Como migração, colonialismo e globalização transformaram as seleções nacionais
A Copa do Mundo sempre foi apresentada como um encontro entre nações. Durante algumas semanas, bandeiras ocupam ruas, hinos antecedem partidas e seleções nacionais transformam disputas esportivas em narrativas de pertencimento coletivo. A competição foi construída sobre uma ideia simples: cada equipe representa um país, um povo e uma história compartilhada.
A Copa de 2026, porém, oferece uma imagem mais complexa.
Mais de 300 jogadores convocados para o torneio nasceram em países diferentes daqueles que representam. Entre eles estão atletas nascidos na França que defendem Senegal, jogadores formados em Portugal que vestem a camisa de Cabo Verde e uma seleção marroquina que entrou em campo sem nenhum jogador nascido dentro de suas próprias fronteiras.
À primeira vista, esses casos podem parecer curiosidades estatísticas produzidas pelas regras de elegibilidade do futebol internacional. Observados em conjunto, no entanto, sugerem algo mais significativo. Eles revelam a dimensão alcançada por processos migratórios que atravessaram o século XX e continuam moldando o mundo contemporâneo.
Por trás das escalações estão histórias familiares espalhadas por continentes, comunidades construídas longe de seus territórios de origem e trajetórias que desafiam associações tradicionais entre nacionalidade, território e pertencimento. O futebol apenas torna visível um fenômeno que já faz parte da experiência de milhões de pessoas.
A questão, portanto, ultrapassa o esporte.
O que significa representar uma nação em um mundo marcado por migrações, diásporas e identidades construídas entre diferentes lugares?
A Copa ainda é um torneio de nações?
A pergunta pode parecer estranha porque a própria estrutura da Copa sugere uma resposta evidente.
As equipes continuam organizadas por países. Os uniformes carregam símbolos nacionais. As transmissões recorrem constantemente à linguagem da identidade coletiva. Fala-se em orgulho nacional, representação nacional e tradição nacional. Poucos eventos contemporâneos mobilizam imagens tão poderosas associadas à ideia de nação.
Ao mesmo tempo, as trajetórias dos próprios atletas contam uma história diferente.
Muitos cresceram entre línguas distintas, viveram em mais de um país e desenvolveram laços afetivos que atravessam fronteiras. Alguns nasceram na Europa e representam seleções africanas. Outros são filhos ou netos de migrantes que mantiveram vínculos profundos com o país de origem da família. Em vários casos, a relação com a nação representada não passa pelo local de nascimento, mas por redes familiares, memórias compartilhadas e experiências culturais construídas ao longo de gerações.
Essa transformação não surgiu dentro do futebol. É resultado de movimentos históricos muito mais amplos.
Para compreendê-la, é preciso voltar a um período em que identidade nacional e território pareciam conceitos inseparáveis.
A Copa nasceu para representar nações
O mundo que criou as seleções nacionais
Quando a primeira Copa do Mundo foi realizada, em 1930, a ideia de nação ocupava uma posição central na organização da vida política. Desde o século XIX, Estados europeus e americanos haviam investido na construção de identidades nacionais capazes de unificar populações diversas sob uma mesma narrativa histórica.
Línguas foram padronizadas. Sistemas educacionais nacionais foram criados. Símbolos patrióticos passaram a ocupar espaços públicos. Hinos, bandeiras e cerimônias cívicas ajudaram a consolidar a percepção de que milhões de pessoas pertenciam a uma mesma comunidade, mesmo sem jamais terem se encontrado.
O historiador Eric Hobsbawm observou que grande parte dessas tradições nacionais era relativamente recente. Muitas práticas apresentadas como ancestrais haviam sido criadas ou reorganizadas pelos próprios Estados modernos. O objetivo era produzir coesão social e fortalecer a legitimidade política das novas nações.
Benedict Anderson aprofundou essa discussão ao definir as nações como “comunidades imaginadas”. O conceito não sugere que elas sejam fictícias. Pelo contrário. Anderson argumenta que uma nação existe porque milhões de indivíduos acreditam compartilhar uma história comum e um destino coletivo, mesmo sem qualquer relação direta entre si.
Foi nesse contexto que surgiram as seleções nacionais.
Elas não representavam apenas equipes esportivas. Representavam a materialização de uma ideia política que havia se tornado dominante no mundo moderno.
Leia também: Como a Copa ajudou a transformar a mídia mundial
A camisa, a bandeira e o hino
O futebol rapidamente se transformou em um dos espaços mais eficientes para encenar essa identidade coletiva.
Antes do início de uma partida internacional, uma sequência de símbolos reforça continuamente a ideia de pertencimento nacional. Os jogadores entram em campo carregando cores associadas ao país que representam. As bandeiras ocupam arquibancadas e transmissões televisivas. Os hinos criam um momento de identificação compartilhada entre atletas e torcedores.
Esses rituais não são meros protocolos esportivos.
Eles ajudam a transformar conceitos abstratos em experiências emocionais concretas. A nação deixa de existir apenas como categoria política e passa a ser sentida através de imagens, sons e gestos coletivos.
Poucos eventos produzem esse efeito com a intensidade de uma Copa do Mundo. Durante algumas semanas, milhões de pessoas acompanham simultaneamente os mesmos acontecimentos e interpretam vitórias ou derrotas como experiências compartilhadas.
Nesse sentido, a seleção nacional funciona como uma espécie de representação simbólica da comunidade imaginada descrita por Anderson.
Quando identidade e território pareciam a mesma coisa
Durante grande parte dos séculos XIX e XX, essa lógica pareceu relativamente estável.
A nacionalidade era pensada a partir de elementos como local de nascimento, território, língua e pertencimento político. Embora migrações e deslocamentos sempre tenham existido, predominava a percepção de que identidade nacional e espaço geográfico permaneciam profundamente conectados.
Foi dentro desse mundo que a Copa nasceu.
As seleções foram concebidas para representar populações associadas a territórios específicos. A ideia de um atleta defender um país onde jamais havia vivido parecia, para muitos observadores da época, uma possibilidade distante.
O cenário contemporâneo é bastante diferente.
As migrações se intensificaram, as diásporas se expandiram e novas tecnologias permitiram a manutenção de vínculos permanentes entre pessoas espalhadas por diferentes continentes. Como consequência, as relações entre identidade, território e pertencimento tornaram-se mais complexas do que aquelas imaginadas pelos criadores da Copa do Mundo.
É justamente nesse ponto que a história da França de 1998 se torna importante.
A França de 1998 e o sonho da integração
O significado de Black-Blanc-Beur
Em julho de 1998, quando a França derrotou o Brasil na final da Copa do Mundo, a vitória rapidamente ultrapassou os limites do esporte. O título foi interpretado como uma demonstração do sucesso de um projeto político e social que vinha sendo construído ao longo de décadas. Mais do que campeã do mundo, a França parecia apresentar ao planeta uma imagem otimista de si mesma.
A seleção liderada por Zinédine Zidane reunia jogadores com origens familiares espalhadas por diferentes partes do mundo. Filhos de imigrantes argelinos, caribenhos, africanos e europeus dividiam o mesmo uniforme e ocupavam o centro da narrativa nacional. Em poucos dias, uma expressão passou a resumir aquele momento: Black-Blanc-Beur. Negros, brancos e árabes apareciam como partes de uma mesma comunidade política.
A fórmula carregava uma enorme força simbólica. Em uma Europa que ainda lidava com os desafios da imigração pós-colonial, a seleção francesa parecia demonstrar que diferenças étnicas, religiosas e culturais poderiam ser incorporadas a uma identidade nacional comum. A mensagem era simples e poderosa: independentemente da origem familiar, todos eram franceses.
Zidane tornou-se o rosto mais visível dessa narrativa.
Nascido em Marselha e filho de imigrantes argelinos, ele parecia personificar a promessa republicana francesa. Sua trajetória sugeria que a nação era capaz de integrar diferentes origens sob um mesmo projeto coletivo. O futebol oferecia uma imagem concreta daquilo que a política frequentemente encontrava dificuldades para materializar.
Naquele momento, poucos símbolos pareciam representar tão bem a confiança que marcava o final do século XX.
Quando a diversidade parecia uma solução
A França de 1998 não pode ser compreendida isoladamente.
Ela fazia parte de um contexto histórico mais amplo marcado pelo otimismo em relação à globalização. O fim da Guerra Fria havia alimentado expectativas sobre um mundo mais integrado econômica, política e culturalmente. A União Europeia avançava em seus processos de unificação, fronteiras internas eram flexibilizadas e muitos observadores acreditavam que as identidades nacionais se tornariam gradualmente mais abertas e inclusivas.
Nesse cenário, a seleção francesa aparecia como uma espécie de metáfora do futuro.
A diversidade deixava de ser vista apenas como um desafio administrativo ou político e passava a ser apresentada como um ativo social. Filhos de imigrantes não eram percebidos como corpos externos à nação, mas como evidências da capacidade francesa de incorporar diferentes experiências culturais sem abandonar sua identidade republicana.
O futebol amplificou essa percepção.
A conquista da Copa transformou uma questão complexa em uma narrativa facilmente compreensível. Jogadores de diferentes origens haviam se tornado campeões do mundo vestindo a mesma camisa. Para muitos, aquela imagem parecia comprovar que integração e diversidade não eram objetivos incompatíveis.
Durante alguns anos, a França de 1998 ocupou um lugar especial no imaginário político europeu. Ela simbolizava a esperança de que sociedades cada vez mais diversas poderiam construir formas estáveis de pertencimento coletivo.
As rachaduras do modelo francês
Com o passar do tempo, porém, aquela narrativa começou a revelar suas limitações.
As tensões que pareciam temporariamente suspensas durante a Copa nunca desapareceram completamente. Questões ligadas à imigração, ao racismo e à desigualdade social continuaram presentes na sociedade francesa. Em muitos casos, permaneceram invisíveis apenas porque o entusiasmo em torno da seleção havia produzido uma poderosa sensação de unidade nacional.
A primeira década dos anos 2000 tornou essas contradições mais difíceis de ignorar.
Em 2005, a morte de dois jovens descendentes de imigrantes durante uma ação policial desencadeou uma onda de revoltas nos subúrbios franceses. Durante semanas, bairros periféricos foram palco de confrontos que chamaram atenção para problemas acumulados ao longo de décadas. Desemprego, segregação urbana, discriminação racial e exclusão social reapareceram no centro do debate público.
Aqueles acontecimentos não anulavam o significado da França de 1998. Contudo, mostravam que a celebração da diversidade não era suficiente para resolver conflitos históricos profundamente enraizados.
Ao mesmo tempo, o crescimento de discursos nacionalistas e anti-imigração em diferentes países europeus indicava que a globalização não produzia apenas integração. Também gerava inseguranças, disputas identitárias e reações políticas de sentido contrário.
A França continuava sendo uma sociedade marcada pela diversidade. O que começava a mudar era a forma de interpretar essa diversidade.
Se, em 1998, a questão central era saber quem poderia ser reconhecido como francês, as décadas seguintes apresentariam um problema diferente. Milhões de pessoas passaram a construir suas vidas entre diferentes países, culturas e referências identitárias. Em vez de escolher entre um pertencimento e outro, passaram a habitar vários deles simultaneamente.
É nesse ponto que a história da França encontra a história das diásporas contemporâneas.
O mundo que produziu as diásporas
Do império à migração
Quando observamos a seleção marroquina de 2026 ou a presença de jogadores nascidos em Portugal defendendo Cabo Verde, é fácil imaginar que estamos diante de fenômenos recentes produzidos pela globalização contemporânea.
Na realidade, muitas dessas trajetórias começaram a ser desenhadas décadas antes do nascimento dos próprios atletas.
A relação entre França e Magreb oferece um bom exemplo. Durante boa parte do século XX, Argélia, Tunísia e Marrocos estiveram sob influência colonial francesa. A presença francesa não se limitou à ocupação política dos territórios. Ela reorganizou economias, sistemas educacionais, redes administrativas e formas de circulação entre as duas margens do Mediterrâneo.
Quando a Segunda Guerra Mundial terminou, a França precisava reconstruir cidades, fábricas e infraestrutura. O crescimento econômico das décadas seguintes aumentou a demanda por trabalhadores em um ritmo que a população local não conseguia atender sozinha. Milhares de marroquinos, argelinos e tunisianos atravessaram o Mediterrâneo em busca de emprego.
O mesmo ocorreu em outras partes da Europa.
A história de Cabo Verde ajuda a compreender esse movimento. Ligado a Portugal por séculos de colonização, o arquipélago desenvolveu intensas conexões migratórias com a metrópole. Ao longo do século XX, sucessivas gerações de cabo-verdianos partiram para Lisboa, Setúbal e outras cidades portuguesas. Posteriormente, esses fluxos também alcançaram França, Holanda, Luxemburgo e Estados Unidos.
À medida que essas comunidades cresciam, novas redes familiares se formavam e novas rotas migratórias se consolidavam.
O resultado desse processo aparece hoje dentro dos gramados.
Muitos jogadores convocados para a Copa nasceram em cidades europeias porque seus pais e avós participaram desses movimentos históricos muito antes de qualquer carreira esportiva existir.
As rotas que sobreviveram ao colonialismo
A independência política das antigas colônias não interrompeu essas conexões.
As bandeiras mudaram. Os governos mudaram. As relações entre os países, porém, continuaram atravessadas por vínculos econômicos, culturais e humanos construídos ao longo de décadas.
É justamente nesse ponto que autores como Frantz Fanon, Edward Said e Achille Mbembe ajudam a ampliar a análise.
Fanon observou que o colonialismo não produzia apenas formas de dominação política. Ele reorganizava profundamente a vida social, a economia e a maneira como diferentes populações se relacionavam. Mesmo após a independência, muitas dessas estruturas continuavam influenciando o cotidiano das antigas colônias.
Edward Said, por sua vez, mostrou como as relações entre Europa e os territórios colonizados deixaram marcas duradouras nas formas de representação cultural, nos imaginários políticos e nas percepções de pertencimento.
Já Achille Mbembe chama atenção para uma questão particularmente relevante para este debate: os impérios podem desaparecer formalmente, mas seus efeitos permanecem inscritos nas formas de circulação que organizam o mundo contemporâneo.
Quando um jogador nascido em Paris escolhe representar Marrocos ou quando um atleta formado em Lisboa veste a camisa de Cabo Verde, sua trajetória individual está conectada a processos históricos muito mais amplos do que uma simples decisão esportiva.
As antigas rotas imperiais continuam produzindo efeitos concretos sobre a forma como pessoas, culturas e identidades circulam pelo planeta.
Como as diásporas se tornaram permanentes
Durante muito tempo, governos europeus enxergaram a imigração como um fenômeno temporário.
A expectativa era relativamente simples. Trabalhadores estrangeiros chegariam para ocupar determinados postos de trabalho, permaneceriam durante alguns anos e, posteriormente, retornariam aos seus países de origem.
Na prática, porém, essa previsão raramente se concretizou.
À medida que esses migrantes construíam suas vidas nos países de destino, novas relações eram estabelecidas, famílias eram formadas, filhos nasciam e comunidades inteiras passavam a ocupar um lugar permanente dentro das sociedades europeias. Assim, aquilo que inicialmente havia sido pensado como um deslocamento temporário acabou se transformando em uma presença duradoura.
Foi justamente a partir dessa permanência que surgiram as chamadas segunda e terceira gerações.
Os filhos e netos daqueles primeiros migrantes cresceram frequentando escolas europeias, falando diferentes idiomas e convivendo diariamente com referências culturais distintas. Ao mesmo tempo, muitos deles desenvolveram trajetórias profundamente conectadas aos países onde nasceram sem, contudo, romper os vínculos familiares, afetivos e simbólicos mantidos com os territórios de origem.
Além disso, o avanço dos transportes, das telecomunicações e, mais recentemente, das plataformas digitais ampliou ainda mais a capacidade de manter conexões através de grandes distâncias. Como resultado, comunidades espalhadas por diferentes países continuaram compartilhando memórias, práticas religiosas, referências culturais e sentimentos de pertencimento, mesmo quando separadas por milhares de quilômetros. Nesse cenário, emergiram as chamadas comunidades transnacionais.
Não estão concentradas em um único território. Da mesma forma, não podem ser compreendidas apenas a partir dos Estados nacionais onde seus integrantes vivem. Em vez disso, funcionam como redes distribuídas entre diferentes países, sustentadas por laços familiares, culturais e históricos que atravessam fronteiras e conectam experiências distintas.
É precisamente dentro dessas redes que imigrantes construíram sua própria experiência de pertencimento.
Em outras palavras, a convivência com múltiplos lugares, referências e identidades não começou com a escolha de uma seleção nacional. Ela já fazia parte de suas biografias muito antes do futebol profissional.
Por essa razão, quando esses atletas escolhem representar Marrocos, Senegal, Argélia, Gana ou Cabo Verde, a decisão não surge como uma ruptura. Em muitos casos, expressa uma trajetória construída entre diferentes mundos e uma forma de pertencimento que não se deixa reduzir às fronteiras de um único país.
A Copa da Diáspora
Marrocos não está sozinho
A seleção marroquina atraiu atenção mundial ao entrar em campo na Copa de 2026 sem nenhum jogador nascido dentro de suas próprias fronteiras. O dado impressiona porque desafia uma associação que durante muito tempo pareceu natural: a ideia de que uma seleção nacional seria composta principalmente por atletas nascidos no país que representam.
No entanto, concentrar a atenção apenas em Marrocos pode esconder um fenômeno muito maior.
Segundo levantamentos realizados durante o torneio, mais de trezentos jogadores convocados para a Copa nasceram em países diferentes daqueles que defendem. O caso marroquino tornou-se notícia porque levou essa tendência ao limite, mas está longe de ser uma exceção.
Senegal conta com diversos atletas formados na França. A Argélia convive há décadas com jogadores nascidos em cidades francesas que optam por defender a seleção argelina. Gana frequentemente incorpora talentos desenvolvidos na Inglaterra, na Alemanha e na Holanda. O mesmo fenômeno aparece em seleções espalhadas por diferentes continentes, revelando uma transformação que ultrapassa circunstâncias locais.
O que a Copa de 2026 parece tornar visível é algo que vinha sendo construído silenciosamente ao longo de décadas. As diásporas deixaram de ocupar uma posição marginal dentro do futebol internacional. Em muitos casos, passaram a constituir uma das principais fontes de renovação das seleções nacionais.
Mais do que um torneio entre países, a Copa contemporânea também se tornou um encontro entre histórias migratórias.
O caso de Cabo Verde
Poucos exemplos ajudam a compreender esse processo de maneira tão clara quanto Cabo Verde.
Ao longo do século XX, sucessivas ondas migratórias espalharam cabo-verdianos por diferentes partes do mundo. Comunidades significativas se estabeleceram em Portugal, França, Holanda, Luxemburgo e Estados Unidos. Em alguns momentos, o fluxo migratório foi tão intenso que a população cabo-verdiana residente no exterior passou a rivalizar numericamente com aquela que permaneceu no arquipélago.
Essa característica produziu uma relação singular entre território e pertencimento.
Em muitos países, a diáspora é vista como uma extensão da nação. No caso cabo-verdiano, ela se tornou parte constitutiva da própria experiência nacional. A história do país passou a ser construída simultaneamente dentro e fora de suas fronteiras.
Essa realidade aparece de forma evidente na seleção nacional.
Diversos atletas nasceram em cidades europeias, foram educados em sistemas escolares europeus e desenvolveram suas carreiras em clubes europeus. Ainda assim, continuam sendo reconhecidos como representantes legítimos de Cabo Verde. Sua ligação com o país não depende exclusivamente do local de nascimento, mas de vínculos familiares, memórias compartilhadas e referências culturais transmitidas entre gerações.
A nação deixa de ser apenas um território.
Passa a funcionar também como uma rede.
Quando as diásporas entram em campo
A experiência cabo-verdiana ajuda a compreender um fenômeno mais amplo.
Durante muito tempo, a imaginação política moderna associou comunidade e proximidade geográfica. Compartilhar um território significava compartilhar uma identidade coletiva. A distância, por sua vez, tendia a ser vista como um obstáculo ao pertencimento.
As diásporas contemporâneas desafiam essa lógica.
Arjun Appadurai argumenta que a globalização produziu novas formas de imaginar comunidades. Os avanços nos transportes e nas tecnologias de comunicação permitiram que populações dispersas continuassem compartilhando símbolos, referências culturais e sentimentos de identificação mesmo quando separadas por milhares de quilômetros.
Em outras palavras, o pertencimento deixou de depender exclusivamente da convivência territorial.
A Copa do Mundo oferece uma das manifestações mais visíveis dessa transformação. Quando um jogador nascido em Paris representa Senegal ou quando um atleta formado em Lisboa veste a camisa de Cabo Verde, não estamos observando apenas uma decisão esportiva. Estamos observando formas contemporâneas de pertencimento construídas através de redes familiares, memórias coletivas e experiências culturais que atravessam fronteiras nacionais.
As seleções nacionais continuam existindo.
O que mudou foi a maneira como as comunidades que elas representam passaram a se organizar.
Uma geografia que os mapas não mostram
Os mapas continuam sendo uma das principais ferramentas utilizadas para compreender o mundo.
Eles delimitam fronteiras, identificam territórios e ajudam a visualizar a organização política do planeta. Entretanto, existe uma dimensão da vida contemporânea que dificilmente aparece em qualquer mapa.
É a geografia das relações.
Uma geografia formada por famílias espalhadas entre continentes, por recursos financeiros enviados regularmente para parentes distantes, por tradições culturais preservadas através das gerações e por sentimentos de pertencimento que sobrevivem ao deslocamento geográfico.
As remessas enviadas por migrantes sustentam comunidades inteiras. As tecnologias digitais permitem contatos cotidianos entre pessoas separadas por oceanos. Celebrações religiosas, músicas, idiomas e hábitos culturais continuam circulando entre diferentes países através das redes familiares.
A Copa torna essa geografia visível.
Por trás das escalações existe uma trama de relações que conecta cidades europeias a comunidades africanas, bairros metropolitanos a pequenas localidades do interior e histórias familiares que atravessam gerações.
O futebol não cria essas conexões.
Mas oferece um palco privilegiado para observá-las.
Quando a identidade deixa de caber no passaporte
Entre Roterdã e Casablanca
Imagine alguém que nasceu em Roterdã.
Ele frequenta escolas holandesas, fala holandês no cotidiano e acompanha os debates políticos e culturais do país onde cresceu. Ao mesmo tempo, dentro de casa, escuta histórias sobre Marrocos, participa de celebrações familiares ligadas à tradição marroquina e mantém contato constante com parentes espalhados entre diferentes cidades do norte da África e da Europa.
A pergunta parece simples.
Ele é holandês ou marroquino?
A experiência concreta mostra que a resposta dificilmente cabe em uma alternativa única.
Milhões de pessoas vivem situações semelhantes em diferentes partes do mundo. Suas identidades são construídas a partir de referências múltiplas, produzidas por trajetórias familiares que atravessam fronteiras e por experiências culturais que não se limitam a um único território.
O pertencimento deixa de funcionar como uma escolha excludente.
Ele passa a operar por acumulação.
Stuart Hall e as identidades contemporâneas
Foi justamente essa transformação que levou Stuart Hall a questionar as formas tradicionais de compreender identidade.
Para Hall, as identidades contemporâneas não funcionam como essências fixas ou atributos permanentes. Elas são construídas historicamente e permanecem em constante transformação. Em vez de responder à pergunta “quem somos?”, a identidade passa a responder à pergunta “como nos tornamos quem somos?”.
Essa mudança de perspectiva é fundamental para compreender a experiência das diásporas.
Filhos e netos de migrantes frequentemente desenvolvem vínculos simultâneos com diferentes comunidades. Participam de tradições distintas, circulam entre universos culturais variados e constroem formas de pertencimento que não podem ser reduzidas a uma única nacionalidade.
A identidade deixa de ser uma categoria estável.
Torna-se um processo.
Leia também: Antes de 2002 também diziam isso sobre a seleção brasileira
Viver entre lugares
Homi Bhabha aprofundou essa discussão ao propor a ideia de hibridismo cultural.
Seu argumento parte de uma observação simples: quando diferentes culturas entram em contato, elas não permanecem intactas. Produzem novos espaços de interação, negociação e criação cultural.
Esses espaços não pertencem integralmente a nenhum dos lados envolvidos.
Eles surgem justamente do encontro.
A experiência de muitos jogadores presentes na Copa da Diáspora pode ser compreendida a partir dessa perspectiva. Suas trajetórias são marcadas por deslocamentos, traduções culturais e convivência entre diferentes referências identitárias.
Não vivem apenas em um lugar.
Também não vivem apenas entre dois lugares.
Vivem em espaços produzidos pela circulação contínua entre eles.
A Copa do Mundo ajuda a tornar essa realidade visível. Ao observarmos as trajetórias desses atletas, percebemos que as identidades contemporâneas frequentemente escapam das categorias nacionais que herdamos dos séculos anteriores.
E talvez seja justamente por isso que essas seleções despertem tanto interesse. Elas não revelam apenas mudanças no futebol. Revelam mudanças na forma como milhões de pessoas experimentam pertencimento, cultura e comunidade no século XXI.
O que uma seleção nacional representa no século XXI?
Um torneio do século XIX
Existe uma curiosa assimetria no centro da Copa do Mundo contemporânea.
Por um lado, o torneio continua organizado segundo princípios que ganharam força ao longo do século XIX. As seleções representam Estados nacionais, carregam bandeiras nacionais e disputam uma competição construída sobre a ideia de que o planeta pode ser dividido em comunidades políticas relativamente definidas. Em outras palavras, a lógica da Copa permanece profundamente ligada ao imaginário que acompanhou a consolidação das nações modernas.
Nada disso é acidental.
A própria competição surgiu em um contexto histórico no qual território, soberania e identidade coletiva pareciam elementos inseparáveis. Naquele momento, acreditava-se que uma seleção representava uma comunidade claramente delimitada por fronteiras, idioma, instituições e experiências históricas compartilhadas. O futebol internacional foi concebido para expressar essa visão de mundo.
E, em muitos aspectos, ele continua cumprindo essa função.
As torcidas ainda se mobilizam em torno de símbolos nacionais. Os hinos seguem produzindo identificação coletiva. Da mesma forma, vitórias e derrotas continuam sendo interpretadas como experiências que ultrapassam o campo e adquirem significado político, cultural e emocional.
A Copa permanece sendo, portanto, um torneio entre nações.
O problema é que o mundo que a cerca já não funciona exatamente segundo a mesma lógica.
Enquanto a estrutura da competição continua ancorada em categorias herdadas do século XIX, as trajetórias individuais passaram a refletir dinâmicas muito mais características do século XXI. As migrações se intensificaram. As diásporas cresceram. As tecnologias de comunicação aproximaram territórios distantes. E milhões de pessoas passaram a construir suas vidas entre diferentes países, idiomas e referências culturais.
É justamente nessa tensão que reside uma das questões mais interessantes da Copa contemporânea.
As regras continuam organizando o torneio a partir das fronteiras.
As biografias que entram em campo, cada vez menos.
Biografias do século XXI
As trajetórias apresentadas ao longo deste texto ajudam a perceber a dimensão dessa transformação.
Ao longo das últimas décadas, as migrações internacionais se intensificaram. Paralelamente, as diásporas cresceram e se consolidaram em diferentes partes do mundo. Além disso, o desenvolvimento das tecnologias de comunicação reduziu significativamente os efeitos da distância geográfica. Como consequência, muitas famílias passaram a viver distribuídas entre diferentes países sem, necessariamente, romper os vínculos cotidianos que as conectam.
Nesse contexto, Manuel Castells observou que a sociedade contemporânea é cada vez mais marcada por redes que atravessam territórios e conectam indivíduos localizados em diferentes regiões do planeta. Da mesma forma, Saskia Sassen demonstrou como os processos de globalização reorganizaram a circulação de pessoas, capitais e informações em escalas que frequentemente ultrapassam os limites dos Estados nacionais.
Evidentemente, essas transformações não eliminaram os Estados-nação.
Tampouco apagaram os sentimentos de pertencimento associados a eles.
O que se modificou, entretanto, foi a maneira pela qual muitas trajetórias individuais passaram a ser construídas.
Hoje, um número crescente de pessoas vive entre países, idiomas e referências culturais distintas. Em vez de substituir uma identidade por outra, elas frequentemente acumulam experiências, vínculos e memórias produzidos em diferentes lugares ao mesmo tempo. Assim, o pertencimento deixa de ser uma escolha exclusiva e passa a incorporar múltiplas camadas de identificação.
Por isso, embora as instituições continuem organizadas a partir de fronteiras territoriais, as experiências concretas de milhões de pessoas já não se ajustam tão facilmente a essa lógica.
As fronteiras permanecem.
As vidas, nem sempre.
Entre a bandeira e a biografia
É justamente nesse espaço que os casos de Marrocos e Cabo Verde se tornam tão reveladores.
À primeira vista, eles parecem desafiar a própria ideia de seleção nacional. Uma análise mais cuidadosa sugere algo diferente.
Essas equipes não representam a ausência de pertencimento nacional. Também não indicam o desaparecimento das nações. O que elas revelam é a dificuldade crescente de explicar experiências contemporâneas através de categorias construídas para um mundo muito diferente.
Os jogadores marroquinos nascidos na Holanda, na Bélgica ou na França não são menos marroquinos por causa disso. Da mesma forma, atletas cabo-verdianos formados em Lisboa ou Roterdã não deixam de participar da história e da cultura do arquipélago.
O pertencimento continua existindo.
A diferença é que ele já não depende exclusivamente do território.
A própria pergunta sobre identidade torna-se mais complexa. Em vez de exigir uma escolha definitiva entre lugares distintos, ela passa a incorporar múltiplas trajetórias, memórias e referências culturais.
Entre a bandeira estampada na camisa e a biografia de quem a veste existe um espaço que os mapas não conseguem representar completamente.
É nesse espaço que a Copa da Diáspora acontece.
A Copa das Histórias
Ao longo de sua história, a Copa do Mundo ajudou a contar diferentes histórias sobre o mundo.
Em determinados momentos, foi uma narrativa sobre nacionalismos. Em outros, refletiu disputas geopolíticas, processos de descolonização ou transformações tecnológicas. Cada época encontrou no torneio uma forma particular de enxergar a si mesma.
A Copa de 2026 parece revelar outra coisa.
Mais de trezentos jogadores nasceram fora dos países que representam. Suas trajetórias conectam bairros de Paris a cidades do Magreb, comunidades portuguesas ao arquipélago cabo-verdiano e famílias espalhadas por continentes inteiros. Por trás de cada convocação existe uma história de deslocamento, permanência, memória e pertencimento.
Durante décadas, a Copa foi entendida como uma competição entre nações.
Ela continua sendo.
Mas também se tornou um encontro entre diásporas.
Talvez essa seja uma das imagens mais reveladoras do século XXI. Não porque anuncie o fim das fronteiras ou o desaparecimento dos Estados nacionais. Pelo contrário. As bandeiras continuam presentes, os hinos continuam sendo cantados e as seleções continuam representando países.
O que mudou foram as histórias que chegam até elas.
Quando Marrocos entrou em campo sem nenhum jogador nascido dentro de suas fronteiras, a notícia foi tratada como uma curiosidade estatística. Vista em perspectiva, ela parece apontar para algo maior. Não se trata apenas de uma mudança no futebol. Trata-se de uma transformação nas formas de pertencimento que organizam a vida contemporânea.
A Copa continua sendo disputada por seleções nacionais.
Mas talvez nunca tenha revelado com tanta clareza um mundo em que as pessoas vivem, cada vez mais, entre vários lugares ao mesmo tempo.
Referências Bibliográficas
ANDERSON, Benedict. Comunidades Imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo.
APPADURAI, Arjun. Dimensões Culturais da Globalização: a modernidade sem peias.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade.
HOBSBAWM, Eric. Nações e Nacionalismo desde 1780: programa, mito e realidade.
MBEMBE, Achille. Crítica da Razão Negra.
SASSEN, Saskia. Sociologia da Globalização.
André Sampaio
André Sampaio é historiador e mestre em Tecnologias Educacionais. Pesquisa como as ideias circulam, mudam de sentido e organizam a forma como a gente entende o mundo, o tempo e a si mesmo. No Conversa Fora, misturamos curiosidade, escuta e uma boa dose de ironia pra transformar referências culturais em papo bom, desses que a gente começa sem saber onde vai parar (e ainda bem).
