Os lugares onde você podia só estar ainda existem?

Os lugares onde você podia só estar ainda existem?

A Praça São Salvador, em Laranjeiras, sempre foi um desses lugares onde a cidade parecia desacelerar sem esforço. Crianças correndo entre os bancos, gente lendo, gente conversando, gente simplesmente parada. Não era preciso consumir nada, não era preciso justificar a presença. Bastava estar.

Mas algo vem mudando, mesmo ali.

A praça continua cheia em determinados horários, especialmente quando há música ou eventos. No entanto, fora desses momentos, a permanência se torna mais rarefeita. As pessoas passam, observam, ficam menos tempo. A ocupação deixa de ser contínua e passa a depender de algum tipo de ativação.

A praça não desapareceu.

Mas a forma de estar nela já não é a mesma.


A transformação silenciosa dos espaços

Durante muito tempo, a cidade do Rio de Janeiro se organizou em torno de espaços que permitiam esse tipo de permanência difusa. Praças de bairro, calçadas largas, áreas de convivência espontânea. Lugares em que o tempo não precisava ser otimizado.

Richard Sennett ajuda a entender por que isso começa a se transformar. Ao analisar a erosão da vida pública, ele mostra como as cidades contemporâneas passaram a privilegiar espaços mais controlados, legíveis e orientados por função. O espaço urbano deixa de ser aberto à improvisação e passa a ser desenhado para comportamentos previsíveis.

No Rio, isso aparece de forma sutil. Não se trata apenas de grandes projetos urbanísticos, mas de pequenas reorganizações: mobiliário que dificulta permanência prolongada, vigilância constante, pressão informal para circulação. O espaço continua público, mas se torna menos disponível.

A cidade não expulsa diretamente.

Ela desestimula.


Quando estar deixa de ser suficiente

Essa mudança fica ainda mais evidente quando observamos quais espaços permanecem intensamente ocupados. Bares, cafés, quiosques, academias ao ar livre com atividades guiadas. Lugares onde a presença está mediada por alguma forma de ação ou consumo.

A Praça General Osório, em Ipanema, ilustra bem esse deslocamento. Aos domingos, com a feira, o espaço se enche. Durante a semana, a lógica é outra. A permanência sem finalidade clara se torna mais rara. Estar ali passa a exigir algum tipo de justificativa, ainda que implícita.

Sharon Zukin argumenta que a cultura do consumo redefine a experiência do espaço público. Mesmo quando o espaço permanece aberto, ele passa a ser atravessado por lógicas privadas. A presença livre perde espaço para uma presença condicionada.

Não basta ocupar.

É preciso fazer algo ali.

Leia também: A cidade que só existe no caminho


A perda do espaço sem finalidade

Essa transformação não é apenas urbana. Ela é também uma mudança na forma como nos relacionamos com o tempo.

Hartmut Rosa propõe que a aceleração da vida contemporânea não se limita à velocidade das atividades, mas à forma como reduzimos os momentos de relação não instrumental com o mundo. Ele chama esses momentos de ressonância.

Os espaços que não exigem nada da gente são, justamente, aqueles em que a ressonância pode acontecer.

Na Praça XV, por exemplo, durante a semana, o fluxo intenso de trabalhadores atravessa o espaço. Poucos permanecem. O tempo ali é funcional. Nos fins de semana, quando a lógica desacelera, a experiência muda. O espaço se reabre, ainda que temporariamente, para outra forma de presença.

Isso mostra que o problema não está apenas no espaço, mas na forma como o tempo organiza seu uso.


A cidade que exige performance

A cidade contemporânea não apenas organiza fluxos. Ela também produz expectativas sobre como devemos nos comportar nesses fluxos.

Michel de Certeau mostra que os indivíduos sempre encontram formas de reinventar o uso dos espaços, criando desvios e apropriações inesperadas. No entanto, essas práticas dependem de brechas.

Quando os espaços se tornam excessivamente regulados, monitorados ou orientados, essas brechas diminuem.

No Rio, isso se expressa de forma paradoxal. Ao mesmo tempo em que a cidade é conhecida pela ocupação espontânea das ruas, ela também convive com processos de ordenamento que reduzem essa espontaneidade. A presença passa a ser observada, classificada, muitas vezes tolerada apenas sob certas condições.

A cidade continua viva.

Mas menos aberta ao imprevisível.


O que desaparece quando o espaço continua

O mais interessante é que nada disso exige a eliminação física dos espaços. As praças continuam ali. As ruas continuam abertas. Os bancos continuam disponíveis.

O que desaparece é a duração.

As pessoas passam menos tempo. Interrompem menos o ritmo. Evitam permanecer sem finalidade. O espaço deixa de ser um lugar de estar e se torna um ponto de passagem.

E isso não aparece em indicadores urbanos tradicionais.

Não aparece em mapas.

Mas altera profundamente a experiência da cidade.


Reaprender a ocupar

Talvez reaprender a ocupar não tenha a ver com voltar ao passado, mas com criar novas formas de permanência dentro das condições atuais.

A cidade não vai desacelerar.
O fluxo não vai diminuir.
Os estímulos não vão desaparecer.

O que pode mudar é outra coisa: a nossa capacidade de interromper.

Interromper não como falha, mas como gesto.

Ficar alguns minutos a mais do que o necessário.
Não transformar imediatamente a presença em atividade.
Não responder ao impulso de preencher o tempo.

Hoje, permanecer exige decisão.

Leia também: O lugar onde você cresceu ainda existe?


Quando o problema deixa de ser o espaço

Mas talvez a questão mais incômoda esteja em outro lugar.

E se o problema não for apenas a falta de espaços?

E se, em alguma medida, a gente tiver desaprendido a querer esse tipo de experiência?

Porque ocupar um lugar sem finalidade exige tolerar algo que se tornou raro: a ausência de estímulo imediato.

E nem sempre queremos isso.

Talvez o ponto não seja apenas defender a praça, a rua ou o espaço público.

Talvez o ponto seja mais simples e mais difícil:

reaprender a desejar estar em um lugar
onde nada, necessariamente, precisa acontecer.

Referências Bibliográficas:

Richard Sennett — O Declínio do Homem Público
Sharon Zukin — Naked City: The Death and Life of Authentic Urban Places
Hartmut Rosa — Aceleração: A Transformação das Estruturas Temporais na Modernidade
Michel de Certeau — A Invenção do Cotidiano

André Sampaio

André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).

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