A Engrenagem de Ferro e o Estado Camaleão

A Anatomia do Poder Real

Se você acompanha apenas as manchetes do Ocidente, o Irã está sempre a “semanas de cair”. Esse erro se repete há décadas. Olhar apenas para as ruas de Teerã é confundir febre com doença. No Texto 1, vimos o vulcão interno: economia em colapso, juventude rompida com o regime, um país desligado da internet como quem fecha as cortinas para não ver o incêndio. Agora vem a pergunta que realmente importa — e que quase ninguém quer encarar:

por que um sistema tão odiado continua de pé?

A resposta não está nos sermões de sexta-feira, nem nos véus, nem na retórica religiosa. Ela está em um arranjo de poder brutalmente eficiente, onde fé é fachada e o que sustenta o regime é dinheiro, armas e controle econômico. Neste segundo capítulo da nossa trilogia, entramos no coração da máquina: a Engrenagem de Ferro. Um complexo industrial-militar que transformou o Irã em algo menos ideológico e muito mais perigoso — uma ditadura empresarial armada até os dentes.

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1. A Guarda Revolucionária: o CEO de Farda

Para entender o Irã de 2026, é preciso abandonar a imagem da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) como “apenas” uma força militar. Ela não é o Exército. Ela é o conglomerado.

Pense em uma instituição que combina o poder de fogo das Forças Armadas com o alcance econômico de uma grande holding estatal — só que sem acionistas, sem transparência e sem Congresso. Como explicou o embaixador Cesário Melantonio Neto, a IRGC e as fundações religiosas (as chamadas Bonyads) controlam cerca de 40% da economia iraniana. Isso não é detalhe técnico. É a espinha dorsal do regime.

É dessa forma que o poder se materializa: por meio de empresas como a Khatam al-Anbiya, seu braço de engenharia, a Guarda domina obras de infraestrutura, refinarias, barragens, mineração, telecomunicações e até a rede de fibra óptica que hoje o governo desliga quando precisa silenciar o país. O resto é mecânica bruta — o fuzil protege o contrato. O contrato financia o fuzil.

Na prática, isso gera uma perversão perfeita: quando sanções internacionais apertam o cerco, quem controla o contrabando, o mercado paralelo e as rotas clandestinas são os próprios generais. A crise que empobrece a população engorda a elite militar. Falta comida nas prateleiras, mas não falta lucro para quem decide o que entra no país.

Por isso, para a cúpula da IRGC, a queda do regime não é uma questão ideológica — é uma ameaça patrimonial. Eles não lutam apenas por Alá. Lutam por ações em bancos, participação em mineradoras e domínio sobre o setor energético. O Irã virou um sistema onde a teocracia é o discurso, mas o motor é o capitalismo armado.


2. A Venezuelização e o Estado Camaleão

O conceito de “venezuelização”, usado por Melantonio, talvez seja a chave mais precisa para entender o Irã atual. Quando percebeu que a fé já não mobilizava as ruas, o regime fez uma escolha simples: comprou as armas.

Assim como Nicolás Maduro entregou a PDVSA e a logística de alimentos aos generais para evitar um golpe, os aiatolás entregaram a economia à Guarda Revolucionária. O resultado é o que podemos chamar de Estado Camaleão.

À primeira vista, tudo parece igual: turbantes, slogans antiamericanos, rituais religiosos. Na prática, porém, o sistema opera como uma ditadura militar pragmática, onde o clero virou peça decorativa e o poder real está nos quartéis e nas diretorias empresariais controladas pela IRGC.

O presidente Masoud Pezeshkian pode ensaiar discursos conciliatórios para a juventude, mas isso é ruído. Ele não controla a repressão, não controla a economia e não controla o futuro. O regime não busca ser amado. Busca ser indispensável para quem carrega as armas.

Nesse contexto, no Irã de 2026, oficiais de alto escalão vivem em enclaves de luxo no norte de Teerã, imunes ao racionamento, à inflação e ao apagão digital. Assim, a lógica é simples e cínica: não é preciso convencer o povo — basta garantir que ninguém com poder suficiente queira pular do barco.


3. O Precipício da Sucessão

Toda engrenagem, por mais robusta, tem um ponto de falha. No caso do Irã, ele é biológico.

Ali Khamenei tem 86 anos, e o silêncio absoluto sobre sua saúde é mais revelador do que qualquer comunicado oficial. O país vive uma contagem regressiva não declarada. A sucessão pode ser o gatilho tanto para o colapso quanto para a mutação final do regime.

Três cenários dominam os bastidores:

A Solução Dinástica
Mojtaba Khamenei, o filho, é o nome que circula nos corredores do poder. Ele tem apoio de setores duros da inteligência, mas sua ascensão seria um paradoxo histórico: a Revolução de 1979 nasceu para derrubar uma monarquia hereditária. Transformar o Irã em um feudo familiar pode ser o fósforo que falta para incendiar as ruas.

A Junta Militar Disfarçada
Aqui, a Guarda decide que o clero atrapalha. Um líder religioso simbólico seria mantido para consumo interno, enquanto um conselho de generais assumiria o comando real do Estado. Seria o fim prático da teocracia e o nascimento oficial de uma ditadura militar — sem véus ideológicos.

A Fragmentação
O cenário mais instável. Sem consenso após a morte de Khamenei, facções rivais disputariam armas, dinheiro e território. Uma guerra civil de baixa intensidade, silenciosa, mas devastadora. É o cenário que Washington e Tel Aviv observam com lupa.

O exílio, liderado por Reza Pahlavi, tenta se apresentar como alternativa estável. Mas há um abismo entre essa narrativa e o que acontece nas ruas. Quem enfrenta a Basij não está morrendo para trocar um regime religioso por um sobrenome histórico. O alvo é outro: a desmontagem completa da Engrenagem de Ferro.


O que vem por aí?

O Texto 2 deixa claro: o regime iraniano não se sustenta por consenso, mas por uma aliança sólida entre dinheiro e armas. É uma fortaleza pesada, resistente, mas rígida. Sobrevive drenando o futuro do país.

No entanto, o Irã não joga sozinho. No último capítulo desta série, vamos ampliar o mapa. Como Donald Trump e Benjamin Netanyahu pretendem atacar essa engrenagem? Qual o papel da China e do BRICS como pulmão artificial do regime sob sanções? E até onde a geopolítica global está disposta a ir enquanto o povo iraniano paga o preço?

Encerraremos o dossiê conectando as ruas de Teerã ao tabuleiro do mundo. Porque, em 2026, nada ali é apenas local.

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André Sampaio

André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).

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