O Jogo que o Capital Comprou (Parte I)

A série “O Jogo que o Capital Comprou” explora como o futebol moderno deixou de ser apenas um jogo e se transformou em campo de disputa entre lógica esportiva, lógica financeira e paixão coletiva. Mais do que analisar resultados, transferências ou campeonatos, esta série se debruça sobre o que muda quando o clube se profissionaliza, os dados passam a orientar decisões e a eficiência se torna critério moral. Cada ensaio discute os impactos dessas transformações sobre torcedores, atletas, identidades e tradições, mostrando que o futebol continua sendo uma linguagem social poderosa — mas que hoje dialoga com forças que extrapolam o campo, a arquibancada e a camisa.

Para quem não cabe no óbvio: o Conversa Fora precisa de você.

Quando profissionalizar foi necessário

O futebol precisava mudar — e mudou

Existe uma tentação recorrente quando falamos de futebol e mercado: a de tratar a profissionalização como uma traição. Como se, em algum momento indefinido do passado, o jogo tivesse sido puro, justo e democrático — até que o dinheiro entrou em campo e corrompeu tudo.

Essa narrativa é confortável. E falsa.

O futebol precisava mudar.
E mudou porque não havia alternativa.

Durante décadas, o romantismo do “amor à camisa” conviveu com salários atrasados, carreiras interrompidas precocemente, decisões tomadas por intuição ou compadrio, dirigentes amadores administrando estruturas profissionais e atletas tratados como descartáveis. O improviso era vendido como identidade. A precariedade, como tradição.

A profissionalização não foi um desvio. Foi uma resposta.

Dados, ciência do esporte, gestão e planejamento não chegaram para destruir o jogo — chegaram para corrigir desigualdades, reduzir arbitrariedades e aumentar a previsibilidade num sistema historicamente caótico. O uso de métricas passou a proteger carreiras. A análise de desempenho prolongou trajetórias. A medicina esportiva transformou lesão em cuidado, não em sentença.

Não há nada de reacionário em reconhecer isso. Pelo contrário: negar esses avanços é romantizar um passado que funcionava bem apenas para alguns.

O problema começa em outro ponto.


Quando ferramentas viram linguagem única

A profissionalização resolve problemas reais. Mas ela carrega um risco silencioso: o de se transformar não apenas em método, mas em visão de mundo.

Quando isso acontece, ferramentas deixam de servir ao futebol e passam a reorganizar o próprio sentido do jogo.

Dados deixam de ser instrumentos de leitura e viram critérios absolutos de decisão. Gestão deixa de organizar o clube e passa a justificar qualquer escolha em nome da eficiência. Planejamento deixa de ser estratégia e vira ideologia.

O futebol, então, passa a falar uma língua só.

Essa língua não é necessariamente errada — mas é insuficiente.

Porque nem tudo que importa no futebol cabe em planilha. Nem tudo que é mensurável é decisivo. E nem tudo que é eficiente é desejável.

Ainda assim, quando a profissionalização se torna hegemonia incontestável, essas perguntas deixam de ser feitas.


O ganho real (que não pode ser ignorado)

É importante insistir: o uso de dados não é o vilão dessa história.

Análises estatísticas ajudaram a revelar talentos invisibilizados, corrigir vieses históricos e reduzir decisões arbitrárias. Clubes passaram a entender melhor seus próprios limites financeiros. A ciência do esporte diminuiu a lógica do “jogar no sacrifício” como virtude moral.

A ideia de que “antes se jogava mais por amor” costuma esconder o fato de que, muitas vezes, se jogava sem proteção, sem contrato digno e sem horizonte de futuro.

A profissionalização trouxe racionalidade onde havia improviso. Trouxe método onde havia mito. Trouxe responsabilidade onde havia discurso.

Ignorar isso seria cair exatamente no tipo de nostalgia que empobrece qualquer crítica.

Mas reconhecer os ganhos não significa fechar os olhos para os deslocamentos que vieram junto.

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O ponto de inflexão: quando eficiência vira valor moral

O problema não começa quando o futebol se profissionaliza.
Começa quando a eficiência deixa de ser um meio e passa a funcionar como critério moral.

Nesse deslocamento, decisões já não precisam mais se justificar pelo que produzem no campo, na arquibancada ou no território. Basta que façam sentido economicamente. O argumento fecha-se sobre si mesmo: ele afirma que algo é bom porque é eficiente, que é eficiente porque gera retorno, que gera retorno porque alguém planejou para que gerasse retorno.

O futebol deixa de funcionar como espaço onde diferentes valores disputam sentido e passa a seguir uma lógica única, autojustificável. Quem não performa financeiramente deixa de integrar o jogo e transforma-se em erro, desvio ou ineficiência a ser corrigida.

O curto prazo se impõe não como estratégia, mas como ética. Projetos esportivos precisam provar seu valor rapidamente. Técnicos, jogadores, categorias de base e até estilos de jogo passam a ser avaliados por sua capacidade de gerar resultados imediatos — não apenas vitórias, mas estabilidade financeira, previsibilidade e controle.

Nesse ponto, o futebol deixa de reconhecer o risco esportivo como elemento constitutivo e enquadra-o como falha de gestão. Perder deixa de ser possibilidade do jogo e torna-se problema administrativo. A derrota, que sempre integrou a linguagem do futebol — como narrativa, trauma, aprendizado e memória —, alguém empurra para fora do discurso legítimo.

A lógica empresarial ganha força

O futebol começa, então, a se aproximar de uma lógica empresarial clássica, onde o erro precisa ser eliminado, o improviso deve ser contido e a incerteza tratada como ameaça. Mas o jogo só existe porque o resultado não é controlável. É essa indeterminação que sustenta o drama, o vínculo e o sentido.

Quando a gestão tenta neutralizar o risco, ela não torna o futebol mais racional — ela o torna menos futebol.

Essa tensão é estrutural. Não se trata de um mau uso dos dados, nem de gestores mal-intencionados. Trata-se do choque entre duas racionalidades distintas: uma que aceita a incerteza como condição de existência e outra que tenta convertê-la em variável administrável.

Planilhas organizam, projetam, antecipam. Mas elas não conseguem absorver aquilo que faz do futebol uma linguagem social: a possibilidade do fracasso, do imprevisto, da ruptura. O que escapa ao cálculo não é um defeito do jogo — é seu princípio ativo.

Quando eficiência vira virtude moral, tudo o que não se deixa medir passa a parecer suspeito. O futebol, então, corre o risco de funcionar melhor enquanto significa menos. De ganhar estabilidade enquanto perde densidade. De se tornar sustentável enquanto se afasta daquilo que o tornou relevante.

Essa não é uma defesa do caos, nem da improvisação como valor em si. É um alerta sobre limites. Porque um jogo que não pode perder deixa de ser jogo. E um futebol que tenta eliminar o risco não resolve sua crise — apenas desloca o problema para outro lugar, onde nenhuma planilha consegue alcançar.


O clube como organização — e como algo mais

Profissionalizar um clube significa organizá-lo.
Mas um clube não é apenas uma organização.

Ele é também:

  • memória coletiva
  • identidade territorial
  • espaço de pertencimento
  • linguagem simbólica

Essas dimensões não desaparecem quando o futebol se profissionaliza. Mas elas podem ser rebaixadas, tratadas como ruído ou externalidade.

Quando isso acontece, o clube funciona melhor — mas significa menos.

Esse é o dilema central que começa a se desenhar aqui. Não é uma oposição entre passado e futuro, nem entre emoção e razão. É uma pergunta sobre limites.

Até onde a lógica da gestão pode decidir?
E o que acontece quando ela decide tudo?

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O mito da neutralidade técnica

Uma das promessas mais sedutoras da profissionalização é a da neutralidade. A ideia de que dados, métricas e modelos de gestão são objetivos, técnicos, imunes a valores.

Mas nenhuma decisão é neutra.

Escolher o que medir já é uma decisão política. Definir quais indicadores importam mais também. Decidir o que entra e o que fica fora do cálculo nunca é um gesto inocente.

Quando um clube decide priorizar engajamento digital em detrimento da presença física no estádio, isso é uma escolha. Ao definir o perfil de torcedor desejado, isso é uma escolha. Quando transforma identidade em branding, isso é uma escolha.

A técnica não elimina o conflito — ela o reorganiza.


O futebol não piorou. Ele mudou de centro.

Talvez a pergunta mais honesta não seja se o futebol ficou melhor ou pior. Mas o que passou a ocupar o centro do jogo.

Durante muito tempo, o centro foi o campo. Depois, a arquibancada. Em seguida, a televisão. Hoje, o centro se desloca para dashboards, relatórios, plataformas e contratos.

Isso não torna o futebol ilegítimo. Mas o torna diferente.

E toda mudança de centro produz consequências que precisam ser lidas, não naturalizadas.


O que este ensaio não está dizendo

Este texto não defende:

  • a volta a um futebol amador
  • a rejeição do mercado
  • a demonização da gestão
  • a negação dos dados

Ele também não propõe respostas prontas.

O que ele faz é abrir o campo para uma crítica mais precisa — uma crítica que não se perde em melancolia, nem se rende à ideia de que “é assim mesmo”.


A pergunta que fica

Se a profissionalização era necessária — e foi —, a pergunta que precisa ser feita agora não é “como voltar atrás”.

É outra: em que momento eficiência deixou de ser ferramenta e virou ideologia?

Essa pergunta não se resolve neste texto.
Ela é o ponto de partida.

Porque, a partir daqui, o jogo continua — mas começa a ser jogado em outro lugar.

Referências Bibliográficas:

Kuper, Simon & Szymanski, Stefan — Soccernomics

Lewis, Michael — The Numbers Game

Bourdieu, Pierre — Sobre a Televisão

Galeano, Eduardo — Futebol ao Sol e à Sombra

André Sampaio

André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).

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