Ascensão de potências não-ocidentais: Índia, China e o redesenho silencioso do poder global.

Ascensão de potências não-ocidentais: Índia, China e o redesenho silencioso do poder global.

A notícia que ajuda a entender o momento

Nas últimas semanas, uma notícia ganhou espaço nos principais jornais internacionais, mas passou quase despercebida no debate público brasileiro. O governo da Índia anunciou um novo pacote de reformas econômicas, com foco em atrair investimentos estrangeiros, fortalecer setores estratégicos e acelerar o crescimento do país. A medida foi apresentada como mais um passo para consolidar a Índia como uma das grandes potências do século XXI.

Esse tipo de notícia tem se tornado cada vez mais comum. E ela aponta para algo maior: o poder global está mudando, ainda que de forma lenta e pouco espetacular.

Durante boa parte do século XX, falar de poder global era falar quase exclusivamente dos Estados Unidos e da Europa Ocidental. Eram esses países que concentravam riqueza, influência política, tecnologia e a capacidade de definir regras econômicas, comerciais e diplomáticas. Esse cenário não desapareceu, mas deixou de ser exclusivo.

A Índia hoje é a 5ª maior economia global

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O que está por trás do novo pacote de reformas da Índia

Quando o governo indiano anuncia um novo pacote de reformas econômicas, não está falando de uma única medida isolada, mas de um conjunto articulado de mudanças que vêm sendo aceleradas nos últimos meses. O objetivo declarado é claro: atrair investimentos estrangeiros, fortalecer setores estratégicos e consolidar a Índia como uma potência global nas próximas décadas.

Na prática, essas reformas se organizam em algumas frentes principais:

1) Facilitação do comércio e redução da burocracia

Uma das medidas mais imediatas anunciadas pelo governo foi a simplificação dos processos de importação. A Índia reduziu exigências de inspeção, acelerou autorizações e ampliou o uso de sistemas digitais para controle aduaneiro. A intenção é tornar o país mais atraente para empresas internacionais que dependem de cadeias produtivas rápidas e previsíveis, especialmente em setores industriais e tecnológicos.

Essa mudança também dialoga com negociações comerciais em andamento, principalmente com os Estados Unidos, sinalizando que a Índia quer se posicionar como um parceiro mais “confiável” no comércio global.

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2) Abertura de setores estratégicos ao capital privado

Outro ponto central do pacote é a abertura de setores historicamente controlados pelo Estado, com destaque para a energia. O Parlamento indiano aprovou uma legislação que permite a entrada de investimento privado — inclusive estrangeiro — no setor de energia nuclear, algo impensável até pouco tempo atrás.

A justificativa oficial é ampliar a capacidade energética do país, reduzir gargalos de infraestrutura e garantir segurança energética para sustentar o crescimento econômico acelerado. Ao mesmo tempo, essa abertura indica uma mudança importante no papel do Estado indiano, que passa a dividir áreas estratégicas com grandes grupos privados.

3) Expansão de acordos comerciais e serviços globais

O pacote de reformas também se conecta à estratégia internacional da Índia, que vem ampliando acordos comerciais e parcerias bilaterais. Um exemplo recente é o fortalecimento de acordos na área de serviços financeiros e tecnologia, setores nos quais o país busca liderança regional e global.

Esses acordos ajudam a integrar ainda mais a Índia às cadeias globais de valor, especialmente em áreas como fintechs, serviços digitais e tecnologia da informação, onde o país já tem presença consolidada.

4) Crescimento econômico como pano de fundo

Todas essas reformas são sustentadas por um cenário macroeconômico favorável. Dados recentes indicam que a Índia já figura entre as maiores economias do mundo e mantém taxas de crescimento superiores às de países centrais da Europa. O governo usa esses números como argumento para acelerar reformas e reforçar a imagem do país como um novo polo de crescimento global.


Um mundo pós-americano, mas não necessariamente mais justo

Para explicar essa mudança, o cientista político Fareed Zakaria propôs a ideia de que vivemos em um mundo pós-americano. Segundo ele, os Estados Unidos continuam sendo uma potência central, mas já não dominam o sistema internacional sozinhos. O poder está mais distribuído, com vários países disputando espaço ao mesmo tempo.

Esse diagnóstico ajuda a entender por que a ascensão da Índia e da China importa. Ele mostra que o eixo tradicional do Ocidente perdeu a exclusividade. Mas o conceito também tem limites importantes. Ele descreve bem o deslocamento do poder, mas diz pouco sobre as consequências sociais e políticas desse processo.

A pergunta central não é apenas quem cresce mais, mas que tipo de crescimento está em jogo e quem se beneficia dele.


China e Índia: dois caminhos, contradições parecidas

No caso da China, a ascensão foi marcada por um modelo fortemente coordenado pelo Estado. Planejamento de longo prazo, investimento pesado em infraestrutura e controle de setores estratégicos permitiram um crescimento acelerado e transformaram o país em uma potência industrial e tecnológica.

Esse modelo trouxe ganhos concretos, como redução da pobreza e enorme capacidade produtiva. Ao mesmo tempo, concentrou poder político, ampliou mecanismos de vigilância e limitou espaços de participação social. A experiência chinesa mostra que eficiência econômica não significa, automaticamente, mais liberdade ou igualdade.

A Índia segue um caminho diferente. O país aposta em reformas econômicas, abertura ao mercado internacional e digitalização de serviços públicos. Nos últimos anos, criou grandes sistemas digitais de identificação, ampliou o uso de plataformas tecnológicas na gestão do Estado e passou a ser vista como uma alternativa estratégica em um mundo que busca reduzir a dependência da China.

É nesse contexto que a notícia recente sobre as reformas indianas ganha sentido. Ela não é apenas uma decisão econômica interna, mas parte de uma estratégia de posicionamento global. Ainda assim, o crescimento indiano convive com desigualdades históricas, exclusões sociais e conflitos políticos que não desaparecem com bons indicadores econômicos.


O poder muda de lugar, mas o sistema continua

Autores como Giovanni Arrighi ajudam a colocar esse processo em perspectiva histórica. Para ele, a ascensão da China não representa o fim do capitalismo global, mas uma mudança nos seus centros de comando. O sistema continua operando com regras semelhantes, ainda que sob novas lideranças.

Samir Amin lembrava que o desenvolvimento capitalista tende a ser desigual. Mesmo quando novos países ascendem, as hierarquias globais e internas não desaparecem. Elas apenas se reorganizam.

Por isso, a ascensão de potências não-ocidentais não deve ser lida como uma vitória automática do Sul Global. O mundo pode se tornar menos dominado pelo Ocidente sem se tornar mais igualitário.


O que esse novo mapa de poder revela

Para um blog que se propõe a mapear relações de poder, o desafio é ir além da celebração fácil da multipolaridade. A notícia sobre a Índia é um sinal de que o centro do mundo está se deslocando, mas também de que as lógicas de crescimento, controle e exclusão continuam ativas.

Mapear esse processo é entender que o poder não desaparece nem se democratiza por si só. Ele muda de forma, muda de endereço e muda de idioma — mas continua produzindo vencedores e perdedores.

É esse olhar que permite transformar uma notícia econômica em uma leitura crítica do presente. Porque mapas de poder não servem apenas para mostrar quem manda, mas para revelar como esse mando se organiza e quem continua ficando à margem dele.

Saiba mais:

Fareed ZakariaO Mundo Pós-Americano (Um dos livros mais interessantes que li sobre o assunto =))

Giovanni ArrighiAdam Smith em Pequim

André Sampaio

André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).

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