Como a Copa ajudou a transformar a mídia mundial

Como a Copa ajudou a transformar a mídia mundial

No meio da tarde, o centro da cidade começava a desacelerar. Motoristas reduziam a velocidade sem motivo aparente. Camelôs interrompiam a venda no meio da frase. Gente saía dos prédios comerciais olhando para frente, tentando descobrir onde a multidão estava se formando. Em frente às lojas de televisão, homens de gravata, balconistas, office boys e funcionários públicos se apertavam na calçada para enxergar uma tela pequena atrás do vidro. Quem chegava atrasado tentava entender o jogo pelo movimento da rua. Quando o barulho crescia de repente, alguns pulavam sem nem saber direito o que tinha acontecido. Era a Copa de 1970. Pela primeira vez, muita gente via um jogo transmitido ao vivo do México em uma televisão colorida.

Não era consumo.
Era acontecimento.

Os aparelhos ainda custavam caro. Em muitos lugares, ver a Copa significava sair de casa e procurar uma loja que tivesse uma TV ligada. Algumas fotografias daquele período mostram ruas comprimidas em volta de telas pequenas, rostos inclinados para cima, gente tentando enxergar entre ombros e postes.

A transmissão vinha do México por satélite.

Hoje essa frase parece banal. Naquele momento, ela carregava outra dimensão. Não era apenas futebol vindo de outro país. Era a sensação de que o planeta começava a caber dentro de uma tela.

A Copa ajudou a acostumar milhões de pessoas à ideia de assistir o mundo em tempo real.

Muito antes das redes sociais, antes do streaming e antes da lógica contínua do “ao vivo”, o torneio já funcionava como um grande exercício de simultaneidade global. Em determinados momentos do século XX, poucas experiências reuniram tanta gente diante da mesma imagem.

A história da Copa passa pelo futebol. Mas também passa pela história dos meios de comunicação.

Quando o futebol era ouvido

Antes da televisão transformar jogadores em rostos planetários, o futebol era voz.

No rádio, a velocidade da narração importava tanto quanto a partida. O narrador não apenas descrevia o jogo. Criava tensão, inventava ritmo, aumentava distâncias, acelerava o tempo. Em muitos casos, a memória da partida ficava mais ligada à narração do que ao lance em si.

Isso teve um peso enorme num país como o Brasil.

Nas décadas de 1930 e 1940, o rádio ainda era uma das poucas experiências realmente compartilhadas em escala nacional. O futebol entrou nessa estrutura cedo. Quando a seleção jogava, cidades diferentes ouviam a mesma voz ao mesmo tempo. O país começava a construir certos rituais coletivos através da transmissão.

Benedict Anderson escreveu que nações são “comunidades imaginadas”. A formulação parece teórica até lembrar o que acontece numa final de Copa transmitida pelo rádio: milhões de pessoas emocionalmente sincronizadas sem jamais terem se encontrado.

Numa final de Copa transmitida nacionalmente, milhões de brasileiros ouviam a mesma voz ao mesmo tempo. O mesmo grito de gol atravessava apartamentos em Copacabana, bares em Recife, casas no interior de Minas e pequenos comércios em cidades que mal apareciam no mapa da televisão brasileira da época. Pessoas que nunca se encontrariam compartilhavam a mesma tensão, o mesmo silêncio antes de um pênalti e a mesma explosão quando a bola entrava.

O futebol ajudou a transformar uma ideia abstrata de país em experiência emocional concreta.

Isso tinha um peso ainda maior num Brasil que continuava profundamente desigual, regionalizado e difícil de integrar fisicamente. Antes da internet, antes da televisão se tornar dominante e antes mesmo da malha aérea conectar o território como hoje, o rádio conseguia produzir uma espécie de sincronização nacional improvável.

Durante noventa minutos, gente separada por milhares de quilômetros reagia no mesmo ritmo.

A televisão mudou o tamanho da Copa

Antes da televisão se popularizar, grande parte da fama de um jogador circulava por relato. Reportagens, fotografias em jornal, transmissões de rádio e histórias repetidas de cidade em cidade ajudavam a construir figuras quase míticas. A televisão alterou essa lógica. Pelé deixou de ser apenas um nome associado a gols e vitórias. Seu rosto, seus movimentos e até a maneira de correr passaram a circular mundialmente em tempo real.

A Copa de 1970 costuma aparecer como marco técnico por ter sido a primeira transmitida globalmente em cores. Mas a mudança mais importante talvez tenha sido outra: o futebol começava a funcionar como imagem internacional contínua.

O replay transformava certos lances em memória permanente. O close aproximava jogadores do público. O enquadramento televisivo produzia personagens globais.

Pelé já era um fenômeno esportivo antes disso. A televisão ajudou a transformá-lo em presença planetária.

Marshall McLuhan dizia que os meios de comunicação reorganizam nossa percepção do mundo. A televisão fez exatamente isso com o futebol. O jogo deixou de ser apenas partida. Virou espetáculo visual internacional.

Publicidade, patrocínio e audiência começaram a operar em outra escala. A Copa passou a interessar não apenas a torcedores, emissoras e grandes marcas. Os governos, já utilizavam as Copas e esportes como propaganda política, puderam levar a uma outra escala.

O futebol ajudou a consolidar uma linguagem televisiva nacional baseada em transmissão ao vivo, emoção coletiva e sensação de pertencimento simultâneo.

A Copa ensinou muita gente a imaginar o mundo

Durante boa parte do século XX, o mundo chegava devagar.

Não porque os países fossem inacessíveis apenas geograficamente, mas porque suas imagens circulavam pouco. Para muita gente, outros continentes existiam mais como descrição do que como experiência visual. A televisão ainda era limitada, viagens internacionais eram raras e boa parte do contato com o exterior vinha por fotografias em revista, mapas escolares, relatos de rádio ou filmes que demoravam meses para chegar aos cinemas brasileiros.

A Copa alterava temporariamente essa distância.

De quatro em quatro anos, rostos, idiomas, estádios, músicas e torcidas de lugares que pareciam abstratos começavam a entrar na sala de casa. Para muita gente, a primeira imagem da Argélia, da Coreia do Sul ou de Camarões veio de uma transmissão esportiva.

Para uma criança brasileira, a primeira imagem da Coreia do Sul podia vir de uma figurinha. A primeira referência sobre Camarões talvez fosse Roger Milla dançando na bandeirinha de escanteio em 1990. Às vezes era um sobrenome impossível de pronunciar aparecendo numa televisão de tubo. Às vezes era um uniforme diferente que ficava anos na memória.

A Copa não apenas mostrava futebol.

Ela ajudava a organizar imaginários sobre os diferentes lugares do planeta.

Leia também: Manchester: da cidade industrial ao futebol global

O futebol entrou na lógica da atenção fragmentada

A internet não diminuiu a Copa. Mas alterou a forma como ela é consumida.

Durante décadas, existia uma experiência relativamente concentrada. Grande parte das pessoas assistia aos mesmos jogos, aos mesmos narradores e aos mesmos programas esportivos. Havia diferenças de interpretação, claro, mas a experiência midiática era mais compartilhada.

Hoje ela é dispersa.

Tem gente que acompanha partidas inteiras. Tem gente que só vê melhores momentos. Outros acompanham reacts, cortes, memes ou debates em tempo real no celular.

O futebol entrou na economia da atenção.

Isso muda até a duração das imagens na memória coletiva. Um gol histórico agora disputa espaço com notificações, vídeos curtos e timelines infinitas. Certos lances explodem rápido e desaparecem na mesma velocidade.

A Copa continua enorme. Mas já não ocupa o espaço quase absoluto que ocupava na era da televisão aberta.

A próxima Copa provavelmente será vivida em pedaços

Parte da Copa de 2026 ainda será assistida ao vivo, diante da televisão, como aconteceu durante décadas. Ao mesmo tempo, outra parte do torneio começará a circular segundos depois do lance acontecer, transformada em corte vertical, react, meme ou compilado de melhores momentos. Em muitos casos, haverá gente acompanhando partidas pelo TikTok antes mesmo do apito final.

Além disso, os próprios jogadores já não funcionam apenas como atletas. Operam também como plataformas permanentes de mídia. O torneio continua depois do jogo: em podcasts, rankings, thumbnails, debates instantâneos e discussões espalhadas por feeds que nunca terminam.

Isso altera não apenas a circulação das imagens, mas a própria experiência do futebol.

Em 1970, multidões se apertavam diante de vitrines para assistir, quase em estado de fascínio, a imagens transmitidas por satélite do México. Meio século depois, a Copa provavelmente será vivida entre notificações, vídeos curtos e telas seguradas na palma da mão.

A questão talvez não seja apenas como a tecnologia mudou a maneira de assistir futebol.

Mas o que acontece com uma experiência coletiva quando ela deixa de ocupar o centro da atenção e passa a disputar espaço dentro de um fluxo infinito de imagens.

Leia também: Antes de 2002 também diziam isso sobre a seleção brasileira

André Sampaio

André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar ao Topo