Entre dados, mercado e jogo: o limite da eficiência no futebol

Entre dados, mercado e jogo: o limite da eficiência no futebol

Introdução — eficiência como conquista, não como erro

A entrada da eficiência no futebol não foi um acidente — nem uma tragédia. Ela surgiu como resposta a problemas muito concretos: gestões desorganizadas, desperdício de recursos, clubes quebrados por decisões ruins, carreiras encurtadas por escolhas tomadas no improviso ou no impulso. Durante muito tempo, falar em dados, métricas e modelos analíticos foi falar em cuidado. Em muitos casos, eles ajudaram o futebol a se ver melhor — e a se organizar melhor.

Este texto não nasce do desejo de rejeitar esse movimento. Pelo contrário. Parte do reconhecimento de que a profissionalização trouxe ganhos reais para o jogo. O ponto que interessa aqui é outro, mais sutil e talvez mais difícil de perceber. O momento em que a eficiência deixa de ser uma ferramenta entre outras e começa a se comportar como critério moral. Quando não se discute mais o que queremos fazer com os dados, mas apenas o que os dados autorizam fazer.

Ao longo do texto, a ideia é observar esse deslocamento com calma, sem nostalgia e sem demonizar ferramentas que vieram para ficar. A pergunta não é se a eficiência funciona — muitas vezes, ela funciona muito bem. A pergunta é o que acontece com o futebol quando uma única lógica passa a organizar todas as decisões, todos os olhares e todos os critérios de valor. É nesse ponto, quase silencioso, que a eficiência começa a deixar de ser método e passa a operar como ideologia.

Leia também: O Jogo que o Capital Comprou


Quando o modelo desenha o campo do possível

O Brentford é frequentemente citado como exemplo de sucesso — e com razão. Em um ambiente financeiramente desigual como a Premier League, o clube construiu temporadas competitivas com orçamento reduzido, decisões consistentes e um uso sofisticado de dados no recrutamento. O modelo mostrou que é possível competir em alto nível sem reproduzir a lógica financeira dos grandes clubes.

É justamente aí que surge a questão estrutural. No Brentford, os dados não apenas orientam decisões: eles organizam o olhar. A triagem estatística antecede a observação subjetiva e delimita quais jogadores entram no campo do possível. A análise humana permanece, mas já opera dentro de um recorte previamente definido.

Para quem não cabe no óbvio: o Conversa Fora precisa de você.

O modelo funciona — e por isso mesmo tende a naturalizar seus próprios critérios. Certos perfis de jogador não são recusados explicitamente; eles simplesmente não aparecem com força suficiente nos indicadores. Não se trata de exclusão deliberada, mas de um efeito colateral da eficiência: o futebol que se torna visível é aquele que se ajusta melhor à linguagem da métrica disponível.

O sucesso esportivo não invalida a crítica; ao contrário, a torna mais precisa. A pergunta deixa de ser “funciona?” e passa a ser outra, mais sutil e incômoda: o que se torna improvável quando o modelo passa a decidir como enxergamos o jogo?


A neutralidade dos números e o apagamento das escolhas

Dados parecem neutros. Gráficos parecem objetivos. Mas toda métrica nasce de uma escolha anterior: o que medir, como medir, para quê medir. Quando essas escolhas não são explicitadas, a eficiência se apresenta como evidência natural, não como construção.

O modelo da Red Bull Football Network — RB Leipzig, Salzburg, entre outros — ilustra bem esse ponto. Trata-se de um sistema altamente eficiente, reconhecido por formar e valorizar jogadores jovens, competir em alto nível e gerar sustentabilidade financeira. O futebol praticado é intenso, vertical, físico, perfeitamente alinhado aos indicadores que o modelo privilegia.

O problema não é o estilo — ele é legítimo e bem executado. A questão surge quando o modelo antecede o debate. Jogadores que não se adaptam à lógica de intensidade e transição rápida não são “discutidos”: são rapidamente deslocados, vendidos ou descartados. A eficiência não responde à cultura do clube; ela a precede.

Leia também: Arsenal e Cultura Negra: Futebol, Cidade e Identidade em Londres


Performance sem contexto: quando o projeto vira projeção

A gestão recente do Chelsea sob o consórcio Boehly–Clearlake expõe outro tipo de tensão. O clube adotou uma lógica financeira sofisticada, com contratos longos, amortização contábil e forte aposta em jovens com alto potencial de valorização.

Do ponto de vista financeiro, o modelo faz sentido. Muitos ativos adquiridos mantêm ou ampliam valor. Mas esportivamente, o clube vive instabilidade crônica: mudanças constantes de técnicos, dificuldade de identidade em campo, elencos inchados e fragmentados.

Aqui, a performance não desaparece — ela muda de lugar. O jogador performa primeiro como ativo projetado, depois como corpo em campo. A crítica não é à inteligência financeira, mas ao deslocamento do eixo: o futebol deixa de ser projeto coletivo e passa a ser sequência de apostas individuais que precisam se justificar rapidamente.


O curto prazo como prática

O Watford não é um clube caótico; é um clube coerente com a lógica que escolheu adotar. A troca recorrente de técnicos ao longo de mais de uma década não é desorganização, mas método. Quedas de desempenho são tratadas como sinais objetivos de correção imediata, e a substituição rápida aparece como resposta racional para conter riscos.

O problema é que, nesse caso, a eficiência prometida não se realiza plenamente. Apesar de evitar colapsos financeiros profundos, o clube permanece preso a ciclos curtos de reação, sem conseguir transformar estabilidade momentânea em projeto esportivo consistente. A repetição do gesto — trocar para corrigir — não parece produzir aprendizado, apenas reinício.

Com isso, o curto prazo deixa de ser apenas contingência e se torna valor. Permanecer passa a soar como teimosia. Insistir vira sinônimo de erro. A eficiência, que deveria organizar o processo, acaba esvaziando-o de sentido. O clube não se destrói, mas também não se constrói. Ele se mantém em movimento contínuo, sem tempo suficiente para que qualquer ideia amadureça, crie identidade ou produza memória.


Quando o risco deixa de ser linguagem

No Ajax pós-2019, depois do impacto internacional daquela campanha que recolocou o clube no centro do futebol europeu, a pressão por replicar o modelo “eficiente” se intensificou. A venda acelerada de talentos como Antony e Lisandro Martínez fez sentido do ponto de vista econômico. Gerou caixa, confirmou a capacidade formadora do clube e reforçou sua posição no mercado global.

Ao mesmo tempo, porém, esse movimento produziu um efeito menos visível. A tolerância ao erro diminuiu. O tempo de formação encurtou. A margem para experimentação estética — sempre parte da identidade do Ajax — passou a ser mais restrita. O risco, antes linguagem do jogo, começou a ser reclassificado como algo a ser rapidamente monetizado ou cuidadosamente evitado.

Nesse deslocamento, perder deixa de ser narrativa, processo ou aprendizado e passa a ser interpretado como falha de gestão. O futebol segue tecnicamente sofisticado, organizado e competitivo. Mas, aos poucos, torna-se mais defensivo em termos de imaginação — menos disposto a sustentar o risco como parte constitutiva da própria ideia de jogar.


O jogador entre valor e experiência

João Félix talvez seja o exemplo mais visível dessa tensão. Desde muito cedo, sua carreira passou a ser organizada por projeções financeiras ambiciosas, transferências sucessivas e expectativas que cresceram mais rápido do que o próprio tempo de jogo. Antes mesmo de se estabilizar em campo, ele já circulava como promessa de retorno, ativo estratégico, aposta de mercado.

Isso, por si só, não invalida seu talento — nem condena os clubes envolvidos. Pelo contrário: trata-se de um movimento compreensível dentro de um futebol cada vez mais conectado a lógicas financeiras globais. No entanto, esse processo revela um deslocamento importante. O valor passa a anteceder a experiência. O jogador entra em campo já carregando expectativas que não nasceram do jogo vivido, mas da planilha projetada.

Como consequência, a experiência esportiva perde espaço para a validação contínua. Cada partida deixa de ser apenas jogo e passa a ser prova. Cada erro pesa não só no placar, mas na narrativa de valorização. Nesse cenário, o corpo do jogador já não atua apenas para jogar melhor, mas para justificar um valor previamente atribuído — e é nessa inversão silenciosa que a tensão entre futebol e mercado se torna mais visível.


O equilíbrio possível

O Liverpool da era Klopp mostra que outro caminho é viável. Dados intensivos, sim — mas mediados por leitura humana, tempo de maturação e tolerância ao erro. A eficiência não substitui o projeto; ela o sustenta.

Isso reforça o ponto central: o problema não é a eficiência. É sua soberania. Quando uma única lógica decide tudo, o futebol deixa de ser campo de disputa de sentidos e passa a ser sistema autorreferente.

Nem tudo que é eficiente é desejável.
Nem tudo que é mensurável é decisivo.

A tarefa crítica não é rejeitar dados, mas recolocá-los no lugar de ferramenta — para que o futebol continue sendo mais do que aquilo que ele consegue provar que é.

André Sampaio

André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Voltar ao Topo