Patriarcalismo e Escravidão no romance Helena
Quando se fala em Machado de Assis, quase sempre ele surge como o grande psicólogo da literatura brasileira. O autor que observa o íntimo dos personagens, disseca almas com ironia e desmonta vaidades humanas com frases aparentemente simples, mas profundamente cortantes. Tudo isso é verdadeiro. Ainda assim, será que essa leitura dá conta do alcance real da obra machadiana? Ou será que, ao insistirmos apenas nesse registro, acabamos empobrecendo aquilo que Machado efetivamente escreveu?
Afinal, o que acontece quando reduzimos Machado a um especialista da subjetividade? O que deixamos de ver quando sua ironia é lida apenas como traço de estilo, e não como estratégia de análise social? E por que tantas leituras insistem em separar psicologia e história, como se os conflitos internos dos personagens não estivessem enraizados nas estruturas de poder do seu tempo?
É justamente aqui que a leitura tradicional começa a falhar.
Ler Machado apenas como um gênio psicológico é perder de vista algo fundamental: Machado de Assis é um dos mais agudos intérpretes da história social brasileira do século XIX. Mais do que observar indivíduos isolados, ele observou sistemas. Mais do que retratar sentimentos universais, examinou como esses sentimentos eram moldados por hierarquias, privilégios e violências muito concretas. Em outras palavras, entendeu como poucos o funcionamento íntimo do poder, da dominação e das desigualdades no Brasil imperial.
Mas por que isso importa?
Importa porque, ao deslocarmos Machado do pedestal abstrato do “escritor universal” e recolocá-lo na história brasileira, algo decisivo acontece: seus romances deixam de ser apenas exercícios de estilo e passam a ser instrumentos de interpretação social. A ironia deixa de ser elegância literária e se revela método crítico. O silêncio deixa de ser vazio e passa a ser denúncia. O detalhe cotidiano se transforma em evidência histórica.
Nesse sentido, ler Helena a partir dessa chave muda tudo.

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Muda, primeiro, a forma como olhamos para o romance. Por que Helena costuma ser tratada como uma obra menor? Apenas porque não apresenta a mesma radicalidade formal de Memórias Póstumas de Brás Cubas? Ou porque, durante muito tempo, não soubemos exatamente o que procurar ali?
Muda, também, a maneira como entendemos os personagens. Helena é apenas uma jovem sensível envolvida em um drama familiar? Ou uma figura construída para tensionar, por dentro, a lógica patriarcal e escravista da sociedade imperial? E Estácio é só um herdeiro ingênuo, ou encarna uma visão de mundo incapaz de se perceber como ideologia?
Além disso, essa leitura transforma nossa percepção do próprio Machado. Em vez de um observador distante da condição humana, surge um autor atento às engrenagens sociais do seu tempo. Um escritor que não precisava denunciar frontalmente porque sabia algo mais eficaz: deixar que o poder se revelasse em seu funcionamento cotidiano.
Talvez, então, a pergunta mais importante não seja “Machado é um grande psicólogo?”, mas outra, mais incômoda: o que sua obra nos obriga a enxergar sobre a formação social brasileira que ainda preferimos não ver? Que continuidades existem entre aquele mundo patriarcal e escravista do século XIX e as desigualdades que ainda estruturam nossa sociedade?
Se essas continuidades existem — e tudo indica que existem —, estamos lendo Machado apenas para admirar sua inteligência? Ou estamos dispostos a aceitar o desconforto que sua literatura produz quando levada a sério como interpretação histórica?
Ler Helena a partir dessa perspectiva não é apenas reler um clássico. É reaprender a olhar para o Brasil — com menos idealização, mais atenção às estruturas e menos conforto diante de um passado que insiste em permanecer.
Um romance no centro do poder
Helena se passa na década de 1850, período conhecido como Tempo Saquarema, quando o Partido Conservador dominava a política imperial brasileira. Trata-se de um momento de forte hegemonia política, cultural e moral, no qual uma elite senhorial conseguiu impor sua visão de mundo como se fosse a própria ordem natural das coisas. A vida social era organizada a partir de três pilares centrais: a família patriarcal, a propriedade privada e a escravidão. Nada disso operava de forma isolada. Pelo contrário, esses elementos se reforçavam mutuamente, produzindo uma sociedade profundamente hierarquizada, em que autoridade, obediência e dependência eram vividas como normas cotidianas.
Para quem não conhece o Partido Saquarema, vale um breve esclarecimento. Os conservadores defendiam a centralização do poder, a manutenção da ordem social existente e a preservação dos privilégios da grande elite agrária. Embora utilizassem o discurso da estabilidade e da legalidade, sua atuação estava profundamente ligada à defesa do regime escravista e do poder dos grandes proprietários. O Estado, nesse contexto, não aparecia como instância de transformação, mas como garantidor da continuidade de uma sociedade baseada na desigualdade. Em outras palavras, o Saquarema não era apenas um partido político, mas a expressão institucional de uma mentalidade senhorial.
No entanto, Machado escreve Helena em 1886, décadas depois dos acontecimentos narrados, já em meio a intensos debates sobre o fim da escravidão, como os que culminaram na Lei do Ventre Livre. Essa distância temporal é decisiva. Ela permite ao autor olhar para aquele passado não com nostalgia, mas com crítica. Assim, o romance passa a operar em duas temporalidades simultâneas: de um lado, o passado narrado, marcado pela naturalização da dominação; de outro, o presente do autor, atravessado por fissuras, questionamentos e disputas em torno daquela mesma ordem social.
É justamente dessa tensão que nasce a força do livro. Machado não reconstrói os anos 1850 para celebrá-los, mas para expô-los. Ao revisitar esse momento histórico, ele revela como a hegemonia conservadora organizava afetos, relações familiares, heranças e expectativas de vida. Por isso, nada em Helena é inocente. Cada gesto, cada silêncio e cada decisão dos personagens carrega a marca de uma estrutura social que se apresenta como natural, mas que já começa a mostrar sinais de esgotamento.
O testamento como tecnologia de poder
Logo no início do romance, tudo gira em torno da leitura do testamento do Conselheiro Vale. Não se trata apenas de um recurso narrativo. O testamento é a manifestação máxima da vontade senhorial: o poder do chefe de família que organiza a vida dos vivos mesmo depois de morto.
Ali se revela uma estrutura clara:
- os herdeiros disputam interesses,
- os agregados vivem sob incerteza,
- os escravizados enfrentam o risco constante de separação, venda ou apagamento de laços.
A família aparece como um microcosmo da ordem social brasileira, onde a vontade do senhor funciona como lei.
Helena não é apenas personagem. É fissura.
É aqui que o romance se torna ainda mais sofisticado. Helena não reproduz passivamente a ideologia senhorial. Ela vive sob ela, mas não pensa como ela.

Machado constrói uma personagem que:
- observa,
- interpreta,
- joga com as regras do sistema.
Helena entende o funcionamento do poder e sabe que, naquele mundo, a frontalidade não é uma opção. Sua crítica não é o confronto direto, mas o deslocamento, a ironia, a simulação.
Ela não nega a hierarquia. Ela a usa para expor seus limites.
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O tempo, a riqueza e a escravidão
Um dos momentos mais reveladores de Helena aparece em um diálogo aparentemente simples sobre riqueza, tempo e liberdade. Estácio, herdeiro confortável, expressa uma visão produtivista típica de sua posição social: a riqueza compra tempo, e o tempo é o bem mais precioso. A ideia soa razoável, mas carrega um pressuposto decisivo — o de que todos vivem o tempo da mesma maneira.
Helena escuta. E desloca.
Ao observar um homem negro caminhando à beira da estrada, ela sugere algo incômodo para a mentalidade da elite: o tempo não é absoluto. Ele depende da experiência, da posição social, da condição de vida. O que para Estácio parece atraso ou desperdício, para aquele homem pode ser uma forma de suportar o cativeiro, talvez até de criar uma brecha mínima de autonomia. Uma “hora de pura liberdade”.
Machado não romantiza a escravidão. Ao contrário, ele a expõe como estrutura brutal, mas se recusa a reduzir o escravizado à condição de objeto. Mesmo sob limites severos, esse homem aparece como sujeito, alguém que age dentro do pouco espaço que lhe é permitido.
Ironia como método histórico
Machado não denuncia. Ele faz a ideologia dominante falar — e tropeçar em si mesma. Estácio é incapaz de relativizar sua visão de mundo. E é justamente por isso que ela se revela frágil, limitada, violenta.
A crítica machadiana não é panfletária. É estrutural. Ela opera mostrando como o poder se naturaliza, como a dominação se traveste de afeto, como a violência se esconde na normalidade.
Ler Machado hoje é um gesto político
Helena não é um romance menor. É um laboratório narrativo onde Machado analisa:
- o patriarcalismo,
- a escravidão,
- a família,
- o poder,
- e as brechas possíveis dentro de uma ordem desigual.
Ler Machado assim é recusar a leitura confortável do “gênio universal” descolado do Brasil. É reconhecer que ele escreveu, com precisão cirúrgica, a história social de um país fundado na desigualdade.
Machado não escreveu romances históricos.
Ele escreveu a história — quando poucos tinham coragem de olhar para ela de frente.
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André Sampaio
André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).
