incapaz de produzir transformação. Seu corpo já foi, antes, deslocado para fora do campo do escândalo.
Nesse sentido, o abuso não é apenas um crime individual, mas uma tecnologia social de controle: ele produz silêncio, isolamento e autogestão do trauma. Não é preciso que o sistema ameace; a vítima aprende sozinha a se adaptar, a não dizer, a não perturbar. O trauma não vira denúncia — vira rotina.
Por isso, quando a série evita espetacularizar essa violência, o que está em jogo não é suavização, mas acusação. His & Hers aponta que o verdadeiro escândalo não é o abuso em si, mas o fato de que ele pode acontecer, persistir e desaparecer sem jamais exigir reorganização moral do mundo ao redor.
Invisibilidade não como falha, mas como estrutura
É justamente aqui que a figura da mulher preta e velha deixa de ser um detalhe narrativo e se torna o núcleo ético da série.
Ela não aparece como exceção.
Não é um “caso triste”.
Não é um erro do sistema.
Ela é, na verdade, o produto mais coerente desse sistema.
Porque a invisibilidade que a atravessa não é circunstancial. Ela é histórica, racial, etária e de gênero — uma sobreposição de camadas que não se anulam, mas se reforçam mutuamente. Cada marcador social não soma: ele multiplica o apagamento.
Assim, enquanto certos corpos mobilizam manchetes, investigações extensas, empatia pública e comoção social, outros atravessam a violência como se atravessassem o ar: sem ruído, sem registro, sem memória.
E é isso que a série expõe com desconforto.
Quem pode sofrer sem virar pauta
A narrativa mostra, com insistência silenciosa, que nem todo sofrimento produz escândalo. Pelo contrário: há sofrimentos que já nascem naturalizados, quase esperados.
A mulher preta e velha:
- pode envelhecer sem ser ouvida;
- pode adoecer sem virar estatística relevante;
- pode sofrer violência sem que isso reorganize prioridades institucionais;
- pode morrer sem que o mundo precise parar.
E, talvez mais grave ainda, pode existir sem jamais ser imaginada como agente.
Aqui, His & Hers toca num ponto sociologicamente brutal: a associação automática entre agência e determinados corpos. Alguns são sempre lidos como sujeitos da ação. Outros, quando muito, como cenário.
Portanto, quando a narrativa sugere que certos personagens sequer entram no campo das hipóteses — nem como vítimas centrais, nem como suspeitas — o que está em jogo não é incompetência investigativa, mas imaginário social.
Não se investiga aquilo que não se consegue imaginar.
Conclusão
His & Hers incomoda porque não oferece catarse moral fácil.
Não aponta um monstro externo.
Não resolve a violência com punição simbólica.
Ela mostra algo pior:
um mundo onde a violência não precisa se esconder,
porque já aprendeu quem ninguém está olhando.
E quando os créditos sobem, a pergunta que fica não é “como isso aconteceu?”,
mas:
quantas histórias passam despercebidas
não por falta de sinais,
mas porque aprendemos a ignorar certos corpos desde sempre?
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André Sampaio
André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).
