Bad Bunny no Super Bowl e a Disputa pela História da América Latina

Bad Bunny no Super Bowl e a Disputa pela História da América Latina

Quando o maior palco do império vira sala de aula

Durante décadas, o show do intervalo do Super Bowl funcionou como uma espécie de vitrine do consenso. Um espaço onde tudo precisa ser grande, espetacular, eficiente — e, sobretudo, confortável. Ali, a cultura pop norte-americana se apresenta ao mundo como uma promessa de unidade, progresso e sucesso. É o império cantando para si mesmo, embalado por luzes, coreografias precisas e hits cuidadosamente despolitizados.

Por isso, talvez a pergunta mais honesta sobre a apresentação de Bad Bunny no Super Bowl não seja “foi boa ou ruim?”, mas outra: o que exatamente estava sendo interrompido ali?

Porque o que Bad Bunny fez não foi apenas um show. Foi uma fricção. Um curto-circuito simbólico dentro de um dos eventos mais caros, mais assistidos e mais ideologicamente controlados do planeta. Um espaço desenhado para celebrar a América enquanto marca, não enquanto problema.

E, de repente, o problema entrou em cena falando espanhol.

O palco onde nada deveria incomodar

O Super Bowl não é só um evento esportivo. Ele é um ritual de reafirmação. Ali se encontram publicidade bilionária, patriotismo coreografado, entretenimento global e a narrativa do “sonho americano” em sua forma mais concentrada. Não por acaso, manifestações políticas ali sempre causam desconforto — mesmo quando são cuidadosamente domesticadas.

Quando Bad Bunny sobe ao palco com uma performance praticamente inteira em espanhol, sem pedir licença, sem tradução simultânea, sem concessão estética óbvia ao padrão americano, algo se desloca. Não se trata apenas de linguagem. Trata-se de quem pode falar, sobre o quê e em qual espaço.

A apresentação se constrói a partir de símbolos que, para grande parte do público global, talvez pareçam apenas cenografia exótica: plantações de cana-de-açúcar, vendedores ambulantes, idosos jogando dominó, apagões de energia. Mas nada ali é neutro. A cana não é só paisagem: é história colonial. O apagão não é efeito visual: é política pública. A bandeira porto-riquenha em azul-claro não é variação estética: é disputa de memória.

Bad Bunny não está “representando” Porto Rico. Está reapresentando — no sentido mais literal do termo. Tornando visível aquilo que a lógica do espetáculo costuma apagar.

Falar espanhol onde se exige silêncio

Talvez um dos gestos mais potentes da apresentação tenha sido justamente o mais simples: cantar em espanhol. Não como exotismo, não como tempero multicultural, mas como idioma principal. Em um evento transmitido para mais de cem milhões de pessoas, dentro dos Estados Unidos, isso não é detalhe. É gesto político.

A reação de Donald Trump — classificando o show como uma afronta, algo “incompreensível” e “repugnante” — revela mais do que um ataque pessoal. Ela escancara o incômodo estrutural: o espanhol ali não é só língua, é presença. Presença de corpos, histórias e conflitos que sustentam o império, mas raramente são autorizados a falar em seu centro simbólico.

Quando Bad Bunny ergue a frase “Juntos somos a América”, ele não está pedindo inclusão. Está disputando o significado da palavra América. Quem é americano? O que dá direito a usar esse nome? Quem fica de fora quando o hino toca?

Não por acaso, a apresentação termina nomeando países do continente — incluindo o Brasil — como quem redesenha um mapa afetivo. Um mapa que não coincide com fronteiras políticas, mas com histórias compartilhadas de colonização, exploração e resistência.

Do espetáculo ao projeto

Nada disso, porém, surge do nada. A apresentação no Super Bowl não é um ponto fora da curva na trajetória de Bad Bunny. Ela é continuidade. Desdobramento. A culminação visível de um projeto que já vinha sendo construído em outra escala: o álbum DeBÍ TiRAR MáS FOToS.

Desde o título, o disco opera como um comentário sobre memória. Tirar mais fotos não é apenas registrar momentos felizes; é resistir ao esquecimento. É criar arquivo. É afirmar que aquilo que parece cotidiano, banal ou periférico também merece ser lembrado.

O álbum não se limita ao som. Ele se espalha. Vira curta-metragem, performance em telejornal local, ônibus circulando com música alta pelas ruas da ilha, visualizações no YouTube que funcionam como pequenas aulas de história. Um verdadeiro dispositivo transmediático, em que cada suporte amplia o outro.

É aqui que a figura do historiador entra em cena — e muda tudo.

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Quando a história sai da universidade

Jorell Meléndez-Badillo não é um consultor decorativo. Sua participação no álbum não serve para legitimar academicamente uma obra já pronta. Pelo contrário: ele ajuda a estruturá-la. A história não aparece como pano de fundo, mas como eixo.

O gesto é radical justamente por sua simplicidade. Durante uma semana, longe do computador, Jorell escreve à mão fragmentos da história de Porto Rico — da conquista espanhola à invasão norte-americana, das lutas independentistas à americanização forçada, das espécies endêmicas ao nascimento dos ritmos populares.

Não se trata de “conteúdo educativo” embalado para consumo rápido. Trata-se de escolha política de linguagem. Textos curtos, diretos, acessíveis. Pensados não para pares acadêmicos, mas para avós, estudantes, trabalhadores, professores do ensino básico.

Em um contexto em que políticas de austeridade fecharam centenas de escolas em Porto Rico, a história encontra outro caminho para circular. Se a sala de aula foi desmontada, ela reaparece no YouTube, no Spotify, no celular.

FOTO: REPRODUÇÃO/NFL: APRESENTAÇÃO DO CANTOR PORTO-RIQUENHO BAD BUNNY NO SUPER BOWL 60

Música como contra-arquivo

Há algo profundamente incômodo — e revelador — no fato de que milhões de pessoas estejam aprendendo história de Porto Rico por meio de um álbum pop. Isso diz menos sobre a “popularização” da cultura e mais sobre o esvaziamento deliberado dos espaços formais de produção de memória.

Quando Jorell fala sobre governadores militares impostos pelos Estados Unidos após 1898, ele não está oferecendo uma curiosidade histórica. Está explicando por que certos vazios persistem. Por que tanta gente não conhece sua própria história. Por que o colonialismo também opera pelo apagamento pedagógico.

Bad Bunny entende isso intuitivamente. Por isso o disco não grita slogans independentistas. Ele não precisa. Ele trabalha no campo do afeto, da identificação, da familiaridade cultural. Salsa, plena, bolero, reguetón. Sons que atravessam gerações e criam pontes onde antes havia rejeição.

A política aqui não é panfleto. É estrutura.

Quando a história encontra o ouvido

Se a apresentação no Super Bowl escancarou o conflito, é no álbum que ele se aprofunda. Porque, se no maior palco do entretenimento global Bad Bunny interrompeu o fluxo esperado do espetáculo, em DeBÍ TiRAR MáS FOToS ele faz algo ainda mais ambicioso: reorganiza a escuta. Não apenas o que se ouve, mas como se ouve e a partir de onde se escuta.

Nesse sentido, o disco não funciona apenas como uma sequência de músicas. Ele opera como um arquivo vivo. Um arquivo que não se apresenta com a rigidez dos manuais escolares nem com a autoridade distante da academia, mas com a intimidade de quem fala de dentro da própria história.

É justamente aí que a presença do historiador deixa de ser um detalhe curioso e passa a ser central.

O historiador fora do lugar esperado

Tradicionalmente, espera-se que o historiador ocupe certos espaços bem delimitados: a universidade, o livro, a conferência, o artigo especializado. No máximo, uma entrevista pontual em algum veículo de imprensa. No entanto, quando Jorell Meléndez-Badillo aceita escrever os fragmentos históricos que acompanham as visualizações do álbum, ele desloca essa expectativa.

Mais do que isso: ele a confronta.

Ao escrever à mão, longe do computador, fora da lógica produtivista que marca tanto a academia quanto a indústria cultural, Jorell produz um gesto simbólico poderoso. A história ali não é pensada como mercadoria de prestígio, mas como ferramenta de circulação. Cada fragmento não busca esgotar um tema, mas abrir uma fresta. Não pretende fechar interpretações, mas convidar à curiosidade.

E, sobretudo, escolhe um idioma e um tom. Um espanhol claro, direto, sem jargões. Uma escrita que não exige credenciais para ser compreendida. Uma história que não se impõe de cima para baixo, mas que se oferece como conversa.

Entre a escola que fecha e a memória que resiste

Esse gesto ganha ainda mais peso quando inserido no contexto porto-riquenho recente. Afinal, como o próprio Jorell aponta, o fechamento de mais de 400 escolas na ilha não é apenas um dado administrativo. É um projeto político. Um projeto que, ao cortar o acesso à educação pública, também corta o acesso à história.

Nesse cenário, a austeridade não é apenas econômica. Ela é pedagógica. Define o que pode ser ensinado, lembrado, transmitido. Ou, mais precisamente, o que pode ser esquecido.

Por isso, quando a história reaparece mediada pela música, ela não está ocupando um espaço alternativo por acaso. Está preenchendo um vazio produzido deliberadamente. Se a escola desaparece, a cultura assume um papel que nunca deveria ter sido exclusivamente seu, mas que passa a ser necessário.

Assim, o álbum se transforma, ainda que informalmente, em sala de aula. Uma sala de aula sem carteiras, sem provas, sem currículos oficiais — mas não sem conteúdo, rigor ou intenção.

A pedagogia do afeto

Além disso, há um elemento decisivo que ajuda a explicar o alcance do projeto: o afeto. Diferentemente de discursos políticos diretos, que muitas vezes reforçam fronteiras ideológicas, Bad Bunny opta por outro caminho. Ele fala de identidade não como palavra de ordem, mas como experiência sensível.

A mistura de ritmos — salsa, plena, música jíbara, bolero, reguetón, dembow — não é apenas estética. Ela funciona como estratégia de aproximação. Sons que atravessam gerações, classes e posicionamentos políticos criam um terreno comum. Um espaço onde pessoas que talvez discordem sobre o futuro político de Porto Rico conseguem, ao menos por alguns minutos, compartilhar uma memória cultural.

Nesse ponto, a história deixa de ser apenas informação e se torna reconhecimento. Reconhecimento de si, do outro, do território. E é justamente por isso que o álbum consegue circular para além da chamada “grieta” política da ilha.

Bad Bunny não pede adesão ideológica explícita. Ele constrói identificação.

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História contra a lógica do esquecimento rápido

Ao mesmo tempo, o projeto desafia outra lógica dominante: a do consumo acelerado. Em um ambiente digital marcado por conteúdos descartáveis, por trends que duram horas e por memórias cada vez mais curtas, DeBÍ TiRAR MáS FOToS insiste em desacelerar.

O próprio título é um convite à permanência. Tirar mais fotos é, afinal, reconhecer que aquilo importa antes que desapareça. É produzir vestígios contra o apagamento. É dizer: isso esteve aqui.

Quando Jorell fala do sapo concho ameaçado pela introdução de espécies estrangeiras, ou do coquí levado ao Havaí nos fluxos da migração operária, ele não está apenas narrando curiosidades ecológicas. Ele está desenhando uma metáfora do próprio colonialismo. Um sistema que desloca corpos, espécies, culturas e depois naturaliza as consequências.

Dessa forma, a história deixa de ser passado distante e se torna chave interpretativa do presente.

Quem conta a história — e para quem?

Talvez a pergunta mais incômoda que esse projeto levanta seja justamente essa. Porque, ao alcançar milhões de pessoas fora dos circuitos tradicionais do saber, o álbum expõe uma contradição: por que foi preciso um artista pop para que essa história circulasse dessa forma?

Isso não diminui o trabalho acadêmico. Pelo contrário. Ele o valoriza — ao mostrar o que acontece quando o conhecimento rompe seus muros. Mas também obriga a uma reflexão: quantas histórias seguem confinadas não por falta de relevância, mas por falta de canais?

Quando Jorell diz que seu sonho era que o conhecimento produzido na universidade se infiltrasse no mundo, ele está nomeando um desejo antigo — e frequentemente tratado como ingênuo. No entanto, o sucesso do projeto mostra que talvez o problema nunca tenha sido o interesse do público, mas as formas de mediação.

O Super Bowl como sala de aula improvisada

É aqui que tudo se fecha. A apresentação no Super Bowl não foi um evento isolado. Ela foi a explosão visível de um processo que já estava em curso. Um processo que começa na história, passa pela música, atravessa a pedagogia e desemboca no maior palco possível.

Quando Bad Bunny canta em espanhol para o mundo inteiro, ele não está apenas representando Porto Rico. Ele está levando consigo uma história que, por muito tempo, foi empurrada para as margens. E, ao fazer isso, ele transforma o espetáculo em aula — ainda que uma aula indisciplinada, barulhenta, cheia de contradições.

Talvez seja justamente por isso que tenha incomodado tanto.

Final – A história não pede permissão

No fim das contas, o que esse episódio nos mostra é que a história não desaparece quando é silenciada. Ela apenas muda de forma. Às vezes vira música. Pode ser vista em forma de imagem. Às vezes invade um estádio lotado em plena final da NFL.

A pergunta que fica não é se Bad Bunny deveria ou não ter feito política no Super Bowl. A pergunta é outra, bem mais incômoda: por que ainda nos surpreendemos quando a história resolve falar alto?

E, mais ainda: quando ela fala, estamos dispostos a escutar — ou preferimos fingir que era só um show?

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André Sampaio

André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).

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