Nos últimos dias, enquanto escrevia meu projeto de doutorado, percebi que precisava fazer uma pausa. Não da pesquisa, mas da leitura acadêmica. Depois de dias mergulhado entre artigos, livros teóricos e capítulos metodológicos, senti vontade de ler um romance curto, daqueles que conseguimos terminar em um ou dois dias antes de voltar ao trabalho.
Foi nessa procura que encontrei A greve dos mendigos, da escritora senegalesa Aminata Sow Fall, disponível no Kindle Unlimited. A escolha também deu continuidade a um contato recente com a literatura do Senegal, iniciado com O ventre do Atlântico, de Fatou Diome. Embora partam de universos distintos, os dois romances observam com atenção as tensões entre desejo de modernidade, desigualdade e os efeitos do olhar europeu sobre a sociedade senegalesa. Aminata Sow Fall, porém, constrói essa discussão a partir de uma premissa tão simples quanto provocadora.
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No livro, um funcionário do governo decide retirar todos os mendigos das ruas para tornar a cidade mais limpa, organizada e atraente ao turismo. Como todo historiador, basta alguém anunciar um projeto de “embelezamento” da cidade para que o conjunto de reformas europeias no século XIX e a Reforma Pereira Passos venha imediatamente à cabeça. A medida parece um sucesso, até que acontece o inesperado: os mendigos simplesmente desaparecem e se recusam a voltar. Em outras palavras, entram em greve.
Terminei a leitura imaginando que escreveria uma resenha. Mas logo percebi que o romance oferece algo mais interessante. A greve dos mendigos é apenas o ponto de partida para discutir questões que continuam presentes em muitas cidades: a diferença entre combater a pobreza e esconder os pobres, a dependência silenciosa que temos daqueles que costumamos ignorar e os significados sociais e culturais que são atribuídos à caridade. É sobre essas três ideias que gostaria de conversar!
1. Esconder os pobres não é o mesmo que combater a pobreza
O que realmente incomoda?
Há uma pergunta que atravessa todo o romance de Aminata Sow Fall, embora nunca seja formulada de maneira explícita: o que exatamente incomoda as autoridades? A pobreza ou a presença dos pobres?
A distinção parece sutil, mas muda completamente a forma como entendemos a atuação do Estado. Combater a pobreza significa enfrentar suas causas por meio de políticas públicas, ampliação de oportunidades, acesso à educação, saúde, trabalho e moradia. Esconder os pobres, por outro lado, exige muito menos. Basta retirá-los do campo de visão. O problema deixa de ser social para se tornar visual.
É essa lógica que orienta as primeiras decisões de Mour Ndiaye. Sua preocupação não está nas condições de vida dos mendigos, mas na imagem que sua presença projeta sobre a cidade. Nesse sentido, não representam um obstáculo ao funcionamento urbano, mas à aparência de ordem e modernidade que pretende construir.
A grande sacada de Aminata Sow Fall está em mostrar que essa decisão pode, à primeira vista, parecer perfeitamente razoável. Afinal, quem seria contra uma cidade mais limpa, organizada e atraente? O romance nos obriga a perceber que, muitas vezes, discursos sobre modernização escondem perguntas muito mais incômodas: quem tem o direito de ocupar o espaço público? Quem decide quais corpos pertencem à paisagem urbana? O que uma cidade está realmente tentando transformar: a realidade ou a imagem que projeta de si mesma?
Uma velha história das cidades
A proposta de Mour Ndiaye insere-se em uma tradição bastante conhecida da história urbana. Entre o final do século XIX e o início do XX, diversas cidades passaram por grandes projetos de remodelação inspirados em ideais de higiene, circulação e modernidade. Paris, sob a direção do barão de Haussmann, tornou-se o caso paradigmático. No Brasil, a Reforma Pereira Passos representou uma das expressões mais emblemáticas desse movimento.
Abertura de grandes avenidas, demolição de cortiços e remodelação do centro da cidade buscavam aproximar a então capital federal dos padrões das grandes metrópoles europeias. O resultado foi uma cidade visualmente renovada, mas construída à custa da expulsão de milhares de trabalhadores pobres para regiões periféricas e morros próximos.
Evidentemente, Aminata Sow Fall não está escrevendo sobre o Rio de Janeiro. Seu romance nasce de outro tempo e de outro contexto histórico. Ainda assim, a comparação revela uma permanência curiosa. Em diferentes lugares do mundo, projetos de modernização frequentemente caminharam lado a lado com tentativas de reorganizar quem pode permanecer visível nos espaços mais valorizados da cidade.
Modernizar, nesse sentido, não significava apenas construir avenidas, praças ou edifícios. Também se preocupava em decidir quem poderia fazer parte dessa nova paisagem.
Quando a desigualdade precisa desaparecer
Mais de quatro décadas depois de sua publicação, A greve dos mendigos continua dialogando com questões profundamente contemporâneas. A ideia de tornar determinadas populações invisíveis não pertence apenas ao Senegal da década de 1970 nem ao Rio de Janeiro da Belle Époque. Reaparece sempre que a presença da pobreza é tratada como um problema maior do que a própria pobreza.
Não são raros os casos em que grandes eventos, projetos de revitalização urbana ou políticas de ordenamento dos espaços públicos vêm acompanhados de medidas voltadas a retirar moradores de rua, ambulantes ou outros grupos considerados incompatíveis com a imagem que determinada cidade deseja construir. Muda o contexto, mudam as justificativas, mas permanece uma lógica semelhante: acredita-se que, ao desaparecer da paisagem, o problema também desapareça da realidade.
É exatamente essa ilusão que Aminata Sow Fall desmonta. Mour Ndiaye acredita ter encontrado uma solução simples para um problema complexo e confia a Kéba Daboye a tarefa de executá-la. Seu subordinado conduz a retirada dos mendigos com zelo e dureza, tratando a operação como uma questão de ordem e disciplina urbana. Expulsos dos lugares que ocupavam, eles deixam as ruas e, por um breve instante, tudo parece indicar que o plano funcionou.
Mas o romance está apenas começando. É quando os mendigos desaparecem que a cidade descobre o quanto era depende de sua presença.
2. A cidade depende daqueles que tenta apagar
A greve mais improvável da literatura
Quando os mendigos desaparecem das ruas, Mour Ndiaye acredita finalmente ter alcançado seu objetivo. A cidade está mais limpa, mais organizada e, ao menos na aparência, mais próxima do ideal de modernidade que pretendia construir. Tudo indica que o plano foi um sucesso.
É justamente nesse momento que Aminata Sow Fall realiza a grande inversão do romance.
Os mendigos não apenas desapareceram. Eles decidiram não voltar. Em uma ironia brilhante, entram em greve.
A ideia parece absurda à primeira vista. Estamos acostumados a associar a greve ao trabalho formal, à interrupção de uma atividade produtiva para reivindicar direitos. Como imaginar uma greve de pessoas que, aparentemente, nada produzem?
É aí que o romance desmonta uma de nossas certezas mais arraigadas. Talvez tenhamos entendido errado o lugar ocupado pelos mendigos na cidade. Se sua ausência provoca tamanho desconforto, é porque sua presença exercia uma função que quase ninguém havia percebido.
A greve deixa de ser apenas um recurso narrativo engenhoso. Se transforma em um experimento social. A autora retira um grupo considerado marginal da paisagem urbana para revelar tudo aquilo que permanecia invisível enquanto ele ainda estava ali.
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Só percebemos certas presenças quando elas desaparecem
Existe uma velha tendência humana de naturalizar aquilo que vemos todos os dias. Pessoas, profissões e atividades passam a fazer parte da paisagem até o momento em que deixam de existir. Só então compreendemos o papel que desempenhavam.
Cabe lembrar o que aconteceu durante a pandemia de Covid-19. Bastaram algumas semanas para que profissões frequentemente invisibilizadas passassem a ocupar o centro das atenções. Entregadores, profissionais da limpeza, trabalhadores da saúde, funcionários de supermercados e tantos outros revelaram o quanto o cotidiano dependia de atividades que raramente recebiam reconhecimento público.
Aminata Sow Fall antecipou essa lógica décadas antes.
Enquanto permaneciam nas ruas, os mendigos eram percebidos apenas como um incômodo. Sua presença parecia confirmar o fracasso do Estado e comprometer a imagem da cidade. Quando desaparecem, porém, deixam um vazio inesperado. Ocupavam um lugar dentro da vida cotidiana que ninguém havia se dado ao trabalho de compreender.
Essa talvez seja uma das críticas mais sofisticadas do romance. A invisibilidade nunca significou ausência de importância. Significou apenas que a sociedade havia deixado de enxergar aquilo de que dependia.
Uma cidade é feita de relações
Costumamos imaginar a cidade como um conjunto de edifícios, avenidas, monumentos e equipamentos públicos. Mas cidades não são apenas espaços físicos. São, sobretudo, redes de relações.
Ao remover os mendigos das ruas, Mour Ndiaye acredita estar retirando apenas um elemento indesejado da paisagem. O que Aminata Sow Fall demonstra é que ele rompe uma trama muito mais complexa de interações sociais.
Os mendigos conversavam com comerciantes, eram conhecidos por moradores, ocupavam determinados lugares, faziam parte da rotina das pessoas e, sobretudo, sustentavam práticas que pareciam independentes de sua existência. Sua presença organizava hábitos, expectativas e formas de convivência que só se tornam evidentes quando deixam de existir.
Essa percepção aproxima o romance de uma ideia bastante conhecida na sociologia: nenhuma sociedade é composta por indivíduos completamente isolados. Mesmo relações marcadas pela desigualdade produzem formas de interdependência. Não significa que todos ocupem posições equivalentes ou que essas relações sejam justas. Significa apenas que o funcionamento da vida coletiva depende de vínculos que nem sempre conseguimos enxergar.
Essa descoberta acaba por preparar o terreno para o movimento seguinte do romance. Afinal, se a cidade dependia dos mendigos mais do que imaginava, resta compreender de que maneira essa dependência se manifestava. A resposta de Aminata Sow Fall passa por um tema ainda mais provocador: a caridade.
3. A economia moral da caridade
Quem ajuda também recebe
Se até aqui Aminata Sow Fall nos mostrou que a cidade dependia dos mendigos mais do que imaginava, o romance reserva uma inversão ainda mais interessante. Afinal, em que consistia essa dependência?
A resposta está na caridade.
Ao longo da narrativa, fica evidente que os mendigos não são apenas destinatários de esmolas. Também tornam possível que outras pessoas exerçam um papel social e religioso profundamente valorizado. Dar não significa apenas transferir dinheiro ou alimento. Significa cumprir um dever, demonstrar virtude, reafirmar uma identidade diante da comunidade.
É difícil não lembrar de Ensaio sobre a Dádiva, publicado por Marcel Mauss em 1925. Ao estudar diferentes sociedades, o antropólogo francês demonstrou que nenhuma dádiva é completamente gratuita. Todo ato de dar cria vínculos, produz expectativas e estabelece alguma forma de reciprocidade, ainda que ela não se manifeste como uma troca material imediata. Quem oferece algo também recebe: reconhecimento, pertencimento, prestígio ou simplesmente a sensação de ter cumprido uma obrigação moral.
Aminata Sow Fall parece levar essa reflexão um passo adiante. Os mendigos dependem da caridade para sobreviver, mas a própria caridade também depende da existência dos mendigos. Sem alguém para receber, o gesto de doar perde parte de seu significado.
Essa percepção aproxima o romance de outra reflexão clássica das ciências sociais. No ensaio O Pobre, Georg Simmel argumenta que a pobreza não se define apenas pela escassez de recursos, mas pela relação social que se estabelece em torno da assistência. O pobre não é apenas aquele que possui pouco; é aquele que ocupa uma posição específica dentro das relações de ajuda construídas por uma comunidade. É essa posição que Sow Fall torna visível. Seus mendigos não aparecem apenas como indivíduos vulneráveis, mas como parte de uma rede de obrigações, expectativas e práticas sociais que organiza a própria vida da cidade.
A ausência que produz desconforto
À primeira vista, seria natural imaginar que o desaparecimento dos mendigos fosse recebido com alívio. A cidade estaria mais limpa, os passeios mais agradáveis e as ruas mais organizadas. No entanto, acontece justamente o contrário: personagens que antes evitavam os mendigos passam a procurá-los com urgência.
Para compreender essa reação, é preciso considerar o lugar da religião na sociedade retratada pela autora. O Senegal é um país de maioria muçulmana, cuja vida religiosa e social é profundamente marcada pelas confrarias sufis. Nesse contexto, a caridade não se limita a um gesto espontâneo de generosidade. Ela também integra as obrigações e práticas cotidianas da fé. A zakat corresponde à esmola obrigatória, enquanto a sadaqa designa formas voluntárias de doação. Ambas expressam a responsabilidade do fiel diante da comunidade e de Deus.
É por isso que a ausência dos mendigos produz tamanho desconforto. Muitos personagens precisam encontrá-los para cumprir uma promessa, agradecer uma graça alcançada, buscar uma bênção, a baraka, ou realizar uma doação prescrita por uma orientação religiosa. Dar esmolas não representa apenas ajudar alguém em necessidade. Também significa cumprir um dever espiritual e preservar uma determinada relação com o sagrado.
Os personagens, portanto, não procuram os mendigos porque desenvolveram repentinamente um compromisso com a justiça social. Procuram-nos porque sua ausência interrompe práticas religiosas das quais dependem. Sem alguém que receba a esmola, a obrigação não pode ser cumprida; sem o destinatário da dádiva, perde-se também a possibilidade de alcançar os efeitos espirituais esperados.
O romance revela, assim, uma contradição desconfortável. Durante boa parte da narrativa, os mendigos são tratados como um problema urbano, incompatível com a imagem de uma cidade moderna. Quando desaparecem, tornam-se indispensáveis para a manutenção de práticas religiosas, vínculos comunitários e formas de reconhecimento moral.
A cidade queria afastá-los de sua paisagem, mas descobre que eles ocupavam um lugar central em sua vida espiritual.
Muito além dos mendigos
Quando terminei a leitura, imaginei que escreveria um texto sobre pobreza urbana. Percebi, entretanto, que o romance era muito mais ambicioso.
Fala sobre a forma como construímos nossas cidades, sobre quem pode ocupar os espaços públicos e sobre a facilidade com que confundimos aparência com transformação. Mas também fala sobre interdependência, sobre religião, sobre solidariedade, sobre burocracia, sobre modernização e sobre o modo como diferentes grupos disputam o direito de existir diante do olhar coletivo.
Acredito que essa seja justamente a força da boa literatura. Um romance de pouco mais de cem páginas consegue levantar perguntas que atravessam décadas e continuam surpreendentemente atuais.
Ao fechar o livro, fiquei com a impressão de que a autora nunca esteve realmente interessada em explicar os mendigos. Eles são apenas a lente através da qual observamos a cidade. E, como acontece com toda boa lente, terminamos enxergando muito mais do que imaginávamos quando começamos a olhar.
Há livros que se encerram na última página. Outros permanecem conosco porque continuam fazendo perguntas muito tempo depois da leitura. A greve dos mendigos claramente pertence ao segundo grupo.
Ao longo destas três partes, escolhi conversar sobre apenas três caminhos possíveis: a tentativa de esconder a pobreza em vez de enfrentá-la, as relações de dependência que estruturam silenciosamente a vida urbana e a complexa economia moral da caridade. O romance, entretanto, oferece muito mais. Nele caberia uma discussão sobre as heranças do colonialismo, a formação das elites africanas no período pós-independência, as tensões entre tradição e modernidade, o papel da religião na organização da vida pública, a burocracia estatal, o turismo como projeto político, a produção da imagem das cidades e até mesmo a maneira como definimos quem merece ser visto e quem pode ser esquecido.
Para um livro tão curto, é um feito notável.
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André Sampaio
André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).
