O Algoritmo do Desejo: Como os Apps moldam o Amor

A Ditadura do Swipe

O gesto é quase hipnótico. O polegar desliza para a esquerda ou para a direita com uma velocidade que o cérebro mal consegue processar. Em menos de um segundo, decidimos se alguém merece nossa atenção baseados em três fotos e uma frase de efeito. O que começou como uma promessa de conectar pessoas em um mundo cada vez mais isolado, tornou-se a maior experiência de reengenharia do desejo humano já vista. Não estamos apenas usando um aplicativo; estamos sendo treinados por uma interface que transforma a alteridade em mercadoria.

Essa mecânica do swipe não é neutra, uma vez que carrega uma carga política e psíquica profunda. Com efeito, quando transformamos o encontro em um jogo de cartas colecionáveis, alteramos inevitavelmente a nossa ‘paciência afetiva’. Dessa forma, o outro deixa de ser um mistério a ser desvendado e passa a figurar apenas como um perfil a ser consumido. Nesse sentido, se o afeto — como discutimos antes — é a capacidade de afetar e ser afetado, o algoritmo passa a agir como um isolante térmico. Em última análise, ele nos protege do impacto real do encontro ao oferecer, em troca, uma simulação segura e higienizada.

Diante desse cenário, convido você, neste ensaio, a olhar para além da tela. O objetivo é investigar como as plataformas de relacionamento — o chamado ‘Capitalismo de Plataforma’ aplicado ao coração — estão moldando a nossa forma de amar. Afinal, se a economia tradicional funciona sob a lógica da escassez, os aplicativos operam na contramão, sob a lógica da abundância infinita. Contudo, e de maneira paradoxal, nada mata mais o desejo do que a sensação constante de que sempre existirá algo ‘melhor’ a apenas um deslize de distância.


A Gamificação do Encontro

A indústria da tecnologia emprestou elementos dos cassinos de Las Vegas para desenhar o Tinder e o Bumble. O “Match” é o prêmio da máquina caça-níquel. Ele libera uma dose imediata de dopamina, aquele bem-estar fugaz que nos valida. No entanto, o objetivo da plataforma nunca foi o seu casamento ou a sua felicidade estável. Nick Srnicek, em sua obra Capitalismo de Plataforma, nos lembra que o combustível dessas empresas são os dados e o tempo de tela.

Se você encontra o amor da sua vida e deleta o aplicativo, a empresa perde um usuário. Portanto, a arquitetura do app é desenhada para manter você na busca, não no encontro. Criamos uma relação de vício com a possibilidade, mais do que com a concretude. O desejo deixa de ser direcionado a uma pessoa real, com seus cheiros, contradições e dificuldades, e passa a ser direcionado ao próximo perfil. A gamificação transforma a paquera em uma tarefa de gerenciamento de estoque.

Para quem não cabe no óbvio: o Conversa Fora precisa de você.

Essa estrutura altera nossa percepção de valor. Quando as opções parecem infinitas, o custo de oportunidade de investir em alguém torna-se alto demais. Por que lidar com o silêncio de um primeiro encontro morno se posso voltar para a interface e tentar uma nova “carta”? A voz ativa aqui é clara: o algoritmo não apenas sugere; ele impõe uma velocidade que atropela a maturação natural de qualquer vínculo humano.


Capitalismo Emocional e a Escolha Infinita

Eva Illouz, uma das maiores sociólogas da atualidade, cunhou o termo “Capitalismo Emocional” para descrever como a gramática do mercado invadiu a nossa intimidade. Nos aplicativos, nos comportamos como consumidores racionais em um supermercado de gente. Analisamos atributos: altura, profissão, signo, preferências políticas. Criamos filtros que funcionam como especificações técnicas de um produto.

O problema é que o amor é, por definição, o colapso desses filtros. Amamos quem não esperávamos, nos encantamos pelo que não está na bio. Ao tentarmos “otimizar” a escolha, matamos a surpresa. Illouz argumenta que essa liberdade total de escolha, na verdade, gera uma paralisia. Diante do catálogo infinito, o sujeito contemporâneo desenvolve uma incapacidade patológica de se comprometer, pois o compromisso é visto como o fechamento de todas as outras portas brilhantes que o algoritmo continua piscando na nossa frente.

Portanto, a autonomia que pensamos ter é uma ilusão. Estamos escolhendo dentro de um cercadinho digital desenhado para maximizar a nossa insatisfação. Afinal, o consumidor satisfeito para de comprar. O usuário satisfeito para de deslizar. A manutenção da nossa “fome” é o que garante o lucro das big techs. O desejo, que deveria ser uma força de expansão, torna-se uma força de consumo voraz e rápido.


A Agonia de Eros e o Espelho do Mesmo

O filósofo Byung-Chul Han, em Agonia do Eros, traz uma crítica feroz a essa mediação digital. Para ele, o amor exige o encontro com o “Totalmente Outro”. Exige ser ferido pela diferença, sair de si mesmo. No entanto, o algoritmo trabalha na lógica do narcisismo. Ele nos entrega pessoas que frequentam os mesmos lugares, ouvem as mesmas músicas e pensam de forma parecida. Ele remove o atrito.

Sem atrito, não há fogo. O que sobra é uma versão domesticada do desejo, uma “pornografia” da imagem onde tudo é exposto e nada é imaginado. O algoritmo elimina a negatividade do outro — o que ele tem de estranho, de difícil, de real — e nos entrega apenas a positividade da imagem consumível. Estamos amando espelhos de nós mesmos, projetados em telas de 6 polegadas.

Essa ausência de alteridade enfraquece a nossa musculatura emocional. Ficamos mimados. Não sabemos mais lidar com o desapontamento, com o tédio ou com a construção lenta que um relacionamento exige. Queremos que o outro chegue “pronto”, formatado para as nossas necessidades, como um pedido de delivery. Quando o humano real aparece, com suas falhas, a nossa tendência é o descarte imediato. Afinal, a interface prometeu que a perfeição estava no próximo swipe.


Amor Líquido e a Fragilidade dos Vínculos

Zygmunt Bauman já nos avisava sobre a “liquidez” das relações modernas muito antes do primeiro iPhone ser lançado. No entanto, os aplicativos deram uma velocidade industrial a esse processo. A distinção que Bauman faz entre “conectar” e “relacionar” é a chave para entendermos nossa exaustão atual. Conexões são fáceis, rápidas e podem ser desfeitas sem explicação. Relacionamentos exigem negociação, tempo e presença.

Hoje, vivemos a era da conexão absoluta e da solidão profunda. Temos 50 matches, mas ninguém para ligar em uma emergência de madrugada. Isso ocorre porque os aplicativos facilitam a entrada, mas dificultam a permanência. A facilidade de “dar o fora” (o famoso ghosting) é uma tecnologia de proteção do ego. Não precisamos enfrentar o desconforto de terminar uma relação, basta desaparecer no vácuo digital.

Essa fragilidade dos vínculos cria um ambiente de insegurança generalizada. Sabemos que somos descartáveis para o outro, assim como o outro é descartável para nós. Essa consciência destrói a confiança necessária para a vulnerabilidade. Sem vulnerabilidade, o afeto vira apenas um jogo de poder e performance. Tornamo-nos especialistas em marketing pessoal, vendendo uma versão editada de nós mesmos para evitar a rejeição, enquanto secretamente ansiamos por sermos vistos de verdade.


A Obsolescência Programada do Afeto

Na indústria, as empresas utilizam a obsolescência programada como estratégia para fabricar produtos com vida útil curta, forçando o consumidor à recompra. Nos afetos digitais, aplicamos essa mesma lógica. Nós ‘usamos’ o outro enquanto ele nos provê novidade e validação. Assim que a curva de entusiasmo cai — o que caracteriza qualquer processo humano natural — a plataforma nos convida ao descarte e à substituição imediata.

Hoje, tratamos pessoas da mesma maneira que tratamos nossos smartphones: enxergamos um objeto funcional que, ao sinalizar a primeira lentidão, trocamos por um modelo mais novo. Essa mentalidade de descarte gera o que chamo de ‘pobreza de repertório afetivo’. Desaprendemos a consertar, a cuidar ou a atravessar crises. Encurtamos nossa paciência afetiva até que ela caiba na duração de um vídeo de 15 segundos no TikTok.

Essa pressa de consumo impede que o afeto cumpra sua função transformadora. O amor deveria ser o lugar onde somos desafiados a crescer. Mas, no regime do algoritmo, o amor é apenas uma extensão do lazer e do conforto. Se dá trabalho, se exige conversa, se dói um pouco, “não é para mim”. Voltamos para a tela, em busca de uma facilidade que, no fundo, sabemos ser estéril.


O Algoritmo do Isolamento Consentido

Paradoxalmente, quanto mais opções temos de “encontro”, mais isolados nos sentimos. Isso acontece porque a interface do aplicativo isola o indivíduo em um processo de escolha puramente solitário. Antigamente, a paquera acontecia em espaços coletivos: na praça, no bar, no trabalho, mediada por amigos ou pelo acaso. Havia um contexto social que sustentava o encontro.

Hoje, o encontro é descontextualizado. É você e o algoritmo no escuro do quarto. Perdemos o “terceiro” — aquele ambiente comunitário que ajudava a dar sentido aos vínculos. Sem esse chão comum, o peso do relacionamento cai inteiramente sobre as duas pessoas, que mal se conhecem e já são cobradas a serem tudo uma para a outra. O isolamento digital disfarçado de hiperconectividade é a grande armadilha da nossa década.

Além disso, a vigilância constante das redes sociais (o Instagram como extensão do Tinder) cria uma pressão de performance que mata a espontaneidade. Precisamos provar que somos felizes, interessantes e viajados para sermos “dignos” de um match. O desejo deixa de ser uma pulsão de vida e passa a ser uma obrigação de currículo. Estamos exaustos porque amar virou um trabalho de relações públicas em tempo integral.


A Descolonização do Desejo Digital

Para encerrar, precisamos conectar essa discussão com a necessidade de descolonizar nossos afetos, como propõe Geni Núñez. Se a colonização organizou subjetividades, os algoritmos são os novos colonizadores do nosso íntimo. Eles ditam o ritmo, os critérios e os limites da nossa imaginação afetiva. Eles nos impõem um modelo único de sucesso relacional centrado no consumo.

Para descolonizar o desejo no mundo digital, precisamos, antes de tudo, retomar o nosso tempo. Nós devemos compreender que a velocidade do algoritmo não acompanha a velocidade do coração. Exigimos de nós mesmos a resistência contra a tentação do descarte fácil para, finalmente, abraçarmos o atrito do encontro real. Nós podemos, quem sabe, desinstalar o aplicativo de vez em quando. Assim, olhamos para o lado, enxergamos o vizinho ou o estranho no café e redescobrimos o risco do olhar sem o filtro da tela.

Não rejeitamos a tecnologia nem pregamos o ludismo, mas impedimos que a interface escreva o roteiro único das nossas histórias. Nós recuperamos a capacidade de permitir que o imprevisto nos afete. O verdadeiro amor rompe o sistema; ele subverte a lógica quando o algoritmo falha em nos proteger de nós mesmos e da maravilhosa complexidade do outro. No fim das contas, nós só conversamos de verdade quando estamos ‘fora’ — fora da tela, fora do roteiro e dentro do imprevisível.

Referências Bibliográficas

Leia Também: Descolonizar os afetos: Uma análise sobre a obra de Geni Núñez

André Sampaio

André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).

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