Neoliberalismo depois do Neoliberalismo

Em períodos eleitorais, a política costuma ser reduzida a slogans, disputas de identidade e explicações rápidas para problemas complexos. Termos como “esquerda”, “direita”, “liberal”, “conservador”, “comunista” ou “neoliberal” aparecem diariamente no debate público, muitas vezes como acusações ou rótulos, mas raramente como conceitos históricos capazes de explicar as transformações da sociedade.

Com a aproximação das eleições de 2026, compreender essas categorias se torna mais do que um exercício teórico. É uma forma de escapar de um debate político baseado apenas em impressões, ressentimentos e discursos prontos. Antes de concordar ou discordar de projetos políticos, é preciso compreender de onde eles vêm, quais ideias os sustentam e como diferentes tradições históricas se combinaram para formar o cenário atual.

Uma das transformações mais importantes da política contemporânea foi a emergência de uma nova direita, capaz de reunir elementos que durante muito tempo pareciam pertencer a campos distintos: defesa do mercado e crítica ao Estado, valorização da liberdade individual e defesa de valores tradicionais, discurso contra elites políticas e reivindicação de autoridade e ordem.

Como entender essa combinação?

É essa uma das perguntas centrais do livro Nas ruínas do neoliberalismo, da filósofa Wendy Brown. Sua análise ajuda a compreender que o neoliberalismo não é apenas uma doutrina econômica baseada em privatizações e redução do Estado, mas uma racionalidade política que transforma a maneira como pensamos a sociedade, os indivíduos e a própria democracia. Se você se interessa por esse tema, vou deixar abaixo o link do livro. Vou deixar as versões em inglês e espanhol, porque em português o livro está esgotado =(!

Wendy Brown: In the Ruins of Neoliberalism: The Rise of Antidemocratic Politics in the West.

Wendy Brown: En las ruinas del neoliberalismo: El ascenso de las políticas antidemocráticas en Occidente

O indivíduo como empresa de si mesmo

A transformação neoliberal não ocorreu apenas no campo econômico. Seu efeito mais profundo está na maneira como modificou e modifica a compreensão do próprio indivíduo.

Para Wendy Brown, o neoliberalismo produz uma nova forma de subjetividade: a sociedade passa a compreender o indivíduo como capital humano, uma espécie de empreendimento permanente que administra suas próprias capacidades, escolhas e riscos.

Desse modo, uma linguagem econômica interpreta a vida. O sujeito avalia a educação, a carreira, as relações profissionais e até os projetos pessoais em termos de investimento, retorno e valorização.

Essa transformação altera uma ideia fundamental da modernidade democrática: a compreensão do indivíduo como cidadão.

O cidadão integra uma comunidade política, porta direitos e participa da construção de decisões coletivas. O modelo neoliberal, por outro lado, incentiva o sujeito a se perceber como gestor de seu próprio desempenho em um ambiente de competição permanente.

A crítica central não reside na autonomia do indivíduo, mas na sua instrumentalização ideológica. O modelo neoliberal opera uma transposição: ele privatiza as contradições estruturais (como desemprego e precarização) e as lê como insuficiências subjetivas. O sistema despolitiza a esfera pública ao substituir o vocabulário dos direitos e da justiça social pela gramática tecnocrática da eficiência e do gerenciamento de si.

Nesse movimento, o discurso frequentemente transforma dificuldades coletivas em fracassos individuais.

O debate público pode mostrar o desemprego como falta de qualificação; a precarização do trabalho como incapacidade de adaptação; a desigualdade como resultado das diferentes escolhas e competências dos indivíduos.

O neoliberalismo não elimina a política. Ele reorganiza sua linguagem. O sistema traduz conflitos sociais em termos de gestão, eficiência e desempenho.

A erosão do social e a despolitização da vida

Ao analisar as transformações contemporâneas, a obra de Wendy Brown destaca um fenômeno crucial: o processo que a autora define como a erosão do social.

A autora recupera uma preocupação presente em intelectuais como Hannah Arendt: a democracia exige um espaço comum, onde indivíduos diferentes reconhecem problemas compartilhados e constroem respostas coletivas.

O neoliberalismo enfraquece essa dimensão quando transforma a sociedade em uma mera coleção de indivíduos e interesses particulares.

Quando a lógica da competição assume o papel de principal princípio organizador da vida, o debate público já não enxerga a desigualdade como uma questão política; a sociedade passa a interpretá-la como o resultado natural das diferenças entre os indivíduos. Essa dinâmica provoca, consequentemente, a despolitização dos conflitos.

O debate público deixa de disputar certas questões no campo da política e o sistema passa a tratá-las como problemas técnicos ou administrativos. A sociedade já não faz a pergunta “que sociedade queremos construir?”, mas adota o questionamento “qual solução é mais eficiente?”.

Essa mudança parece neutra, mas carrega consequências profundas. Toda decisão sobre distribuição de recursos, prioridades públicas e organização social envolve escolhas políticas. Ao apresentar determinadas decisões como meramente técnicas, o neoliberalismo reduz o espaço do debate democrático.

O senso comum passa a ver a política como um obstáculo à eficiência, enquanto o mercado surge como o mecanismo capaz de organizar melhor a vida social.

Para Brown, esse processo impulsiona a desdemocratização: o sistema não elimina necessariamente as instituições democráticas, mas enfraquece os valores e as práticas que sustentam a própria democracia.

A democracia contra a lógica neoliberal

A democracia moderna se sustenta na tensão permanente entre liberdade e igualdade. Enquanto a liberdade protege o indivíduo contra o poder arbitrário, a igualdade garante que as disparidades econômicas e sociais não barrem a participação política. Os povos nunca conciliaram plenamente esses dois valores; pelo contrário, a própria história democrática reflete a disputa constante para equilibrá-los.

A racionalidade neoliberal, contudo, altera essa dinâmica ao projetar a igualdade como uma ameaça direta à liberdade. Como aponta Brown, o neoliberalismo opera como uma forma de governar que vai além da economia: estende a métrica do mercado para todas as esferas da vida humana, transformando o próprio Estado e o sujeito político.

Sob essa ótica, o mercado reconfigura a percepção das engrenagens sociais por meio de três inversões conceituais:

  • A redistribuição como coerção: Políticas de justiça fiscal e transferência de renda deixam de ser ferramentas de equidade e passam a ser vistas como confisco estatal e interferência na autonomia individual.
  • A regulação como barreira: Leis trabalhistas, ambientais e sanitárias perdem o status de salvaguardas coletivas para se tornarem meros obstáculos burocráticos à livre iniciativa e à eficiência econômica.
  • O direito como privilégio: A saúde, a educação e a previdência deixam de ser garantias universais de cidadania e passam a ser interpretadas como privilégios concedidos pelo Estado, que distorcem a competição natural do mercado.

O neoliberalismo, assim, reduz a liberdade à mera capacidade de escolha do consumidor. O grande problema repousa nessa ilusão: o sistema expande formalmente as opções individuais enquanto esvazia a capacidade coletiva de decidir os rumos da sociedade. Ocorre uma desdemocratização silenciosa. O indivíduo ganha poder de compra, mas perde poder político.

Afinal, a democracia exige mais do que indivíduos livres no mercado; demanda cidadãos ativos na construção de um mundo comum. Quando convertemos a sociedade em uma arena de sujeitos isolados que competem entre si, asfixiamos a própria ideia de política coletiva. Sem o espaço público para a deliberação, a soberania popular desaparece, restando apenas a gestão tecnocrática de indivíduos em concorrência.

O encontro entre neoliberalismo e conservadorismo

A grande contribuição de Wendy Brown reside em provar que a nova direita vai muito além da mera defesa do livre mercado. Ela não resulta de uma ideologia única, mas da fusão estratégica entre duas correntes com raízes históricas totalmente distintas: o neoliberalismo e o conservadorismo.

Enquanto o neoliberalismo articula suas forças em torno da competição global, da propriedade privada e do desmantelamento de políticas igualitárias, o conservadorismo canaliza sua energia na preservação da tradição, da autoridade patriarcal, da família nuclear e da ordem religiosa. Embora partam de premissas diferentes, essas duas tradições firmam uma aliança política poderosa ao elegerem um inimigo comum: os projetos de justiça social que tentam transformar as estruturas da sociedade.

Para aprofundar a tese de Brown, essa coalizão opera por meio de mecanismos específicos que fundem a racionalidade econômica à reação cultural:

  • Convergência Antigualitária: Os neoliberais enxergam as políticas de inclusão e redistribuição como ameaças à liberdade de mercado e à meritocracia. Já os conservadores interpretam essas mesmas pautas como um ataque frontal às hierarquias naturais e às formas tradicionais de autoridade.
  • A Família como Substituta do Estado: O desmonte dos direitos sociais promovido pelo neoliberalismo joga o peso do bem-estar social (saúde, cuidado com idosos, educação) de volta para a estrutura familiar. O conservadorismo assume o papel de blindar essa família tradicional, tornando-a a única rede de segurança disponível em um mundo sem o amparo do Estado.
  • A Moralização do Sucesso: A lógica de mercado coloniza a moralidade. Essa dinâmica converte o sucesso financeiro em virtude moral e retidão familiar, enquanto estigmatiza a pobreza e a vulnerabilidade social como falhas de caráter, preguiça ou desvio de conduta.

Essa simbiose gera o que Brown conceitua como o núcleo da nova direita: o nascimento de uma racionalidade neoconservadora. A aliança, desse modo, não costura apenas interesses econômicos e pautas de costumes; ela engendra uma narrativa populista poderosa. Sob essa ótica, o mercado desregulado, a moralidade tradicional e a identidade nacional fundem-se em uma única ordem social sagrada que, supostamente, corre o risco de destruição iminente pelas forças progressistas.

A liberdade como arma contra a igualdade

O conceito de liberdade ocupa o epicentro da análise de Wendy Brown. A autora argumenta que a nova direita jamais abandonou a linguagem da liberdade; pelo contrário, ela capturou e ressignificou o termo. Durante grande parte da tradição democrática, pensadores e movimentos sociais compreendiam a liberdade e a igualdade como valores interdependentes. A sociedade via a ampliação da justiça social como uma condição indispensável para que os cidadãos participassem, de fato, da vida política.

A racionalidade neoliberal, contudo, estraçalha esse vínculo e promove um deslocamento profundo na gramática política. O discurso de mercado passa a projetar a igualdade não como uma aliada, mas como uma forma de coerção estatal. Sob essa ótica, as forças de direita rotulam os movimentos por direitos sociais, as políticas de redistribuição e as ações afirmativas como ameaças diretas à autonomia individual e ao mérito.

Essa mutação conceitual altera radicalmente o próprio campo do conflito político, deslocando o debate da esfera econômica para a arena moral. A disputa já não orbita a distribuição justa de recursos, mas se transforma em um embate maniqueísta sobre quem defende a liberdade e quem tenta restringi-la através do Estado. Nesse processo, a nova direita sequestra a linguagem da emancipação coletiva e a transforma em um escudo retórico para blindar privilégios, proteger as hierarquias sociais existentes e desautorizar qualquer demanda por justiça social.

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Das ruínas do neoliberalismo à nova direita

O título do livro expõe uma ferida central: o neoliberalismo deixa ruínas. Ao longo de décadas, a expansão implacável da lógica de mercado fraturou a estrutura social, aprofundando a insegurança econômica, precarizando as relações trabalhistas, esvaziando os sindicatos e disparando os índices de desigualdade. Essas transformações profundas não evaporam quando o modelo econômico entra em colapso. Ao contrário, as populações continuam a vivenciar essas sequelas cotidianamente sob a forma de uma crônica frustração e sentimento de perda.

A nova direita transforma esse terreno devastado em seu principal berço político. Ela captura as inseguranças materiais e canaliza o descontentamento econômico para a arena cultural e identitária, oferecendo bodes expiatórios fáceis para uma população desamparada. Nesse movimento, o discurso conservador vincula a sensação generalizada de perda à narrativa de uma suposta decadência nacional, enquanto aponta as mudanças sociais progressistas como ameaças destrutivas à tradição familiar e religiosa. Ao eleger minorias e grupos específicos como os grandes culpados pelas mazelas da sociedade, essa força política converte o ressentimento em um poderoso combustível eleitoral.

Portanto, a nova direita não opera como mera continuidade mecânica do neoliberalismo. Brota diretamente das contradições e dos escombros que o próprio mercado gerou, sintetizando uma amálgama ideológica agressiva: a blindagem do livre mercado, o ataque feroz às elites institucionais, o moralismo conservador, o nacionalismo xenófobo e a rejeição categórica a qualquer projeto de igualdade social.

O neoliberalismo explica tudo?

A complexidade da política contemporânea exige a recusa de fórmulas simplistas. Embora decodifique o cenário atual, o neoliberalismo não explica sozinho o extremismo de direita ou as guerras culturais.

A política atual resulta do choque entre múltiplos vetores, como economia, identidade, religião, tecnologia, redes de comunicação e a própria memória histórica. No cenário nacional, por exemplo, o neoliberalismo também não esgota a complexidade do bolsonarismo. Esse fenômeno arrasta elementos diversos: o antipetismo, o colapso da Nova República, o militarismo, o conservadorismo evangélico e a retórica do confronto permanente.

Compreender o presente exige superar o reducionismo econômico e a mera explicação cultural. Afinal, disputas multifacetadas moldam a política hoje, articulando diferentes tradições históricas e ressentimentos sociais profundos.

A análise de Wendy Brown ganha relevância justamente ao expor uma dessas mutações fundamentais. A racionalidade neoliberal captura a linguagem da liberdade, desidrata seu potencial democrático e a transforma em arma contra a igualdade social.

Compreender a política para além das disputas imediatas

A obra Nas ruínas do neoliberalismo evita fórmulas prontas para explicar a política contemporânea. O livro demonstra que os conflitos do presente carregam uma história profunda, na qual diferentes projetos de sociedade disputam conceitos aparentemente naturais, como liberdade, mercado, igualdade e democracia.

Em períodos eleitorais, decodificar essas disputas ajuda o leitor a escapar de uma política reduzida a slogans e identidades fixas. O debate maduro exige compreender as tradições que formaram as posições políticas, as transformações que elas sofreram e as novas combinações que geraram, antes de simplesmente carimbar rótulos.

Embora esquerda e direita continuem categorias fundamentais para interpretar o cenário político, seus significados mudam conforme os conflitos sociais avançam. O dinamismo da história impede que esses conceitos permaneçam imóveis.

A pergunta mais importante para o século XXI ultrapassa a mera identificação de quem ocupa cada lado do espectro. O desafio central consiste em compreender quais ideias de liberdade, igualdade e democracia se chocam quando diferentes projetos afirmam representar o futuro.

André Sampaio

André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).

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