A possível venda do Los Angeles Lakers por US$ 12,5 bilhões parece, à primeira vista, um daqueles números que revelam uma distorção do capitalismo contemporâneo. Uma equipe esportiva alcançando o valor de grandes empresas globais parece desafiar a lógica tradicional: afinal, o que exatamente está sendo comprado quando alguém desembolsa dezenas de bilhões de dólares por uma franquia de basquete?
A resposta está menos na quadra e mais naquilo que se construiu ao redor dela. O Lakers não é apenas uma equipe participante da NBA. Ao longo de décadas, a franquia acumulou uma combinação rara de títulos, jogadores históricos, influência cultural, presença midiática e identificação emocional com milhões de pessoas espalhadas pelo mundo. O valor econômico da equipe nasce desse patrimônio simbólico acumulado.
Essa transformação revela uma característica central do capitalismo atual: a capacidade de converter elementos culturais em ativos financeiros. Histórias, símbolos, memórias e identidades passaram a integrar o cálculo econômico. Uma franquia esportiva vale bilhões porque conseguiu transformar uma experiência coletiva em uma marca global.
Quando o esporte se transforma em espetáculo
A NBA não se tornou uma das ligas esportivas mais valiosas do mundo apenas porque produziu grandes jogadores. Sua expansão está ligada à construção de uma narrativa capaz de ultrapassar o resultado dos jogos.
A partir da década de 1980, a liga passou por uma transformação profunda. A rivalidade entre Los Angeles Lakers e Boston Celtics colocou o basquete em um novo patamar de exposição nacional nos Estados Unidos, aproximando o esporte da televisão e da indústria do entretenimento. Magic Johnson e Larry Bird deixaram de ser apenas atletas competindo por títulos; tornaram-se personagens de uma narrativa maior sobre estilos, cidades e identidades.
Esse processo dialoga com a reflexão de Guy Debord em A Sociedade do Espetáculo. Para o pensador francês, as sociedades modernas passaram a organizar parte das relações sociais por meio das imagens e das representações. O espetáculo não significa simplesmente entretenimento superficial, mas uma forma de mediação pela qual experiências passam a ser consumidas e compartilhadas.
A NBA compreendeu essa lógica. Uma partida de basquete passou a ser também uma experiência narrativa. Os jogadores ganharam histórias próprias, as franquias construíram identidades e cada temporada passou a funcionar como um novo capítulo de uma história contínua.
O nascimento da marca Lakers
O caso do Los Angeles Lakers é particularmente interessante porque a franquia construiu sua força associando esporte e cultura popular.
Durante a gestão de Jerry Buss, iniciada em 1979, o Lakers aproximou o basquete do universo de Hollywood. Celebridades passaram a frequentar a arena, o ambiente dos jogos ganhou uma estética própria e a equipe passou a representar algo maior do que uma cidade ou uma modalidade esportiva.
A chamada “Showtime Era”, marcada pela presença de Magic Johnson e Kareem Abdul-Jabbar, ajudou a consolidar essa identidade. O Lakers passou a ser associado ao espetáculo, ao glamour e à ideia de sucesso característica de Los Angeles.
Essa estratégia se aproxima da análise feita por Naomi Klein em Sem Logo, livro em que a autora argumenta que grandes marcas passaram a concentrar menos energia na produção de objetos e mais na construção de significados. O produto continua existindo, mas seu valor cresce quando ele consegue representar uma experiência, um estilo de vida ou uma comunidade.
É nesse ponto que uma camisa do Lakers deixa de ser apenas uma peça esportiva. Ela passa a carregar uma história. Quem veste aquela camisa não está apenas demonstrando preferência por uma equipe; está se conectando a uma narrativa construída por décadas.
O capital simbólico de uma franquia
Parte da dificuldade em compreender o valor dessas equipes está no fato de que uma grande parcela desse patrimônio não aparece imediatamente nos balanços financeiros. Afinal, parte significativa do valor de uma franquia esportiva pertence ao campo dos símbolos, das memórias e das relações construídas ao longo do tempo.
Mas como medir aquilo que não se apresenta diretamente em números? Como calcular o valor cultural de Kobe Bryant para o Lakers? Como transformar em cifras a relação construída entre uma franquia e seus torcedores ao longo de gerações?
É justamente para compreender esse tipo de fenômeno que o sociólogo Pierre Bourdieu desenvolveu o conceito de capital simbólico. Para o autor, determinados bens e instituições acumulam prestígio, reconhecimento e legitimidade social, elementos que também produzem formas de poder. Nem todo poder aparece diretamente como riqueza econômica; muitas vezes, ele está relacionado à capacidade de uma instituição representar algo para um grupo.
Nesse sentido, as grandes franquias esportivas acumulam uma forma particular de capital simbólico. Os títulos ampliam sua reputação. Os grandes atletas fortalecem sua influência. A relação com uma cidade consolida sua identidade. Com o passar das décadas, essa história acumulada transforma-se em uma vantagem econômica difícil de ser reproduzida por novos concorrentes.
Uma equipe recém-criada pode contratar grandes jogadores e construir uma boa estrutura, mas não consegue comprar décadas de memória.
A economia da atenção
Outro elemento fundamental para compreender a valorização da NBA é a disputa pela atenção. Em uma economia cada vez mais baseada em plataformas digitais, acompanhar uma equipe significa participar continuamente de um fluxo de conteúdos, histórias e conversas.
A NBA conseguiu transformar seus jogadores em marcas globais. As redes sociais ampliaram o alcance dos atletas, os documentários aprofundaram suas trajetórias e os melhores momentos das partidas passaram a circular muito além das transmissões tradicionais.
O resultado foi a criação de comunidades internacionais de torcedores. Um fã no Brasil, na China ou na Europa pode acompanhar diariamente uma franquia localizada em Los Angeles e construir uma relação emocional com ela.
A distância geográfica deixou de ser uma barreira porque a marca passou a existir em diferentes espaços culturais.
Da paixão ao investimento
A entrada de fundos de investimento e grupos financeiros no controle das franquias mostra uma mudança importante na relação entre esporte e mercado. Equipes esportivas passaram a ser vistas como ativos raros, com potencial de valorização semelhante ao de grandes propriedades econômicas.
A lógica é simples: existem poucas franquias disponíveis, uma audiência global consolidada e diversas fontes de receita, como direitos de transmissão, publicidade, venda de produtos e acordos comerciais.
O atual modelo da NBA favorece essa valorização porque combina exclusividade e crescimento. A liga controla o número de participantes, protege o valor das marcas existentes e negocia coletivamente grandes contratos de mídia.
O esporte, nesse cenário, torna-se uma forma particular de propriedade cultural.
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O que realmente está sendo vendido?
A venda de uma franquia como o Lakers revela uma mudança mais ampla na forma como o capitalismo atribui valor às coisas. Produtos podem ser fabricados em larga escala, mas histórias não podem ser reproduzidas com facilidade.
O que um investidor compra quando adquire uma equipe como essa é uma posição dentro de uma narrativa construída por gerações.
Ele compra os títulos, os ídolos, as imagens e as lembranças associadas à marca. Compra uma comunidade de torcedores e a possibilidade de continuar produzindo novas histórias a partir de um passado já consolidado.
A NBA mostra que, no capitalismo contemporâneo, cultura e economia deixaram de ser campos separados. As emoções, os símbolos e as memórias coletivas passaram a fazer parte do mercado.
O Los Angeles Lakers vale bilhões porque conseguiu transformar basquete em patrimônio cultural.
E, em uma época em que histórias se tornaram uma das formas mais poderosas de produzir valor, poucas coisas são tão valiosas quanto uma história que milhões de pessoas desejam continuar acompanhando.
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André Sampaio
André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).
