Introdução
A figura que hoje aparece como mártir: barba longa, expressão serena, corpo sacrificado por uma causa, não existia dessa forma no final do século XVIII. Entre o alferes envolvido em uma conspiração difusa e o símbolo nacional que viria a se consolidar, há um intervalo que não pode ser preenchido apenas pelos acontecimentos.
Há, sobretudo, um trabalho de construção.
Não se trata, portanto, de recuperar quem ele foi, como se isso bastasse para explicar o lugar que ocupa hoje. A questão é outra — e talvez mais incômoda:
em que condições históricas se tornou possível transformar Tiradentes em herói?
E, junto com isso:
o que precisou ser selecionado, reorganizado, ou mesmo apagado, para que essa transformação se sustentasse?
Essas são algumas inquietações que ainda nos aparecem atualmente e, em especial, no dia de hoje, onde se celebra o feriado nacional de Tiradentes.
Para refletir sobre essas inquietações precisamos voltar ao final do século XVIII e olhar para as condições da época.
Um movimento sem forma definida
A Inconfidência Mineira costuma aparecer, em versões mais estabilizadas da história, como um dos primeiros ensaios de ruptura com o domínio português. No entanto, quando observada mais de perto, ela se apresenta menos como um movimento organizado e mais como uma articulação instável, formada por homens inseridos nas estruturas coloniais, atravessados por interesses distintos e por um horizonte político ainda impreciso. Entre referências iluministas, tensões fiscais e redes de sociabilidade discretas, o que se delineia não é exatamente um projeto coeso, mas um campo de possibilidades, no qual a própria ideia de ruptura ainda não havia adquirido forma definitiva.
Não se trata de um movimento popular. Ainda menos, um projeto revolucionário coeso. O que se encontra, ao observar mais de perto, é uma articulação instável, atravessada por interesses diversos, por expectativas nem sempre coincidentes e por um horizonte político que permanece, em muitos aspectos, indefinido.
Os homens envolvidos compartilham certos referenciais: leituras, experiências, inquietações, mas não necessariamente um projeto claro. A circulação de ideias liberais convive com a defesa de privilégios locais; o incômodo com a política fiscal da Coroa não se traduz automaticamente em uma ruptura sistemática com a ordem colonial.
Mais do que um movimento organizado, o que se configura é uma rede.
Uma rede feita de vínculos pessoais, de relações de confiança, de encontros que nem sempre deixam registro formal. Espaços de sociabilidade letrada, alguns deles atravessados por práticas discretas, como aquelas associadas à Maçonaria, desse modo, funcionam menos como centros de decisão do que como ambientes de circulação de ideias sob vigilância.
Nesse contexto, a conspiração não assume a forma de um plano fechado.
Permanece, em grande medida, como possibilidade.
Hierarquias que não desaparecem
Essa indeterminação não elimina as hierarquias.
Pelo contrário, elas se mantêm e estruturam o próprio campo de ação.
Figuras como Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga (conhecidos posteriormente pela poesia do arcadismo) ocupam posições consolidadas dentro da administração colonial. Formados em Coimbra, inseridos nos circuitos letrados e jurídicos, transitam com relativa segurança entre diferentes esferas de poder. Ao lado deles, Alvarenga Peixoto expressa, de forma mais direta, os interesses econômicos locais.
Não se trata apenas de nomes mais conhecidos.
Trata-se de lugares sociais distintos.
É nesse cenário que Joaquim José da Silva Xavier aparece.
Sem formação universitária, com inserção limitada nas redes de prestígio, ocupando um posto militar de baixa hierarquia, Tiradentes não se destaca pela posição que ocupa, mas pela forma como se expõe. Sua atuação não altera a estrutura do grupo, mas interfere na forma como ele se torna visível.
Se há algo que o diferencia, não é centralidade política.
É grau de exposição.
A devassa como produção de verdade
Quando a conspiração é descoberta, o que se inaugura não é apenas um processo de punição, mas um processo de produção de verdade.
A devassa não se limita a investigar. Ela organiza os acontecimentos, estabelece conexões, hierarquiza responsabilidades. Ao fazê-lo, transforma uma articulação difusa em uma narrativa inteligível.
Nesse movimento, certas figuras ganham contornos mais definidos do que outras.
A desigualdade das penas não pode ser compreendida apenas como resultado de relações de poder previamente dadas, embora elas sejam decisivas. Também responde à necessidade de tornar visível aquilo que deve ser lembrado como transgressão.
Tiradentes emerge, nesse contexto, como possibilidade.
Não necessariamente porque tenha sido o principal articulador, mas porque sua posição, sua exposição e sua trajetória permitem que seja reconhecido como figura central no interior da narrativa que a devassa ajuda a produzir.
A execução, em 1792, radicaliza esse processo.
Não apenas encerra uma trajetória individual, mas fixa uma imagem.
O corpo exposto, esquartejado, distribuído, não é apenas punição. É inscrição. Seu corpo vira um meio de comunicação política.
Permanecer ou desaparecer
Se a morte produz fixação, a sobrevivência pode produzir dispersão.
Entre os envolvidos, Tomás Antônio Gonzaga oferece um contraste significativo.
Condenado e enviado ao exílio, Gonzaga não se torna objeto de encenação pública. Sua trajetória não é convertida em espetáculo. Não há corpo a ser exibido, não há imagem a ser reiterada.
Há continuidade.
Mas uma continuidade que não se organiza facilmente em torno de um sentido único.
Diferentemente de Tiradentes, cuja morte permite a fixação de uma imagem e de um sentido relativamente claro, a trajetória de Gonzaga não oferece um ponto de fechamento. O exílio não produz síntese. Ao contrário, abre uma continuidade marcada por deslocamentos, adaptações e silêncios que resistem à transformação em narrativa única.
Esse deslocamento não é apenas biográfico.
É também narrativo.
Uma vida que se estende no tempo, atravessada por mudanças de contexto e de posição, torna-se mais difícil de organizar em torno de um significado estável. Falta-lhe aquilo que a construção de um símbolo frequentemente exige: um gesto final capaz de condensar a experiência e torná-la legível.
O longo silêncio
Durante o período imperial, a Inconfidência Mineira não ocupou um lugar central na memória política.
Isso não significa ausência, mas um tipo específico de presença: restrita, pouco estabilizada, sem capacidade de organizar uma narrativa mais ampla sobre a formação do país. O episódio aparece em registros eruditos, em trabalhos vinculados a instituições como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, mas não é mobilizado como referência estruturante.
Não por acaso.
A narrativa que se consolida ao longo do Império não exige a valorização de uma experiência de ruptura com a Coroa. Ao contrário, a legitimidade do regime passa pela construção de continuidades, pela afirmação de uma transição ordenada, pela centralidade da monarquia como elemento de coesão.
Nesse enquadramento, a Inconfidência tende a ser tratada menos como origem possível e mais como episódio deslocado.
Tiradentes, nesse contexto, não desaparece completamente, tampouco se impõe como figura central. Sua presença é mediada por leituras que o posicionam como personagem secundário, por vezes marcado mais pelo excesso do que pela liderança, inserido em um movimento que ainda não havia sido reorganizado em torno de uma figura dominante.
Permanece, assim, como uma possibilidade narrativa em aberto.
A reorganização republicana
A monarquia brasileira atravessou, naquele momento, um processo de desgaste. A abolição da escravidão, em 1888, rompeu com uma das bases de sustentação do regime; ao mesmo tempo, setores do Exército e das elites políticas passaram a questionar sua legitimidade. Em 1889, a Proclamação da República não apenas encerrou um sistema de governo, como inaugurou um problema.
Como justificar o novo?
Diferentemente da monarquia, que podia se apresentar como continuidade, vinculando-se à tradição portuguesa e à ideia de ordem, a República precisava construir uma narrativa de ruptura. Não bastava existir. Era preciso se explicar.
Nesse contexto, o passado deixa de ser apenas algo a ser preservado e passa a ser algo a ser reorganizado.
Certos episódios ganham destaque. Outros perdem relevância. Personagens são reposicionados. O que antes aparecia como experiência isolada pode, então, ser reinterpretado como antecedente. Como se anunciasse, de forma ainda incompleta, aquilo que só se realizaria plenamente no presente republicano.
O processo seletivo
A seleção de Tiradentes não responde à descoberta de um protagonista negligenciado, mas à possibilidade de articular, a partir de sua trajetória, uma narrativa de ruptura. Sua morte, já inscrita como espetáculo, oferece um ponto de condensação particularmente eficaz.
A operação que se realiza não é simples. Envolve reorganização documental, reinterpretação dos acontecimentos, circulação de novas imagens. Instituições como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro participam desse processo, ainda que de forma não homogênea. A historiografia do século XIX não é monolítica, mas é atravessada por disputas que redefinem o lugar dos personagens.
Ao mesmo tempo, a imagem de Tiradentes começa a ser fixada visualmente. A pintura de Pedro Américo não apenas representa, mas produz uma forma de ver. A aproximação com a iconografia do martírio cristão não é um detalhe estético. É uma operação de sentido.
Nesse processo, a construção simbólica de Tiradentes dialoga diretamente com um repertório profundamente enraizado na sociedade brasileira do período. Em um país de tradição católica, a associação entre sacrifício, redenção e exemplaridade moral oferecia uma gramática já conhecida. Dessa forma, a imagem de um corpo que sofre por uma causa maior, injustamente punido, torna-se imediatamente legível. Ao mesmo tempo, a figura do delator — encarnada em Joaquim Silvério dos Reis — pode ser reorganizada segundo uma lógica igualmente familiar: a da traição. A aproximação implícita com a figura de Judas não precisa ser explicitada para operar. Estrutura a narrativa, distribui papéis morais e facilita a assimilação do episódio em termos que já fazem sentido para o público.

A escola, por sua vez, estabiliza. Transforma a narrativa em conteúdo transmissível, organiza a memória em sequência, reduz a ambiguidade.
O que era possibilidade se torna evidência.
Literatura como desestabilização
Se a narrativa republicana tende à fixação, a literatura pode operar em sentido inverso.
Em Romanceiro da Inconfidência, Cecília Meireles não recompõe a Inconfidência como uma história contínua. A forma do texto recusa linearidade, fragmenta a experiência, distribui a narrativa em múltiplas vozes.
O que emerge não é uma versão alternativa estabilizada, mas a exposição da própria instabilidade.
Nesse espaço, Tomás Antônio Gonzaga não aparece como centro organizador. Sua presença se desloca para o campo do afeto, da perda, daquilo que não se resolve. A relação com Marília, frequentemente evocada, não oferece fechamento, mas intensifica a sensação de interrupção.
A experiência do exílio, nesse caso, não se reduz a deslocamento geográfico.
Ela se torna condição de existência.
Se Tiradentes pode ser fixado como imagem, Gonzaga permanece atravessado por um tipo de indeterminação que resiste à transformação em símbolo.
A literatura, ao invés de corrigir a história, impede que ela se feche.
As condições de um herói
Não se trata, portanto, de identificar em Tiradentes as qualidades que o tornariam, desde sempre, um herói.
A questão se desloca.
Em que condições se torna possível que uma trajetória específica seja reorganizada como símbolo central? Que tipo de operação transforma uma figura situada, marcada por limitações e inserida em uma articulação difusa, em referência estável?
A resposta não se encontra apenas nos acontecimentos de 1789 ou 1792.
Ela se constrói posteriormente.
Na forma como o passado é selecionado, reorganizado, narrado e ensinado.
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Um problema aberto
Tiradentes não precisa ser desfeito para que o problema se coloque.
Mas tampouco pode ser tomado como dado.
Entre a exposição do corpo e a fixação da imagem, entre o silêncio imperial e a reorganização republicana, entre a estabilização escolar e a fragmentação literária, o que se observa não é a revelação de um herói, mas a construção de uma possibilidade.
Uma possibilidade que se torna dominante.
Mas que não esgota as outras.
E talvez seja nesse espaço — entre o que se fixa e o que escapa — que a Inconfidência Mineira continue a produzir questões.
Referências Bibliográficas:
Kenneth Maxwell — A Devassa da Devassa
Cecília Meireles — Romanceiro da Inconfidência
José Murilo de Carvalho — A Formação das Almas: O Imaginário da República no Brasil
André Sampaio
André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).
