A sociedade ama as mães. O problema é a maternidade

Existe algo profundamente contraditório na forma como a sociedade trata a maternidade.

Durante um dia do ano, mães ocupam o centro do discurso público. Comerciais emocionados aparecem na televisão, mensagens se espalham pelas redes sociais e a figura materna é apresentada como símbolo máximo de amor, entrega e cuidado. No entanto, basta a segunda-feira chegar para que essa valorização simbólica encontre um limite muito concreto. O mercado de trabalho continua penalizando mães. A carreira acadêmica continua estruturada como se filhos não existissem. O esporte de alto rendimento continua funcionando dentro de uma lógica que trata a maternidade como desvio de percurso.

A sociedade ama a imagem da mãe, mas frequentemente pune a experiência concreta da maternidade.

E talvez essa seja uma das contradições mais reveladoras do nosso tempo.

Porque a maternidade não expõe apenas desigualdades relacionadas às mulheres. Ela revela algo ainda maior: a dificuldade da sociedade contemporânea em reconhecer o cuidado como parte fundamental da vida coletiva.

No fundo, quase tudo ao nosso redor depende do cuidado. Crianças sobrevivem por causa dele. Idosos dependem dele. Pessoas doentes dependem dele. A própria existência social só continua porque alguém, em algum lugar, dedicou tempo, energia e trabalho para sustentar a vida de outra pessoa.

Ainda assim, seguimos organizando o mundo como se esse trabalho simplesmente acontecesse sozinho.

O cuidado que sustenta tudo, mas permanece invisível

Existe uma lógica silenciosa atravessando boa parte da vida contemporânea: aquilo que gera lucro aparece; aquilo que sustenta a vida permanece invisível.

Talvez por isso o trabalho de cuidado continue sendo tratado como algo secundário. Não porque seja pouco importante, mas justamente porque ele foi historicamente naturalizado. Cozinhar, limpar, educar, cuidar de crianças, acompanhar idosos, organizar a rotina doméstica e sustentar emocionalmente uma família passaram séculos sendo vistos não como trabalho, mas como extensão “natural” da existência feminina.

Silvia Federici escreve que o capitalismo nunca dependeu apenas das fábricas ou dos escritórios. Também dependeu de um enorme volume de trabalho invisível realizado dentro das casas. Um trabalho que produz algo essencial para o sistema: a própria manutenção da vida.

Talvez seja por isso que a maternidade revele tantas fissuras sociais ao mesmo tempo.

Porque, quando uma mulher se torna mãe, aquilo que antes estava invisível passa a colidir diretamente com estruturas que foram construídas ignorando a existência do cuidado.

A lógica da produtividade contínua começa a entrar em conflito com o tempo necessário para cuidar de alguém.

E o problema aparece rapidamente.

O mercado de trabalho foi pensado para alguém sem filhos em casa

Uma das coisas mais reveladoras sobre o mercado de trabalho contemporâneo é perceber para quem ele foi originalmente desenhado.

Durante décadas, os cargos mais valorizados foram estruturados a partir de uma lógica de disponibilidade total. Jornadas extensas, reuniões fora do horário, viagens constantes, produtividade contínua e dedicação integral sempre foram tratados como sinais de comprometimento profissional.

Mas existe um detalhe importante nessa estrutura: ela pressupõe alguém livre das responsabilidades do cuidado cotidiano.

Ou, mais precisamente, alguém que possui outra pessoa cuidando da vida doméstica enquanto trabalha.

Essa lógica aparece de forma brutal quando observamos a realidade das mães solo no Brasil.

Uma pesquisa desenvolvida pela pesquisadora Mariene Ramos, divulgada pelo Nexo, mostra que existem cerca de 10,9 milhões de mães solo chefes de domicílio no país. O dado, por si só, já desmonta qualquer tentativa de tratar a maternidade como experiência marginal ou excepcional.

Ainda assim, essas mulheres continuam ocupando um dos lugares mais vulneráveis da estrutura econômica brasileira.

A pesquisa mostra que mães solo possuem maior probabilidade de estarem inseridas em trabalhos precários, enfrentam forte penalização salarial e dependem com frequência de programas de transferência de renda para complementar a sobrevivência da família.

Mas talvez o dado mais revelador seja outro.

Enquanto muitas mulheres deixam o mercado de trabalho após terem filhos pequenos, mães solo frequentemente são empurradas ainda mais rapidamente para ele. Não porque possuam melhores condições, mas porque simplesmente não existe alternativa.

Elas precisam cuidar e prover ao mesmo tempo.

E fazem isso dentro de um sistema que continua tratando o cuidado como problema individual.

A falsa neutralidade da produtividade

Durante muito tempo, a ideia de produtividade foi apresentada como algo neutro.

Produz mais quem se esforça mais.
Cresce mais quem se dedica mais.
Alcança posições melhores quem entrega melhores resultados.

Mas basta observar o impacto da maternidade sobre diferentes carreiras para perceber que essa neutralidade nunca existiu completamente.

A economista Claudia Goldin, citada na pesquisa de Mariene Ramos, utiliza a expressão “trabalho ganancioso” para descrever profissões que exigem disponibilidade permanente e recompensam justamente quem consegue permanecer sempre acessível.

O problema é que esse modelo ignora completamente a existência do cuidado.

Na prática, mães frequentemente deixam de disputar determinados cargos não por falta de capacidade, mas porque a estrutura foi desenhada para alguém que pode permanecer disponível o tempo inteiro.

O efeito disso ultrapassa salários ou promoções.

Ele reorganiza trajetórias inteiras.

E talvez um dos espaços onde essa contradição fique ainda mais evidente seja a universidade.

A universidade ainda funciona como se pesquisadores não tivessem filhos

Existe uma imagem muito romantizada da vida acadêmica.

A ideia de produção intelectual costuma aparecer associada à liberdade, reflexão e conhecimento. No entanto, por trás desse imaginário existe uma estrutura profundamente marcada por metas, produtividade constante e pressão permanente por desempenho.

Foi exatamente isso que o movimento Parent in Science começou a denunciar nos últimos anos.

Em reportagem publicada pelo Nexo, a pesquisadora Fernanda Staniscuaski afirma que muitas mulheres continuam sendo pressionadas a produzir academicamente durante a licença-maternidade. Em diversos casos, a maternidade ainda aparece como obstáculo informal dentro da trajetória universitária.

O dado talvez mais impactante seja o levantamento mostrando que 80% das pesquisadoras entrevistadas afirmaram que ter filhos afetou negativamente suas carreiras acadêmicas.

E isso não acontece apenas por preconceito explícito.

A própria estrutura da pós-graduação continua baseada numa lógica de produtividade contínua. O tempo de conclusão do mestrado, do doutorado e a frequência de publicações permanecem funcionando como critérios centrais de avaliação.

O problema é que a maternidade interrompe justamente aquilo que o sistema universitário mais exige: continuidade.

Durante a pandemia, quando creches fecharam e redes de apoio desapareceram temporariamente, apenas 11% das mulheres mães que cursavam pós-graduação conseguiram concluir seus cursos.

O dado é brutal porque ele revela algo maior do que uma dificuldade individual.

Ele mostra que boa parte da produção acadêmica contemporânea continua funcionando como se alguém estivesse, em outro lugar, sustentando silenciosamente toda a dimensão do cuidado.

Nem o alto rendimento escapa da lógica da penalização

Talvez exista algo particularmente simbólico no caso da ex-judoca Sarah Menezes.

Campeã olímpica, treinadora responsável por medalhas brasileiras em Paris-2024 e uma das figuras mais importantes da história do judô nacional, Sarah foi desligada da Confederação Brasileira de Judô poucos meses após retornar da licença-maternidade.

Ainda que a entidade tenha negado relação direta entre a demissão e a maternidade, o episódio gerou debate justamente porque expõe uma sensação recorrente em diferentes áreas: a ideia de que a maternidade reduz disponibilidade, desempenho ou comprometimento profissional.

No esporte de alto rendimento, essa lógica se torna ainda mais agressiva.

O corpo da atleta é constantemente tratado como instrumento de performance. Há metas físicas, rankings, calendários, competições e pressão contínua por resultados. Dentro dessa estrutura, a gravidez frequentemente aparece como interrupção indesejada.

Durante décadas, muitas atletas esconderam a maternidade por medo de perder patrocínios, contratos ou espaço profissional.

Mesmo com avanços recentes, como a manutenção do Bolsa Atleta durante gestação e puerpério, o cenário ainda está longe de estabilidade.

A própria existência de debates sobre licença-maternidade no esporte já revela o tamanho do problema.

Porque, no fundo, estamos falando sobre uma sociedade que aceita corpos femininos enquanto eles performam continuamente, mas se torna desconfortável quando esses mesmos corpos passam a exigir tempo, pausa e cuidado.

O problema não é a maternidade

Existe um movimento curioso na forma como esses debates costumam aparecer.

Frequentemente, a maternidade é tratada como “desafio” individual que precisa ser conciliado pela mulher. Surge então uma infinidade de discursos sobre equilíbrio, organização e capacidade de administrar múltiplas funções.

Mas talvez isso inverta completamente a questão.

O problema não é a maternidade.

O problema é uma estrutura social construída como se ninguém precisasse cuidar de ninguém.

Nancy Fraser argumenta que o capitalismo contemporâneo vive uma espécie de crise do cuidado. O sistema depende profundamente da reprodução da vida social, mas ao mesmo tempo precariza justamente as condições necessárias para que esse cuidado exista.

Isso ajuda a explicar por que tantas mães vivem permanentemente atravessadas pela sensação de exaustão.

Não se trata apenas de excesso de tarefas.

Existe também uma tensão constante entre duas exigências incompatíveis:
produzir sem interrupção e cuidar continuamente de alguém.

E talvez seja exatamente nesse ponto que a maternidade revele algo maior sobre o nosso tempo.

Porque ela desmonta a fantasia da autonomia absoluta.

A ideia de que indivíduos são totalmente independentes, produtivos e autossuficientes só se sustenta porque existe uma enorme rede invisível de cuidado funcionando nos bastidores da vida social.

A sociedade só funciona porque alguém cuida

Byung-Chul Han escreve que vivemos numa sociedade marcada pela lógica do desempenho permanente. Tudo precisa gerar resultado, produtividade, crescimento e otimização.

Talvez por isso o cuidado produza tanto desconforto.

Cuidar exige tempo.
Exige pausa.
Repetição.
Exige presença.

E quase nada disso pode ser acelerado sem custo humano.

Uma criança não entende metas corporativas.
Um bebê não funciona na lógica da produtividade.
O cuidado simplesmente possui outro ritmo.

Talvez seja justamente por isso que a maternidade revele tantas fragilidades estruturais ao mesmo tempo.

Ela expõe os limites de uma sociedade que aprendeu a valorizar desempenho muito mais do que sustentação da vida.

No entanto, existe uma ironia profunda nisso tudo.

Porque nenhuma economia sobreviveria sem mães.
Nenhuma universidade existiria sem cuidado.
Nenhum atleta chegaria ao alto rendimento sem alguém sustentando parte invisível da vida cotidiana.

O cuidado nunca foi periférico.

Ele sempre esteve no centro.

A diferença é que escolhemos organizar a sociedade fingindo que não.

Para quem não cabe no óbvio: o Conversa Fora precisa de você.

O que o Dia das Mães frequentemente deixa de mostrar

Talvez o aspecto mais incômodo do Dia das Mães seja justamente esse contraste.

A data celebra emocionalmente aquilo que a estrutura social continua se recusando a sustentar materialmente.

Flores aparecem.
Mensagens emocionadas circulam.
A maternidade é transformada em símbolo de amor e sacrifício.

Mas raramente se fala sobre creches insuficientes, jornadas duplas, precarização do trabalho, abandono institucional ou sobre o modo como mães continuam sendo empurradas para fora de espaços profissionais.

E talvez isso aconteça porque homenagear simbolicamente é mais confortável do que reorganizar estruturalmente.

Reconhecer de verdade o valor do cuidado exigiria discutir trabalho, renda, políticas públicas, tempo, divisão doméstica, mercado e desigualdade.

Exigiria admitir que a sociedade depende profundamente de algo que continua tratando como invisível.

No fim, talvez a maternidade seja uma das experiências que melhor revelam as contradições do nosso tempo.

Porque ela torna impossível ignorar uma pergunta fundamental:

como uma sociedade pode depender tanto do cuidado e, ao mesmo tempo, continuar tratando quem cuida como obstáculo?

Referências Bibliográficas:

Silvia Federici — O Ponto Zero da Revolução
Nancy Fraser — Capitalismo em Debate
Byung-Chul Han — Sociedade do Cansaço
Claudia Goldin — Carreira e família

Leia também: Quando a Raiva Vira Linguagem

André Sampaio

André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).

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