O que está acontecendo agora?
Janeiro de 2026 começou com o Irã mergulhado em um silêncio forçado, mas ensurdecedor. Enquanto você lê estas linhas, o governo de Teerã mantém apenas 1% do tráfego de internet ativo no país. Não é apenas uma falha técnica ou um bloqueio parcial; é um sequestro digital de uma nação inteira. O objetivo é claro: impedir que o mundo veja o que acontece nas praças de 186 cidades. Onde o que começou como um protesto de comerciantes em 28 de dezembro se transformou na maior ameaça existencial ao regime teocrático desde 1979.
Nesse primeiro texto da nossa trilogia especial, vamos mergulhar fundo no que está acontecendo “dentro de casa”. Vamos falar da economia que simplesmente parou de funcionar, do abismo intransponível entre uma juventude conectada e uma liderança octogenária, e de como o governo transformou o apagão tecnológico em sua última linha de defesa. No segundo texto, vamos detalhar a “Engrenagem de Ferro” — o poder militar que sustenta o trono. Por fim, o tabuleiro geopolítico onde Trump e Netanyahu observam o Irã como uma peça a ser derrubada.
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1. A Economia do Esgotamento: O Rial contra o Prato de Comida
Para entender por que o Irã está em chamas, precisamos esquecer por um momento a religião e olhar para o preço do pão. Em 2026, a inflação no país deixou de ser um índice econômico para se tornar uma crise de sobrevivência biológica. Imagine tentar planejar o dia seguinte em uma economia onde a moeda local, o Rial, derrete mais rápido do que a neve nas montanhas que cercam Teerã.
Historicamente, o regime sobreviveu a sanções e crises porque mantinha um pacto implícito com os “bazaris” — os influentes comerciantes do Grande Bazar. Esse grupo é a espinha dorsal conservadora do Irã. No entanto, em 28 de dezembro, esse pacto foi rasgado. Quando os donos de lojas fecham suas portas não por feriado religioso, mas por incapacidade de repor estoque devido à desvalorização cambial, o sistema perde sua fundação.
Somado ao caos financeiro, o Irã enfrenta uma seca histórica que não é apenas “clima ruim”, mas um desastre estrutural. A falta de água devastou a produção de alimentos no cinturão agrícola, disparando os preços de itens básicos como arroz e carne para patamares que a classe média — agora empobrecida — não consegue mais alcançar. O descontentamento que vemos nas ruas não é apenas por liberdade abstrata; é a fúria de quem trabalha e, ainda assim, não consegue alimentar a própria família. Como apontou o diplomata Cesário Melantonio, a qualidade de vida caiu a um nível tão baixo que o medo da polícia foi substituído pelo desespero da fome.
2. Os “Netos da Revolução”: O Fim da Conexão Ideológica
Existe um abismo geracional no Irã que não pode ser consertado com discursos. De um lado, temos o Líder Supremo, Ali Khamenei, com 86 anos e uma visão de mundo forjada na luta revolucionária de cinco décadas atrás. Do outro, uma massa de jovens e mulheres que nasceram em um mundo globalizado, digital e sedento por modernidade.
O que mudou em 2026 em relação aos protestos de 2022 (o caso Mahsa Amini)? A escala e o perfil. Se antes o foco era o uso do hijab, hoje a pauta é o sistema como um todo. As mulheres iranianas continuam na vanguarda, mas agora elas arrastam consigo estudantes, operários e até setores do serviço público. Para essa geração “pós-mantra”, a retórica anti-ocidental do regime soa como uma linguagem morta. Eles não querem trocar apenas um presidente; eles querem um país onde possam ter uma carreira, viajar e se expressar sem pedir licença a uma “polícia da moral” que parece viver em 1979.
O custo humano dessa resistência é brutal. Dados verificados por ONGs internacionais como a Iran Human Rights e a HRANA apontam para mais de 3.000 mortos desde o início desta onda. Em cidades como Teerã, Mashhad e Isfahan, o luto foi transformado em tática de combate: cada funeral de um manifestante jovem torna-se o pavio para um novo protesto maior no dia seguinte. O governo tenta conter esse ciclo com prisões em massa — já são mais de 10 mil detidos — mas a lógica da repressão está atingindo o seu ponto de retornos decrescentes.
3. A Guerra pelo Wi-Fi: O Apagão como Tática de Sobrevivência
Se você quer medir o nível de fragilidade de um governo, olhe para o status da sua rede de internet. O NetBlocks confirmou que o Irã está offline há semanas, mantendo comunicações mínimas apenas para serviços governamentais. Esse apagão não é apenas censura; é uma tática de guerra cirúrgica. Sem internet fixa, dados móveis ou SMS, o regime tenta impedir que os manifestantes coordenem seus movimentos e, principalmente, que as imagens da violência policial cheguem ao olhar do mundo.
Isso criou um cenário inédito: a imprensa internacional hoje cobre o Irã “às cegas”, baseando-se em relatos que conseguem furar o bloqueio através de terminais da Starlink ou VPNs sofisticadas. A Guarda Revolucionária, percebendo isso, iniciou uma caça física às antenas de satélite, confiscando equipamentos em batidas domiciliares.
A interrupção vai além das redes sociais. Ela afeta bancos, hospitais e a logística básica, punindo a própria população que o governo diz proteger. É um cenário de “terra arrasada digital”. A jornalista Adriana Carranca explica que o regime arrancou Teerã — um centro urbano cosmopolita e intelectual — do século XXI e a jogou, de repente, no isolamento total. Essa desconexão forçada é a última barreira que o regime encontrou para evitar que o “vírus da liberdade” se espalhe pelas províncias mais conservadoras, onde o controle da informação ainda é a arma mais poderosa do Estado.
O que vem por aí?
O cenário interno é de um vulcão que já entrou em erupção, mas cujas lavas ainda não atingiram o coração do palácio. A economia ruiu, a juventude rompeu o laço moral com a teocracia. O Estado só consegue se comunicar através do silêncio forçado e do cassetete.
Mas fica a pergunta: se a situação interna é tão catastrófica, por que o regime ainda não caiu?
No nosso próximo texto, vamos falar sobre a “Engrenagem de Ferro”. Vamos dissecar o poder da Guarda Revolucionária, uma força militar que controla 40% da economia do país e que tem privilégios demais para deixar o sistema desmoronar. Sem entender quem segura as armas e o cofre, não dá para entender o que ainda mantém os aiatolás no poder.
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André Sampaio
André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).
