1. A tentação dos salvadores
Em momentos de crise, sociedades tendem a procurar atalhos. Quando instituições parecem lentas, burocráticas ou incapazes de responder a urgências reais, surge a tentação do “salvador”: a pessoa forte, carismática, decidida, que promete resolver o que as regras não deram conta. Esse impulso não é novo. Ele atravessa democracias jovens e antigas, países ricos e pobres, momentos de guerra e de estabilidade.
No entanto, como mostram Steven Levitsky e Daniel Ziblatt em Como as Democracias Morrem, é justamente nesses momentos que as democracias se tornam mais vulneráveis. Não porque as pessoas sejam más por natureza, mas porque o personalismo desloca o centro da política: em vez de regras compartilhadas, passam a valer vontades individuais. Em vez de freios institucionais, entram em cena lealdades pessoais.
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A ideia de que “uma pessoa certa no lugar certo” pode corrigir distorções estruturais seduz porque simplifica problemas complexos. Ela transforma crises econômicas, desigualdades históricas e falhas institucionais em narrativas morais: tudo vira questão de caráter, coragem ou intenção. O problema é que democracias não falham por falta de bons indivíduos. Elas falham quando regras deixam de valer igualmente para todos.
Por isso, antes de perguntar quem governa, vale perguntar como se governa — e, sobretudo, o que limita o poder de quem governa.
2. Democracias não morrem de uma vez
Uma das contribuições centrais de Como as Democracias Morrem está em desmontar a imagem clássica do golpe abrupto. Hoje, democracias raramente acabam com tanques nas ruas ou suspensão explícita de eleições. Elas se desgastam por dentro, em processos graduais, muitas vezes legais, quase sempre normalizados.
Esse processo costuma seguir um padrão conhecido: líderes eleitos enfraquecem instituições de controle, atacam a imprensa, questionam a legitimidade de adversários e reescrevem regras em benefício próprio — tudo isso mantendo uma aparência formal de legalidade. A democracia não cai; ela se esvazia.
Nesse contexto, o problema não está apenas na figura do líder, mas na fragilidade das instituições que deveriam conter abusos. Quando tribunais se submetem, parlamentos se tornam acessórios e órgãos de fiscalização perdem autonomia, a democracia passa a depender da “boa vontade” de quem ocupa o poder. E boa vontade nunca foi um fundamento sólido para regimes democráticos.
Democracias saudáveis não confiam em virtudes individuais. Elas apostam em desconfiança organizada: pesos, contrapesos, limites claros. Quando essas engrenagens falham, não há carisma que compense.
3. Por que algumas regras funcionam — e outras não
Em Por que as Nações Fracassam, Daron Acemoglu e James Robinson aprofundam essa discussão ao mostrar que o desenvolvimento político e econômico depende menos de líderes iluminados e mais de instituições inclusivas. Essas instituições distribuem poder, garantem previsibilidade e criam incentivos para cooperação de longo prazo.
Já instituições extrativistas concentram poder e recursos nas mãos de poucos. Elas podem até funcionar por um tempo, especialmente sob líderes fortes, mas tendem a gerar instabilidade, corrupção e conflitos recorrentes. O problema não é apenas moral; é estrutural.
Esse argumento ajuda a entender por que países não “fracassam” por azar ou cultura, mas por escolhas institucionais acumuladas ao longo do tempo. Onde regras mudam conforme o governante, investimentos recuam, confiança social se dissolve e o conflito se intensifica. Onde regras valem independentemente de quem está no poder, a política se torna previsível — mesmo em cenários de disputa.
Assim, quando o debate público se concentra apenas em pessoas — quem é honesto, quem é corrupto, quem é forte ou fraco — ele perde de vista a pergunta mais incômoda: o sistema permite que qualquer pessoa abuse do poder?
4. O personalismo como atalho perigoso
O culto à personalidade não nasce apenas em regimes autoritários declarados. Ele também se infiltra silenciosamente em democracias por meio de narrativas que opõem “o povo” às instituições. Nesse enquadramento, líderes se apresentam como intérpretes exclusivos da vontade popular, enquanto parlamentos, tribunais, imprensa e órgãos técnicos passam a ocupar o papel de entraves. O que antes funcionava como garantia democrática começa a ser descrito como obstáculo ilegítimo.
Esse tipo de discurso simplifica deliberadamente a política. Ele constrói um falso dilema: ou a sociedade aceita a lentidão, a complexidade e o conflito próprios das instituições, ou entrega poder a uma figura capaz de decidir sozinha. Ao transformar regras em inimigas, esse argumento redefine limites como traição e mediação como fraqueza. O resultado é perverso: sem instituições fortes, a própria noção de vontade popular se torna maleável, sujeita à manipulação retórica de quem fala mais alto.
Levitsky e Ziblatt mostram que democracias não sobrevivem apenas graças a leis escritas. Elas dependem, sobretudo, de normas informais que organizam o jogo político: autocontenção no uso do poder, reconhecimento da legitimidade do adversário e disposição para aceitar derrotas temporárias. Essas normas não aparecem nos códigos legais, mas sustentam sua aplicação cotidiana. Quando líderes desprezam esses acordos tácitos e tratam limites como sinais de fraqueza, eles corroem o terreno onde a democracia se apoia.
Por isso, o problema não está na existência de conflitos ou paixões políticas — eles são inevitáveis e, muitas vezes, saudáveis. O risco surge quando esses conflitos deixam de operar dentro de regras compartilhadas. Regras não existem para eliminar disputas, mas para impedir que elas destruam o próprio jogo democrático.
5. Instituições como prática cotidiana
Instituições não são abstrações distantes. Elas se manifestam no cotidiano: na previsibilidade das decisões, na igualdade perante a lei, na confiança de que contratos serão cumpridos e direitos respeitados. Quando funcionam, passam quase despercebidas. Quando falham, tudo se torna instável.
Esse talvez seja seu maior paradoxo: instituições fortes raramente geram entusiasmo. Elas não produzem heróis, mas rotinas. Não oferecem catarse, mas continuidade. Em uma cultura política cada vez mais orientada pelo espetáculo, isso parece pouco.
Ainda assim, são essas rotinas que sustentam democracias no longo prazo. Países que resistem a crises profundas não o fazem porque encontraram líderes perfeitos, mas porque preservaram regras mínimas mesmo sob pressão extrema.
Nesse sentido, defender instituições não é defender o status quo. É defender a possibilidade de mudança sem ruptura autoritária.
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6. O custo de ignorar as regras
Quando sociedades apostam excessivamente em pessoas, elas transferem para indivíduos responsabilidades que deveriam caber às estruturas. Essa aposta cobra um preço alto porque líderes falham — não por desvio moral excepcional, mas porque a falha faz parte da condição humana. Sem instituições sólidas, cada erro individual se transforma em crise sistêmica. Transições de poder deixam de ser rotinas democráticas e passam a funcionar como testes de sobrevivência do regime. Eleições, em vez de mecanismos de alternância, assumem a forma de disputas existenciais.
Nesse ambiente, a política perde sua natureza agonística e se aproxima da lógica da guerra. Adversários deixam de ser oponentes legítimos e passam a ser tratados como ameaças absolutas. A confiança institucional se dissolve, e a disputa por poder se organiza em torno do medo: medo de perder privilégios, medo de perseguição, medo de colapso. O espaço público se radicaliza não porque as diferenças aumentam, mas porque as garantias desaparecem.
Acemoglu e Robinson mostram que esse cenário alimenta ciclos recorrentes de instabilidade. Diante de problemas reais, líderes concentram poder em nome da eficiência, enfraquecem controles institucionais e prometem soluções rápidas. No curto prazo, esse movimento pode produzir sensação de ordem. No longo prazo, porém, ele corrói a própria capacidade do sistema de aprender com seus erros. Ao deixar o poder, esses líderes não legam instituições mais fortes, mas estruturas ainda mais frágeis, dependentes de novas figuras excepcionais.
O resultado é um sistema preso à improvisação permanente. Em vez de acumular aprendizado institucional, ele acumula traumas. Em vez de corrigir falhas, repete padrões. Nesse modelo, crises não funcionam como oportunidades de reforma, mas como capítulos previsíveis de uma história que insiste em se repetir.
7. Não são as pessoas, são as regras
Ao insistirem que instituições importam mais do que indivíduos, esses autores não descartam a relevância da liderança. Pelo contrário: eles a reposicionam. Liderar, nesse sentido, não significa agir acima das regras, mas operar dentro delas; não significa concentrar poder, mas saber distribuí-lo; não significa encarnar a vontade coletiva, mas aceitar limites mesmo quando se tem apoio popular. A boa liderança democrática não se mede pela capacidade de impor decisões, mas pela disposição de respeitar processos que sobrevivem à sua passagem.
Esse deslocamento é fundamental porque rompe com a fantasia do governante excepcional. Democracias não se sustentam por virtudes pessoais — honestidade, carisma ou coragem —, mas por arranjos institucionais que funcionam independentemente dessas qualidades. Um sistema democrático maduro não aposta em governantes perfeitos; ele se prepara para governantes falhos. Ele cria mecanismos capazes de conter abusos, corrigir erros e garantir continuidade mesmo quando quem ocupa o poder age de forma irresponsável, incompetente ou autoritária.
Por isso, democracias não precisam de salvadores. Precisam de regras claras, estáveis e aplicadas de maneira impessoal. Precisam de tribunais que funcionem sem medo, de parlamentos que fiscalizem sem submissão e de uma sociedade civil que reconheça que limites não são entraves, mas garantias. Onde tudo depende do “bom caráter” de alguém, o risco não é exceção — é regra.
No fim, a pergunta central muda de lugar. Não se trata mais de perguntar “quem vai nos salvar?”, como se a política fosse uma sucessão de heróis e vilões. A pergunta decisiva passa a ser: quais regras nos protegem quando ninguém salva? Essa mudança de foco talvez frustre expectativas imediatas, reduza o apelo emocional da política e pareça pouco mobilizadora. Ainda assim, ela representa o gesto mais radical da democracia: confiar menos em pessoas e mais em instituições que permitem viver juntos apesar delas.
Referências Bibliográficas:
Steven Levitsky & Daniel Ziblatt — Como as Democracias Morrem
Daron Acemoglu & James A. Robinson — Por Que as Nações Fracassam
André Sampaio
André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).

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