Se você acompanhou o nosso primeiro texto, percebeu que a fixação de Donald Trump pela Groenlândia não parece ser apenas mais um dos seus “balões de ensaio” diplomáticos. Pelo contrário, há uma lógica de poder que ignora fronteiras e climas. No entanto, para captar a temperatura real deste início de 2026, é preciso tirar o zoom do Polo Norte e observar as nuvens carregadas que se formam sobre o “umbigo” do mundo: o Canal do Panamá.
O que estamos vendo, ainda que em estágio inicial, é o desenho de uma manobra de pinça geopolítica. Sabe aquele gesto de fechar os dedos para testar a resistência de algo? É exatamente o que a nova administração americana parece estar fazendo com o continente. De um lado, no topo do mapa, Washington volta a testar os limites da soberania dinamarquesa sobre o gelo da Groenlândia. Ao mesmo tempo, nos trópicos, a retórica da posse do Canal do Panamá renasce com uma força que não se via desde os anos 70.
Afinal, no xadrez de 2026, quem controla os portões de entrada e saída do continente detém as cartas mais fortes da mesa. Trump parece ter decidido que a neutralidade dessas passagens é um luxo que os EUA não podem mais permitir. O que está em jogo agora não é apenas um pedaço de terra ou uma hidrovia, mas a tentativa de Washington de se restabelecer como o único porteiro das Américas.
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Do sonho francês ao domínio americano: A cicatriz que dividiu um continente
A ideia de rasgar o continente ao meio começou como um projeto francês ambicioso no final do século XIX, liderado por Ferdinand de Lesseps — o mesmo homem que construiu o Canal de Suez. No entanto, o sonho rapidamente se transformou em um pesadelo logístico e humano. Entre 1881 e 1889, a França viu sua companhia falir após a morte de mais de 20 mil trabalhadores, vítimas de malária, febre amarela e das dificuldades intransponíveis da selva tropical. Dessa forma, o projeto foi abandonado, deixando para trás uma cratera financeira e uma obra inacabada que os Estados Unidos, sob o olhar atento de Theodore Roosevelt, estavam ansiosos para assumir.
Nesse cenário, a entrada dos EUA na jogada não foi apenas técnica, mas estratégica. Para garantir o controle total da obra, Washington apoiou ativamente a independência do Panamá em relação à Colômbia em 1903. Como contrapartida, os americanos garantiram o controle perpétuo de uma faixa de 16 quilômetros ao redor da via, a chamada “Zona do Canal”. A partir daí, entre 1904 e 1914, os EUA ergueram o canal, utilizando um sistema de eclusas que funciona como um “elevador de águas”, conectando os dois oceanos através do Lago Gatún.
O controle americano sobre aquele território tornou-se, ao longo das décadas, uma ferida aberta no orgulho panamenho. Apenas em 1977, após anos de protestos e pressões internacionais, que o presidente Jimmy Carter e o líder panamenho Omar Torrijos assinaram os tratados que previam a devolução gradual da via. Quando o controle foi finalmente entregue ao Panamá em 31 de dezembro de 1999, o mundo acreditou que a era do controle externo sobre o canal havia terminado. Contudo, como estamos vendo neste início de 2026, para a atual Casa Branca, esse capítulo histórico parece ser apenas um “erro” que precisa de revisão.
O “roubo” no Panamá e a volta ao passado
Nesse ponto, a conversa no Panamá deixa de ser comercial para se tornar, como é de praxe no governo Trump, uma questão de “honra nacional” e soberania retroativa. Recentemente, o presidente utilizou seus canais oficiais para disparar contra a Autoridade do Canal do Panamá (ACP), classificando as tarifas cobradas dos navios estadunidenses como um “roubo” descarado, além de rotulá-las como “ridículas” e “injustas”.
Mas, para além dos adjetivos, qual é a mecânica real por trás do aumento dessas taxas?
O fato é que o Canal do Panamá opera sob uma vulnerabilidade física: ele depende de água doce. Com a região enfrentando secas recordes neste início de 2026, o nível dos lagos que alimentam as eclusas despencou. Tal fato forçou uma redução drástica no número de navios que podem cruzar a via diariamente. Dessa forma, para compensar a queda no volume de tráfego e financiar obras de infraestrutura hídrica urgentes, o governo panamenho aplicou a lei mais básica do mercado: a oferta diminuiu e o preço subiu.
O problema central, contudo, é que Trump se recusa a aceitar essa lógica de mercado quando ela atinge o custo operacional das empresas americanas. Ao contrário, ele está utilizando esse atrito financeiro como pretexto para desenterrar um fantasma que parecia sepultado desde 1977: a ideia de que o controle americano sobre o canal nunca deveria ter terminado. Para a atual Casa Branca, o fato de os EUA terem construído a obra no século passado gera um direito de propriedade inalienável que sobrepõe qualquer tratado de devolução. Em última análise, Trump não vê a soberania panamenha como um direito internacional, mas como um contrato de aluguel que ele se sente no direito de romper unilateralmente se o “inquilino” cobrar caro demais.
A sombra da China: O verdadeiro medo de Washington
Mas por que tanta agressividade agora? A resposta curta é: China.
Se na Groenlândia o medo é que os chineses comprem as minas de terras raras, no Panamá o medo é que eles já sejam os “donos da rua”. Atualmente, a China é a segunda maior usuária do canal, mas o buraco é mais embaixo. Empresas chinesas controlam os portos nas duas entradas da hidrovia e investiram bilhões em infraestrutura no país.
Trump olha para isso e vê um cavalo de Troia. Ele acredita que, se os EUA não retomarem as rédeas do Panamá, a China vai acabar mandando no fluxo de mercadorias que entra e sai da costa leste americana. É por isso que ele indicou embaixadores com perfil de “negociadores agressivos” e não descarta usar a força. Quando ele diz que “não quer o canal em mãos erradas”, ele está apontando o dedo diretamente para Pequim.
É a mesma lógica da Groenlândia: “Se eu não controlar, o meu inimigo vai”. O mundo de 2026 não tem mais espaço para países neutros na visão de Washington. Ou você é um posto avançado dos EUA, ou você é uma ameaça.
O degelo e a disputa pelas chaves do mundo
Aqui a história da Groenlândia e do Panamá se cruza de um jeito fascinante e assustador. O degelo no Ártico está criando uma “rodovia” alternativa. Hoje, se um navio sai da China para Nova York, ele passa pelo Panamá. Daqui a alguns anos, com o gelo derretendo, ele poderá passar por cima, pela Groenlândia.
Trump quer ser o dono das duas chaves. Ele quer garantir que, se o Panamá ficar caro demais ou “chinês” demais, ele tenha a rota do Norte sob seu comando. E se a rota do Norte for o futuro, ele quer ser o porteiro. É um monopólio das passagens mundiais.
Essa “pinça” estratégica serve para isolar o continente. É uma reafirmação da Doutrina Monroe — “A América para os americanos” — mas com um tempero muito mais explosivo. Trump não está pedindo licença para a Dinamarca ou para o Panamá. Ele está usando tarifas (como os 10% a 25% que prometeu aos europeus) e ameaças militares para forçar o mundo a aceitar que as Américas são o seu quintal particular.
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A resistência: Davi contra Golias
Claro, ninguém entrega a chave de casa sem brigar. O presidente do Panamá, José Raúl Mulino, tem sido vocal: “A nossa soberania não é negociável”. É uma fala corajosa, mas o peso da mão americana é bruto. Vimos isso em Davos, onde os europeus tiveram que se unir militarmente para fazer Trump recuar um milímetro sobre a Groenlândia. O Panamá, sendo um país muito menor e economicamente dependente, está em uma situação ainda mais delicada.
No fundo, o que o Conversa Fora quer que você perceba é que não estamos falando de eventos isolados. A briga pelo gelo no Norte e a briga pelo canal no Sul são a mesma briga. É o desenho de um mundo onde os tratados internacionais valem menos do que a vontade de quem tem mais armas e mais dinheiro.
O recado de Trump para 2026 é claro: as fronteiras do século XX estão sendo redesenhadas na base do grito. E se a pinça fechar, quem estiver no meio terá que escolher um lado, e rápido.
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André Sampaio
André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).
