Às dez da manhã da última terça-feira (22), horário de Brasília, Lula subiu ao púlpito da Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova York. Foi a décima primeira vez que ele discursa ali como presidente. Defendeu o multilateralismo como um dos eixos da política externa brasileira e cobrou reforma do Conselho de Segurança. Insistiu na negociação como caminho para resolver conflitos, num ano em que a lista de guerras ativas no mundo não para de crescer. Logo depois dele, falou Trump.
Essa ordem não é acaso, e não termina em Trump. Desde 1955, os Estados Unidos, como país anfitrião da sede da ONU, falam sempre em segundo lugar. Depois deles, a fila segue critérios que misturam peso diplomático, equilíbrio geográfico entre continentes e a ordem em que cada delegação se inscreveu. Mas antes de todo mundo, ano após ano, só existe uma posição fixa: a do Brasil.
Setenta anos depois de essa praxe começar a se firmar, quase ninguém mais pergunta por que ela existe. Ela simplesmente acontece, como se sempre tivesse sido assim. Mas nada em diplomacia internacional é assim por acaso, e a origem desse costume atravessa a fundação da própria ONU.
Um hábito que virou protocolo
A convenção formal se consolida em 1955, na décima sessão da Assembleia Geral. Antes disso, porém, o Brasil já vinha abrindo os trabalhos com mais frequência do que qualquer outro país desde o fim dos anos 1940. Ficava à frente de nomes como México, Estados Unidos, Canadá, Cuba ou Filipinas. O que começou como hábito, a ONU converteu em praxe.
Essa consolidação carrega um subtexto de Guerra Fria. Numa Assembleia dividida entre o bloco americano e o bloco soviético, abrir os trabalhos com qualquer uma das duas superpotências era arriscado. Podia parecer um gesto de preferência. Um país de peso médio, alinhado ao Ocidente mas sem protagonismo suficiente para desequilibrar a leitura política do momento, oferecia uma saída. Resolvia o problema sem resolver a disputa. Até hoje, o secretariado da ONU costuma confirmar previamente com a missão brasileira se o país deseja manter o costume. Isso revela algo importante: não é uma regra escrita, é uma escolha renovada todo ano.
A Assembleia também mudou de escala desde então. A ONU nasceu em 1945 com 51 países-membros; hoje reúne 193. O debate geral de setembro se estende por quase duas semanas, com um limite voluntário de quinze minutos por discurso. Nesse desfile que só cresceu, a posição do Brasil na largada permanece exatamente a mesma.
Quando ninguém queria falar primeiro
A explicação mais repetida vem do próprio protocolo das Nações Unidas. Desmond Parker, ex-chefe de protocolo da ONU, resume assim: “antigamente, quando ninguém queria falar primeiro, o Brasil sempre se oferecia para abrir os trabalhos. E assim ganhou o direito de falar primeiro na Assembleia Geral”. Por trás dessa frase simples existe um cálculo diplomático bem concreto.
Discursar por último tem vantagem óbvia: permite ouvir os outros antes de fixar posição, ajustar o tom, responder o que foi dito. Discursar primeiro faz o oposto. Expõe o país sem rede de proteção, obrigado a fixar sua leitura do mundo antes de saber que leitura os demais trariam à mesma sala. Numa época em que cada frase de cada delegação era lida como sinal de alinhamento entre Washington e Moscou, esse risco pesava ainda mais.
Foi exatamente essa relutância generalizada que abriu espaço para o Brasil. Nenhuma grande potência queria o desconforto simbólico de abrir os trabalhos. Um país de perfil mais discreto podia ocupar esse lugar sem custo político maior. O que nasceu como covardia alheia virou, para o Brasil, um dos poucos ativos diplomáticos permanentes que o país possui.
Oswaldo Aranha e o prestígio fundador
A origem mais funda dessa disposição remonta a 1947, quando o diplomata gaúcho Oswaldo Aranha presidiu a primeira sessão especial da Assembleia Geral. Na sequência, presidiu também a segunda sessão ordinária daquele ano. Foi sob sua presidência que a ONU tomou uma das decisões mais consequentes de sua história. Foi quando aprovou a partilha da Palestina, pela Resolução 181, em 29 de novembro de 1947, abrindo caminho para a criação do Estado de Israel. Em meio a uma votação tensa, Aranha rejeitou propostas dos países árabes e da Colômbia para devolver o plano à discussão em comitê. Conduziu a sessão até o fim.
Aranha já chegava a esse posto com capital acumulado. Havia sido embaixador do Brasil em Washington durante boa parte da Segunda Guerra Mundial, articulando proximidade pessoal com Franklin Roosevelt. Também chefiara a delegação brasileira na conferência de São Francisco, em 1945, onde a própria Carta da ONU foi redigida. Chegar à presidência da Assembleia Geral dois anos depois não era acidente de carreira. Era continuidade de um projeto diplomático que via o Brasil como mediador natural entre potências.
Stanley Hilton, autor de Oswaldo Aranha: uma biografia, reconstrói como esse protagonismo consolidou o nome do Brasil entre os fundadores simbólicos da nova ordem internacional. Foi um momento em que a ONU ainda inventava suas próprias regras. Prestígio pessoal de um diplomata, nesses primeiros anos frágeis da organização, se converteu com facilidade em prestígio de Estado. E prestígio de Estado, uma vez instalado num calendário que se repete todo setembro, tende a sobreviver ao diplomata que o conquistou.
De chanceler a presidente
Por décadas, quem discursava em nome do Brasil eram chanceleres ou embaixadores, não o presidente da República. Isso só muda em 1982, quando João Figueiredo se torna o primeiro presidente brasileiro a discursar pessoalmente na abertura da Assembleia. Depois dele, José Sarney, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Dilma Rousseff, Michel Temer e Jair Bolsonaro mantiveram o costume. Cada um discursou pessoalmente ao menos uma vez durante o mandato.
Lula é hoje o caso mais extremo dessa continuidade. Discursou todos os anos de seu primeiro e segundo mandatos, entre 2003 e 2009. Voltou em 2023, já no terceiro mandato, e soma agora o discurso desta última terça-feira (22). Onze aparições ao longo de mais de vinte anos fazem dele o presidente brasileiro com mais discursos de abertura na história da Assembleia. A única ausência notável nessa sequência de mais de quarenta anos foi Itamar Franco, que preferiu não abrir pessoalmente os trabalhos durante seu mandato.
A tradição também já foi quebrada pelo lado americano, embora raramente. Ronald Reagan discursou antes do Brasil em 1983 e 1984. Em 2016, foi o Chade quem ocupou o segundo lugar — não por disputa de protocolo. O motivo foi outro: o presidente dos Estados Unidos daquele ano chegou atrasado à sessão. Fora essas exceções pontuais, o costume resistiu a décadas de crises e trocas de governo em praticamente todos os países-membros.
O que um costume diplomático revela
Chama atenção que um gesto de gentileza burocrática, nascido da relutância alheia em falar primeiro, tenha se transformado num privilégio raro. É um dos poucos símbolos que o Brasil mantém intocados há setenta anos na diplomacia internacional. Diferente de assento permanente no Conselho de Segurança, que o país reivindica sem sucesso desde a própria fundação da ONU, esse direito é outra coisa. Abrir a Assembleia Geral não depende de poder militar nem de peso econômico. Depende de protocolo. E o protocolo, uma vez fixado, tende a durar mais do que as circunstâncias que o criaram.
A teoria clássica das relações internacionais costuma medir poder em termos duros. Entram aí tamanho de exército, tamanho de PIB, assento em conselhos que decidem guerra e paz. Sob essa régua, o lugar do Brasil na fila de discursos não deveria significar nada. E ainda assim ele significa, porque prestígio internacional também se constrói por acúmulo de gestos repetidos e por hábito reconhecido coletivamente. É um lugar que ninguém mais se lembra de disputar porque já esqueceu que um dia foi disputável.
Talvez seja esse o detalhe mais revelador de toda a história. O Brasil segue falando primeiro na ONU não porque seja hoje a maior potência da sala. É porque, num setembro de 1947, um diplomata se recusou a devolver uma decisão difícil para depois. Setenta anos depois, o mundo mudou várias vezes. O lugar na fila, não.
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André Sampaio
André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).
